Paulino Motter *
sem saudade de você
sem saudade de mim
o passado passou enfim
(…)
tanta vida
e nunca me ensinaram
a viver sem você
— Alice Ruiz
Celebrar os 80 anos de Alice Ruiz é prestar justo tributo a uma figura fundamental da poesia brasileira contemporânea, autora de uma obra que já atravessou mais de cinco décadas sem perder vigor criativo, rigor estético ou vanguardismo formal e que revela uma rara capacidade de conciliar delicadeza e insubmissão. O sarau que lhe será dedicado no Guairinha, em Curitiba, na próxima segunda-feira (12), iniciativa da Oficina de Música de Curitiba, inaugura uma extensa programação em sua homenagem, que se estenderá ao longo de 2026.
Alice cresceu em um ambiente historicamente hostil à diferença: a Curitiba de meados do século XX, ultraconservadora, clerical e avessa à experimentação, um verdadeiro laboratório social de disciplina e vigilância moral. Contraditoriamente, a cidade que ganharia fama internacional por suas inovações urbanas a partir dos anos 1970 tem sido frequentemente associada a um ethos normativo, baseado no controle dos corpos, das ideias e da linguagem — sem que isso a impedisse de se tornar um celeiro de grandes escritores. Foi nesse contexto adverso que Alice Who Is — assinatura poética espirituosa com a qual se apresentava ao mundo no início da carreira — fez sua estreia na vanguarda local, no bojo do emergente movimento de contracultura.
Nascida em 22 de janeiro de 1946, Alice começou a cultivar sua voz poética muito cedo, arriscando os primeiros versos ainda na adolescência. Apenas no início dos anos 1970, contudo, passou a publicar poemas em revistas e jornais ligados ao concretismo e ao então emergente movimento da poesia marginal. Sua verdadeira carta de alforria poética viria em 1980, com a publicação do livro de estreia Navalhanaliga, no qual já se revelam a textura e a tecitura das experiências vividas, transformadas em linguagem.
Pertencente à geração de 1968, Alice não aderiu, num primeiro momento, à militância política nem ao ativismo cultural organizado — não por falta de convicção ou potência criativa, mas porque outras prioridades se impuseram. Premida pelas exigências da vida cotidiana, teve de aprender a conciliar a vocação literária com papéis sociais pré-determinados por uma ordem patriarcal, que atribuía à mulher a administração das rotinas domésticas, o cuidado com os filhos e responsabilidades inerentes à vida adulta.
Nesse percurso, que ficaria marcado para sempre por uma perda irreparável, sua poesia não se calou; ao contrário, encontrou na experiência vivida — inclusive na dor — matéria-prima para uma escrita cada vez mais autoral, lúcida e visceral. Não é casual, portanto, que sua poesia expresse, de forma recorrente, uma insurgência profunda contra estruturas persistentes de dominação.
Alice encarnou e praticou um feminismo radicalmente libertário, manifesto tanto na forma de conduzir a vida privada quanto na escrita pioneira da juventude sobre a condição da mulher e, sobretudo, na própria tessitura de sua poesia. Um feminismo que não precisava se autonomear para existir — porque já estava inscrito em cada gesto, na forma e no corpo do poema. Trata-se de uma poética que desmonta, com ironia e precisão, as engrenagens simbólicas de subordinação da mulher, deslocando o olhar e subvertendo expectativas.
Esse gesto se materializa de modo exemplar nos versos de “Ladainha”, canção que se tornaria amplamente conhecida na voz de Alzira Espíndola:
Era uma vez
Uma mulher
Que via um futuro grandioso
Para cada homem que a tocava
Um dia
Ela se tocou…
(…)
Eu não sou da sua laia
Não quero sua ladainha
Pra ser mal acompanhada
Prefiro ficar na minha
Alice parte de uma narrativa aparentemente familiar — a mulher que projeta futuros nos homens que cruzam o seu caminho — para desmontá-la por dentro, operando uma virada decisiva no momento em que a personagem se volta para si mesma. A tomada de consciência não se dá pelo confronto direto, mas pela recusa, pela retirada do jogo, pelo direito de não mais responder à ladainha alheia. O efeito é devastador em sua simplicidade: um verdadeiro assalto aos pilares do patriarcado, realizado sem alarde, sem panfleto, apenas com a força exata da palavra justa.
Na poética de Alice Ruiz, a desconstrução da visão idealizada do amor romântico nasce de uma subjetividade que descoloniza o corpo e reinventa o erotismo e a sexualidade a partir do prazer feminino. Converte-se, assim, em território fértil para a invenção de uma nova gramática da emancipação feminina. É justamente nesse campo sensível que sua escrita opera os deslocamentos mais radicais. Alice demonstra que, muitas vezes, o não dito — aquilo que apenas se insinua — possui uma força arrebatadora, capaz de suspender a respiração no hiato exato da leitura.
Esse princípio encontra expressão cristalina em seus poemas mínimos, nos quais o jogo entre aproximação e recuo, afirmação e negação, produz um curto-circuito de sentidos. O erotismo surge não como excesso, mas como tensão contida, na medida exata:
Tua mão
Em meu seio
Sim não
Não sim
Não é assim
Que se mede
Um coração
Aqui, o corpo não é objeto passivo, mas campo de decisão e linguagem. O toque não conduz automaticamente ao afeto; o desejo não se confunde com entrega; o coração não se mede pela mão que tateia às cegas. Em poucos versos, Alice condensa uma ética da autonomia feminina, fazendo do poema um espaço de suspensão, no qual o leitor é convidado a repensar certezas arraigadas sobre amor, posse e intimidade.
Esses fragmentos, escolhidos quase ao acaso, com propósito ilustrativo, oferecem apenas uma pálida amostra de uma obra extensa, distribuída em mais de vinte livros de poesia e em uma centena de canções. Alice Ruiz não hesitou em trocar o provincianismo da terra das araucárias pelo ar cosmopolita de São Paulo — não como fuga, mas como escolha consciente. A maior metrópole brasileira lhe abriu novas possibilidades profissionais, inicialmente no campo da publicidade, como meio de subsistência; foi, no entanto, sobretudo no plano da criação artística que essa mudança ampliou horizontes e ativou novas potências.
Foi em São Paulo que sua poesia encontrou novos circuitos de circulação e ressonância. As parcerias musicais que se consolidaram ao longo dessas décadas formam um verdadeiro mapa da canção brasileira contemporânea, reunindo nomes como Alzira Espíndola, Zélia Duncan, Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, entre muitos outros. Suas letras ganharam corpo e alcance na voz de intérpretes de diferentes gerações, confirmando a plasticidade de uma poesia capaz de se transformar sem perder identidade.
Esse trânsito fluido entre campos artísticos distintos nunca implicou hierarquização entre o que se convencionou chamar de “alta cultura” e arte popular. Alice sempre soube que o rigor formal não é incompatível com a comunicação direta, com o canto, com o rádio, com a escuta cotidiana. Ao contrário, sua obra demonstra que a exigência estética pode — e talvez deva — habitar os espaços mais amplos de circulação cultural.
Ainda assim, é na poesia escrita — breve, precisa, afiada — que sua obra atinge uma singularidade incontornável. Alice domina como poucos o espaço mínimo do poema curto, do haicai tropical, do fragmento que concentra pensamento, emoção e silêncio. Sua escrita é feita de pausas e respirações. É econômica sem ser rarefeita; sensível sem ser ornamental; política sem ser discursiva. Cada verso parece obedecer a uma métrica quase cirúrgica: sabe exatamente onde começa e onde deve parar. Nada sobra. Nada falta.
Durante muito tempo, sua trajetória foi lida a partir de um espelhamento redutor, como se sua obra precisasse ser legitimada por vínculos afetivos ou por biografia compartilhada. Aos 80 anos, consagrada como uma das vozes mais originais da poesia brasileira contemporânea, essa leitura já não se sustenta — se é que algum dia se sustentou. Alice construiu uma obra vasta, coerente e profundamente original. Não precisou de tutela simbólica para existir. Sempre teve voz própria, ritmo próprio, visão própria.
O tributo que agora lhe é prestado em sua Curitiba natal não celebra apenas uma vida longa. Celebra uma vida literária plena, coerente e corajosa. Celebra uma poeta que nunca cedeu à acomodação, que atravessou gerações sem se fossilizar e que permanece atual justamente porque nunca escreveu para agradar o seu tempo.
Alice descobriu desde cedo que o país das maravilhas não existe. Ainda assim, escolheu não desistir do mundo. Com sua poesia, foi tornando este país real — o Brasil em que calhou nascer e viver — um pouco mais habitável, mais sensível, mais humano. Seus versos abriram espaços de escuta, iluminaram zonas cinzentas e ensinaram, a quem soube compreendê-la, que a delicadeza também é uma forma de coragem.
É isso que se celebra aos seus 80 anos.
E não é pouco.
Paulino Motter, jornalista.



