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Laurentino Gomes e a ferida que o Brasil insiste em não tratar

O jornalista e escritor paranaense, Laurentino Gomes, autor da trilogia Escravidão, esteve nesta terça-feira (04) em Curitiba para uma conversa com escritores, jornalistas, professores e estudiosos da histórica e inacabada escravidão no Brasil.

Na conversa, coordenada pela jornalista Isabela França e na presença de mais de 150 pessoas,  Laurentino Gomes expôs, com dados, documentos e histórias humanas, uma ferida que o Brasil prefere esconder sob o tapete da cordialidade: a escravidão e a segregação que dela nasceu — e nunca foi superada.

“Laurentino nos mostrou dados assustadores e que nos fazem refletir sobre esse problema que persiste no Brasil e ignorado por muitos. Nos remete a pensar e a olharmos para isso com coragem”, disse Isabela. Se o Brasil não corrigir essa dívida, não vamos prosperar como Nação, alertou o premiado escritor e membro da Academia Paranaense de Letras.

Para a jornalista Mirian Karan, a exposição de dados fornecidos por Laurentino Gomes, fruto de incansável trabalho de pesquisa no Brasil, África, Europa e América, nos faz parar para pensar e nos deixa triste, porque ele existe nos dias de hoje como uma ferida aberta e difícil de cicatrizar.

Para Laurentino Gomes, “não houve escravidão branda, não houve conciliação verdadeira, não houve projeto de integração após a abolição. O que houve foi um país que lucrou intensamente com a escravidão e, depois, abandonou milhões de pessoas à própria sorte, sem-terra, sem escola, sem direitos”.

Em Curitiba, o autor deixou claro que o Brasil não errou por desconhecimento histórico, mas por conveniência política. A abolição foi um ato formal, quase burocrático, feito para atender pressões internacionais e aliviar a consciência das elites, não para romper com um sistema de exclusão profundamente enraizado. A escravidão acabou no papel, mas continuou na prática social, no mercado de trabalho, na ocupação das cidades e na desigualdade que atravessa gerações.

Laurentino também toca num ponto incômodo: a escravidão não foi um crime cometido apenas por uma minoria distante no tempo. Ela foi aceita, defendida e normalizada por instituições, famílias, igrejas e governos. Essa cumplicidade coletiva ajuda a explicar por que o racismo brasileiro é, até hoje, negado, relativizado e tratado como exagero por quem nunca sentiu seus efeitos.

Mais do que uma aula de história, o encontro foi um lembrete duro. O Brasil não sofre de falta de memória — sofre de recusa em assumir suas consequências. E enquanto essa ferida seguir aberta, disfarçada por discursos fáceis sobre miscigenação e harmonia racial, o país continuará repetindo, com novos nomes e novas formas, velhas estruturas de exclusão.

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