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O clamor pela moderação

Uma parte do agronegócio está resistindo a aderir à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, informou reportagem do Estadão/Broadcast, com base em conversas com parlamentares e representantes do setor. Apesar do impulso recente do filho “zero um” de Jair Bolsonaro nas pesquisas, a expectativa de alguns integrantes do agro ainda repousa sobre um nome mais moderado da centro-direita. Originalmente visto como pilar do bolsonarismo, o segmento parece que ainda não fechou inteiramente com o candidato bolsonarista. Acostumado a avaliar riscos, o agro sabe que eleição não é ato de fé.

É evidente que, para esse setor, como para qualquer um de bom senso, o importante é impedir que Luiz Inácio Lula da Silva fique mais quatro anos no poder.

O sobrenome Bolsonaro carrega feitos, mas também conflitos, crises institucionais e processos judiciais. Carrega, sobretudo, um projeto que terminou em tentativa de golpe. É ilusório imaginar que bastaria suavizar o discurso ou revestir a candidatura de racionalidade administrativa, ainda apresentada de forma vaga, para neutralizar esse peso.

De Lula, o Brasil já sabe: ele vai para mais uma eleição movido pela preservação do poder em si mesmo. Um eventual quarto mandato tenderá a repetir o governo medíocre de sempre, adornado por populismo, medidas de curto prazo, baixa ambição e descuido fiscal. No essencial, será o exercício da vaidade de quem se crê insubstituível.

A Flávio cabe uma pergunta elementar: a que se presta sua candidatura? Para que o inexpressivo senador quer ser presidente da República? Ele não apresentou concepção de país que vá além da defesa do legado reacionário do pai. Não esboçou uma agenda reformista consistente nem visão capaz de reorganizar o debate público. Ao contrário, já acenou até com a hipótese de ter como ministro das Relações Exteriores seu irmão Eduardo, deputado cassado que ajudou a sabotar o Brasil a partir de seus vínculos com Donald Trump. Mesmo que permaneça no plano do devaneio, a mera ideia agride o País e o bom senso. Soma-se a isso a incapacidade de ordenar o próprio campo. As últimas semanas foram marcadas por atritos públicos entre a madrasta Michelle e os irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro, sem que Flávio tenha demonstrado liderança para pacificar a casa.

O cauteloso agronegócio e outros segmentos, liberais, democráticos, conservadores ou progressistas independentes, sabem que governabilidade exige previsibilidade. Sabem que aventuras personalistas custam caro. E que um governo orientado por perdão a golpistas, revanches e conflitos familiares tem potencial para produzir turbulência institucional e econômica. Também reconhecem que o lulopetismo não oferece respostas estruturais aos desafios que se avizinham.

Entre um projeto esgotado e outro que nasce sob suspeita, o País não pode permanecer aprisionado a movimentos que tantos danos já causaram. Tampouco deve aceitar a falsa dicotomia segundo a qual qualquer competitividade nas pesquisas autoriza rendição antecipada a um sobrenome. Sondagens registram o momento, não decretam o futuro. A campanha mal começou a ser pensada. Há alternativas e tempo – curto, mas real – para viabilizá-las.

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