Não um vampiro qualquer, desses de capa barata e dente de plástico. Era “o” vampiro. Dalton Trevisan (1925-2024), o Vampiro de Curitiba, criatura literária que atravessava a cidade como quem atravessa séculos, fugindo da luz, dos leitores, das entrevistas e, sobretudo, das câmeras. Fotografá-lo era mais improvável do que encontrá-lo sorrindo em público. E, no entanto, no começo da tarde, às 13h59, alguém ousou.
Era 26 de junho de 2008. Rodolfo Bührer chegou na redação do jornal, atrasado, como quase sempre. Antes de entrar no jornal, repetiu o ritual conhecido: café rápido, um pão de queijo, conversa solta na lotérica, na qual ficava o café, quase na esquina das ruas Lourenço Pinto com Pedro Ivo. Curitiba seguia discreta, sem saber que, a poucos metros dali, um mito caminhava sem capa.
Na saída da lotérica, veio o aviso de um colega de redação, dito com a naturalidade de quem aponta um conhecido qualquer:
“Sabe quem é aquele velhinho ali?”
Rodolfo Olhou. Disse desconhecer.
“Aquele é o Dalton Trevisan.”
O tempo deu uma travada leve. Dalton ali, em carne, osso e silêncio. O escritor mais recluso do país, avesso a entrevistas, aparições públicas e fotografias, estava parado próximo à entrada lateral do antigo prédio da Gazeta, na Rua Pedro Ivo, no centro de Curitiba.
Rodolfo não pensou. Correu.
Subiu pela entrada do barracão da gráfica do jornal, pegou a câmera, uma lente 400mm, dessas feitas para ver sem ser visto. Pensou rápido. Dalton não gostava de fotos. O plano era simples e arriscado. Fazer a imagem de longe.
Desceu novamente, atravessou a rua e se escondeu atrás de um orelhão, esse monumento urbano da invisibilidade. Do outro lado, Dalton caminhava devagar, com seu tradicional boné na cabeça, como quem conhece a cidade mas desconfia das pessoas.
Rodolfo esperou. Levantou a câmera só o necessário.
Um clique.
Outro.
Mais um.
Fotografava quase às cegas, tirando a lente do esconderijo apenas para enquadrar. Primeiro o corpo inteiro. Depois, à medida que Dalton se aproximava, o quadro fechava. Pessoas passaram no meio. O escritor ergueu levemente a cabeça. Em uma das imagens, parece quase encarar a câmera que não sabia existir.
Foram cinco fotos. Uma sequência rara. Quando Dalton chegou perto demais, Rodolfo desistiu. Baixou a câmera, virou o corpo, fingiu desinteresse. Dalton passou. Não viu. O vampiro seguiu intacto.
Rodolfo subiu de volta para a redação.
O segredo durou pouco. “Tem foto do Dalton.” Enquanto descarregava as imagens no computador e começava a editar, sentiu a presença atrás dele. Veio o aviso tardio.
Havia um acordo informal no jornal. Dalton colaborava há décadas com a Gazeta e o jornal respeitava a privacidade do escritor. Então, nada de fotografias. Nunca. Em hipótese alguma. E aquela imagem jamais seria publicada ali.
Rodolfo tentou explicar. Não sabia de acordo nenhum. Viu. Fotografou. Fez o trabalho. Não houve emboscada, só oportunidade.
Decidiu-se que a imagem era de Bührer. Ficaria guardada. Zipada. Fora do sistema. Um segredo de redação, escondido como tantas histórias inconvenientes.
O tempo passou.
Até que, em 22 de novembro de 2009, um domingo, o pacto de silêncio se rompeu.
O Estadão publicou um conto inédito de Dalton Trevisan, “O herói nanico”, tratado como acontecimento literário nacional. Para ilustrar a capa do Caderno 2, o jornal precisava do impossível: uma foto recente do Vampiro. Tentaram fazê-la. Sem sucesso.
Foi quando o telefone de Rodolfo tocou.
“Você ainda tem aquela foto?”
Tinha.
A imagem foi cedida. Não houve venda. Não houve negociação. Apenas uma exigência simples: o crédito. A foto era de quem a fez.
Naquele domingo, Dalton Trevisan saiu da sombra em página inteira. O Vampiro apareceu no papel. Olhando quase direto para a câmera que nunca viu. O conto ocupava o centro. Uma imagem, uma capa.
Na segunda-feira, Rodolfo voltou à redação como quem retorna ao local do crime. Colegas com o Estadão embaixo do braço. Olhares atravessados. Conversas reservadas. Advertências cogitadas. Ressentimentos selados.
A foto que não podia existir agora circulava o Brasil.
Pouco tempo depois, Rodolfo sairia do jornal. A foto seguiria seu caminho, aparecendo em livros didáticos, reportagens e bancos de imagem. Sempre as mesmas cinco imagens. Dalton andando. Dalton fugindo. Dalton sendo visto.
Rodolfo Bührer. (Crédito da foto: Marcelo Machado de Melo)
A fama de vampiro não vinha apenas do sumiço. Também se construiu nos livros. Dalton Trevisan escreveu como quem morde rápido e some. Em Novelas nada exemplares, expôs a hipocrisia doméstica com crueldade cirúrgica. Em O vampiro de Curitiba, transformou a cidade em cenário de obsessões, fracassos e desejos mal resolvidos. Vieram ainda Cemitério de elefantes, Ah, é?, Pão e sangue e Em busca de Curitiba perdida, títulos que ajudaram a consolidar uma obra curta no tamanho dos textos, mas brutal no impacto. Cada livro era um novo ataque silencioso. O autor, depois, desaparecia de novo.
Dalton Trevisan morreu em 2024, quase centenário. Recluso até o fim. Mas, como foi a dito naquela tarde de 2008, havia uma imagem.
Feita às escondidas.
Atrás de um orelhão.
Às 13h59.
Num dia comum.
Porque às vezes o jornalismo acontece assim: rápido, incômodo, irreversível. E porque, no fim, até vampiros deixam sombra quando passam pela luz.


