Por Gaudêncio Penaforte
Esta é a pergunta que líderes e pessoas comuns em todo o mundo estão se fazendo hoje, com a respiração suspensa. Não vivemos tempos normais. Trata-se de uma percepção amplamente compartilhada por todos aqueles que acompanham o comportamento errático, por vezes bizarro e cada vez mais perigoso do senhor senil que vara as madrugadas de insônia na Casa Branca, disparando imprecações, ameaças e disparates em postagens frenéticas na sua rede social.
Hoje, quando se completa o primeiro ano do retorno de Donald Trump ao poder, é não apenas legítimo, mas indispensável perguntar se a democracia americana logrará passar pelo teste de estresse a que vem sendo submetida e resistir ao assalto frontal liderado pelo Comandante-em-chefe do exército mais poderoso da face da Terra — um assalto conduzido com a cumplicidade complacente de uma Suprema Corte capturada e de um Congresso controlado por seus correligionários e apaniguados.
O Trump deste segundo mandato, sem os freios do sistema de pesos e contrapesos, converteu-se na maior ameaça ao que ainda resta da ordem internacional construída no pós-Segunda Guerra. Uma espécie de Nero da era da pós-verdade, instituiu um regime de intimidação permanente, marcado por arrastões espetaculares de sua polícia política — o ICE — transformada em instrumento de terror seletivo. Escancarou a chantagem como método de política externa, substituiu a diplomacia pela coerção e normalizou o uso da força à revelia das convenções e do direito internacional.
Podemos estar, sim, assistindo aos estertores do império americano, desafiado pela ascensão chinesa e pelo deslocamento do eixo do poder global. A ameaça de se apossar da Groenlândia pelo uso da força, somada à intimidação de antigos aliados europeus por meio de sobretarifas e outras medidas retaliatórias, representa uma ruptura com os compromissos e valores que elevaram os Estados Unidos à condição de líder inconteste da OTAN no pós-guerra.
Mas a história ensina que impérios em decadência não são menos perigosos — ao contrário. Um império armado até os dentes, comandado por um lunático de ego insaciável e ressentimento patológico, é capaz de arrastar o mundo para a catástrofe. A tentação de um conflito de grandes proporções — quem sabe até de uma Terceira Guerra Mundial — sob a justificativa delirante de que lhe foi negado o Prêmio Nobel da Paz já não parece mera especulação retórica.
Este espiral de autodestruição da humanidade pode ser desencadeado por um único ato de um homem claramente incapaz de exercer o autocontrole mínimo exigido de um líder global. Trump assombra o mundo com seus delírios de grandeza. Em rédea solta, converteu-se na maior ameaça ao que ainda resta da ordem internacional.
A resistência interna: quando a democracia respira pelas ruas
Mas, se o trumpismo opera como uma força de corrosão institucional que parece não conhecer limites, seria um erro histórico subestimar a vitalidade da sociedade civil americana. Em meio ao avanço autoritário, emergiu um contrapoder real, orgânico, descentralizado e determinado a resistir.
O epicentro simbólico dessa resistência deslocou-se para Minnesota, mais precisamente para Minneapolis e Saint Paul, após o assassinato de uma ativista e cidadã norte-americana durante uma operação do ICE. A morte, cometida por um agente federal, detonou uma onda de protestos que rapidamente ultrapassou as fronteiras do estado, catalisando sindicatos, movimentos de direitos civis, comunidades religiosas, estudantes e autoridades locais em uma frente ampla contra a militarização do Estado e a normalização da violência política.
Minnesota tornou-se, mais uma vez, o espelho moral de uma nação em crise. Como em 2020, quando foi palco do assassinato de George Floyd, um homem negro de 46 anos, episódio que desencadeou uma onda de protestos em todo o país sob o lema “Vidas Negras Importam”, a cidade volta a expor ao mundo a fratura entre um poder federal disposto a governar pelo medo e uma cidadania que se recusa a aceitar a transformação da democracia em farsa autoritária. Redes de observadores de direitos humanos, ações judiciais, greves econômicas e práticas de desobediência civil organizada demonstram que, apesar do cerco institucional, a democracia americana ainda pulsa — fora dos palácios, longe da Casa Branca, nas ruas.
O dilema global: Gaza, Trump e a implosão do multilateralismo
É neste contexto que se insere o dilema dramático enfrentado por líderes democráticos como Lula, Macron e outros chefes de Estado convidados a integrar um suposto “Conselho de Paz” destinado a supervisionar a implementação de um acordo de cessar-fogo e a reconstrução da Faixa de Gaza.
O convite, longe de representar um gesto genuíno de cooperação internacional, carrega uma armadilha política evidente. Aderir a esse arranjo significaria, na prática, endossar a agenda de Donald Trump voltada a esvaziar, contornar e implodir o sistema das Nações Unidas, substituindo o multilateralismo por estruturas ad hoc, submetidas à lógica da força e à vontade unilateral de Washington.
Recusar o convite, por outro lado, é reafirmar princípios — o respeito ao direito internacional, à centralidade da ONU e à solução multilateral de conflitos — que deveriam ser inegociáveis para qualquer liderança democrática. Mas essa escolha não é isenta de custos. Significa expor-se a retaliações econômicas, políticas e diplomáticas de uma administração americana que já deixou claro não reconhecer limites, alianças históricas ou normas compartilhadas.
É um dilema cruel: cooperar com Trump é legitimar o desmonte da ordem internacional; resistir é pagar o preço da coerência. Não há caminho possível para a paz sem respeito aos acordos e convenções baseados no direito internacional.
Conclusão: a democracia em estado de vigília permanente
Assim, a pergunta que abre este ensaio — A democracia americana resistirá a mais três anos de Trump? — não é um exercício retórico nem um exagero alarmista. Ela ecoa nas ruas de Minneapolis, nos corredores de Bruxelas, nos gabinetes de Brasília e Paris e nas ruínas ainda fumegantes de Gaza.
A democracia americana já não pode ser avaliada apenas pelo funcionamento formal de suas instituições. Ela sobrevive, hoje, na tensão permanente entre um poder central capturado e uma sociedade civil mobilizada, entre um presidente que despreza limites e cidadãos que insistem em sair às ruas e erguer trincheiras em defesa da democracia.
Se o futuro imediato parece sombrio, a história ainda está em aberto. A resistência interna nos Estados Unidos e a postura que líderes democráticos adotarão no cenário internacional dirão se este será lembrado como o período em que a democracia americana colapsou — ou como o momento em que, ferida e sitiada, encontrou forças para demonstrar, mais uma vez, sua resiliência e não sucumbir.
Porque, no fim, a questão não é apenas se a democracia americana pode sobreviver a Trump. A questão é se o mundo pode sobreviver a uma América que abdique definitivamente da democracia, sucumbindo aos caprichos de um autocrata que despreza os princípios mais elementares assentados pelos fundadores da democracia americana, que celebrará 250 anos no próximo dia 4 de julho.


