*Gaudêncio Penaforte
Pedro Ribeiro descreveu com precisão cirúrgica o fenômeno Kassab: o dono do centro, o síndico do condomínio ideológico, o banqueiro de uma legenda sem programa, mas com altíssimo giro de capital político. O que talvez falte dizer — e aqui começa a crítica mais dura — é que o “centro” de Kassab não é apenas elástico: ele é estruturalmente transacional.
Kassab não opera um partido. Opera um mercado.
O PSD é a forma mais acabada do que a política brasileira vem se tornando desde os anos 1980: um mercado secundário de poder, no qual apoios são negociados como derivativos, mandatos são tratados como ativos e cargos funcionam como dividendos. O fisiologismo, velho conhecido do país, não desapareceu — ele foi profissionalizado, sofisticado e financeirizado. Os chamados “anões do Orçamento” seriam hoje considerados trombadinhas se comparados à reengenharia engendrada por Eduardo Cunha e Artur Lira, que criou este dreno que ameaça engolir a República: as emendas parlamentares.
O chamado “centrão” sempre foi um amálgama de interesses regionais sem eixo ideológico. Mas Kassab foi além: construiu uma holding partidária que concentra, organiza e redistribui esse capital político com eficiência empresarial. O PSD é a sua corretora.
Um fundo de investimento em governabilidade
Que caibam sob o mesmo guarda-chuva Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado — três projetos de país mutuamente excludentes — não é uma anomalia: é o modelo de negócio.
O PSD funciona como um fundo multimercado: diversifica riscos, protege-se contra a volatilidade eleitoral e está sempre posicionado para ganhar, independentemente do resultado das urnas. Não importa quem vença — Kassab sempre está à mesa de negociação, cobrando pedágio.
Não há programa, mas há portfólio.
Não há ideologia, mas há governança.
Não há militância, mas há carteira de ativos.
Governadores, prefeitos e parlamentares entram como quem aporta capital em um fundo especulativo: sabem que não escolherão a estratégia, mas receberão retorno enquanto forem úteis e estiverem dispostos a assumir riscos.
A pirâmide transacional do PSD
Aqui está o ponto mais corrosivo: o sistema montado por Kassab lembra menos um partido e mais um esquema piramidal de poder.
Na base, lideranças regionais famintas por verbas, cargos e proteção.
No meio, bancadas inteiras negociando apoio por acesso ao orçamento.
No topo, Kassab — o gestor e estrategista do empreendimento, o homem que decide quem sobe, quem cai e quem é reciclado no próximo ciclo.
O PSD monta carteiras com papéis políticos de baixa qualidade, inflados por cargos e verbas, e os revende no mercado institucional como se fossem ativos de alta rentabilidade. É um swap de lealdades: troca-se hoje, cobra-se amanhã, renegocia-se sempre.
É o triunfo da política como engenharia financeira.
O paradoxo dos palanques multimercados
A aparente “centralização” de Kassab no comando do conglomerado do PSD convive com uma liberdade estratégica regional que beira o cinismo.
No Rio de Janeiro, Eduardo Paes com Lula.
Na Bahia, Otto Alencar fechado com o PT.
Em Minas Gerais, Lula cortejando o senador Rodrigo Pacheco, que finge resistir ao canto da sereia, magoado por ter sido preterido na indicação para o STF.
Em três dos quatro maiores colégios eleitorais, o PSD pode não oferecer palanque algum a uma eventual candidatura presidencial de Ratinho Jr., Eduardo Leite ou Ronaldo Caiado. O partido que se vende como terceira via pode não sustentar seu próprio presidenciável. É a prova definitiva de que o projeto da sigla nunca é nacional — é sempre situacional é transacional.
Caiado: o passado ressurgente
E então surge Ronaldo Caiado como peça-chave desse teatro. Quando Ratinho e Leite ainda estavam nas fraldas, na segunda metade dos anos 1980, Caiado já era o rosto do Brasil ruralista mais duro, líder da UDR, candidato dos latifundiários em 1989, herdeiro direto do coronelismo travestido de modernidade por quem ostenta diploma de médico.
Trinta e cinco anos depois, pouca coisa mudou. Caiado segue operando como coronel do Centro-Oeste — ou do velho Oeste. Sua admissão recente no “condomínio Kassab” revela o fundo arcaico desse centro que se diz moderno: a permanência do poder oligárquico em novas embalagens.
O centro gravitacional como mote contínuo
Kassab não construiu um centro político. Construiu um mecanismo de ascensão contínua ao topo. O “meio” é apenas a retórica. O movimento real é vertical: subir, ocupar, capturar, redistribuir.
Não é moderação — é hegemonia por transação.
Não é pragmatismo — é mercantilização da democracia.
Não é governabilidade — é rentismo institucional.
O centro de Kassab não busca consenso.
Busca controle de fluxo, a monetarização do capital político.
E, enquanto o eleitor tenta decifrar a sigla, o dono do centro segue operando como sempre: comprando no medo, vendendo no poder e lucrando no caos.


