Editorial desta terça-feira do jornal Estado de São Paulo mostra estudo feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) onde revela que a Inteligência Artificial (IA) pode afetar até 60% dos empregos, sobretudo os dos jovens, nos países desenvolvidos. No Brasil, que forma mal grande parte de seus jovens, a situação pode ser ainda pior. Veja o editorial:
Um tsunami no mercado de trabalho. Foi assim que a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, definiu o impacto da inteligência artificial (IA) sobre o emprego, especialmente o dos jovens.
Georgieva alertou os participantes do Fórum Econômico Mundial (WEF, na sigla em inglês) que a disseminação da IA está redefinindo a demanda por habilidades. De acordo com ela, nos próximos anos, a adoção mais generalizada da tecnologia nos países desenvolvidos afetará 60% dos empregos, o que significa que postos de trabalho podem ser transformados, mas, também, eliminados. Globalmente, o impacto deve ser de 40%.
É verdade que em alguns casos o domínio da IA não só dinamiza o trabalho dos profissionais, como lhes garante remuneração mais robusta. A adoção da inteligência artificial também tende a ampliar a produtividade, mas com um efeito colateral: o corte de postos de trabalho tradicionalmente ocupados por cidadãos da classe média.
Ainda mais preocupante, à medida que a tecnologia vai ganhando escala, as chamadas vagas para iniciantes são eliminadas, o que prejudica, sobretudo, os jovens. Mesmo entre aqueles com educação superior, a dificuldade de encontrar o primeiro emprego tem sido crescente.
Uma transformação dessa magnitude no mercado de trabalho pode causar grandes distúrbios mundo afora, mas, por ora, as discussões em torno dos efeitos negativos da IA estão concentradas no potencial estouro de uma bolha no mercado de ações.
Uma coisa, porém, não elimina a gravidade da outra. Mesmo que uma crise se confirme nas principais bolsas do mundo, varrendo empresas do mapa e levando à bancarrota aqueles investidores que calibraram mal suas apostas na corrida tecnológica, os efeitos da revolução da IA permanecerão.
Foi assim em grandes crises do passado, como o crash da bolsa de 1929 e o estouro da chamada bolha “pontocom” no início deste século. Em ambos os casos, o Produto Interno Bruto (PIB) global sucumbiu e grandes fortunas desapareceram da noite para o dia. Contudo, produtos relacionados a esses dois eventos traumáticos, como o telefone e a internet, se propagaram globalmente. Logo, o mesmo deve ser esperado da IA.
Por isso, o alerta de Georgieva deve ser tratado com a urgência que merece por governos de todo o mundo. Ela sugere que os benefícios gerados pela IA sejam distribuídos de modo justo entre a sociedade.
Faz sentido. Se a IA aumenta a produtividade e, potencialmente, os ganhos econômicos, mas, ao mesmo tempo, destrói empregos, é desejável que haja alguma forma de compensação aos mais prejudicados, pelo menos de forma transitória.
Para países como o Brasil, que estão muito longe de estar na vanguarda da IA, os potenciais efeitos negativos sobre o mercado de trabalho podem ser devastadores no longo prazo.
Se jovens altamente qualificados de nações ricas já enfrentam barreiras cada vez maiores para conseguir um emprego, o que dizer da juventude brasileira, que em sua maioria não tem acesso a uma boa educação?
A situação de quase pleno emprego que o País experimenta atualmente tampouco perdurará. A economia já vem desaquecendo e a demanda por produtos e serviços tende a cair, o que só deve aumentar o estoque de jovens disputando um espaço na chamada economia da uberização.
Além disso, como o Brasil não é líder no desenvolvimento de IA, não tem exatamente como distribuir os benefícios da tecnologia entre sua população. Supondo que os países desenvolvidos acordem que compensarão a eliminação de milhares de postos de trabalho usando os ganhos de produtividade da IA para criar uma espécie de renda mínima, o Brasil não está em condições de replicar o mesmo modelo.
Por aqui, uma boa parte da população, por negligência de governos em série, já vive de assistência social. O peso disso nas contas públicas é crescente, donde se conclui que ampliá-la para compensar as transformações profundas geradas pela IA será praticamente impossível.
Se os jovens do mundo desenvolvido estão diante de um tsunami no mercado de trabalho, no Brasil, infelizmente, as perspectivas parecem ser ainda mais sombrias.
O Estadão


