Conheça a trajetória disruptiva de Carmen Donaduzzi, a cofundadora do melhor hub de inovação do Brasil, que uniu rigor acadêmico, resiliência, inovação e autonomia
É quase impossível dissociar a imagem da Dra. Carmen Maria Donaduzzi de seu marido, o Dr. Luiz Donaduzzi. A poucos meses de completarem 50 anos de casados, eles compartilham uma vida de cumplicidade em que discutem fórmulas complexas de bioquímica entre um mate e outro. Nessa simbiose, cada um conhece seu papel fundamental para que o casamento e os negócios prosperem. Carmen é curiosa e intuitiva; ela segue em frente sem hesitar. Luiz a incentiva e equilibra a balança. Para ela, a máxima é nunca parar para medir a distância: “Continue apenas andando”.
Uma força indomável e motorizada
Nascida no Rio Grande do Sul e criada no Oeste paranaense, Carmen começou a trabalhar cedo para garantir os estudos. Conheceu Luiz jovem e casaram-se logo. Enquanto moravam nos fundos de uma farmácia em Querência do Norte (PR), ela era a força multifuncional: atendia no balcão, fazia cobranças e aplicava injeções. Destemida, circulava pela cidade em sua moto — um “atrevimento” à época, que fazia os vizinhos torcerem o nariz. Luiz chegou a receber um bilhete anônimo criticando o comportamento da companheira; os dois riram. Ela continuou motorizada e ele avisava: “Eu nunca me importei com o julgamento dos outros”.
Diplomata de ônibus
Carmen estudou Farmácia e Bioquímica em Maringá com o incentivo do marido. Quando Dr. Luiz se preparava para fazer o mestrado na França, chamou a amada para estudar por lá também. Com os aceites da universidade em mãos, esbarraram na burocracia do MEC, que negou o envio de recursos ao exterior. Sem vacilar, Carmen pegou um ônibus sozinha para Brasília. Sem agenda, bateu à porta de um deputado e saiu com uma recomendação que a levou ao Banco Central. Em minutos, resolveu o impasse. “Fui lá e resolvi”, resume, demonstrando que a burocracia nunca foi páreo para sua determinação.
A temporada na França trouxe o rigor científico e o primeiro filho. E o retorno ao Brasil, nos anos 1990, foi em Pernambuco, onde, sob o Plano Collor e dificuldades financeiras, o casal passou a vender chás porta a porta. Após alguns acertos e a chegada da segunda filha, voltaram ao Paraná e, em 1993, fundaram a Prati-Donaduzzi, no município de Toledo.
Carmen liderou a especialização técnica, cruzando oceanos em busca de inovações e transformando um barracão simples em uma gigante que faturou R$ 2,5 bilhões em 2025, com capacidade produtiva de 17 bilhões de doses anuais de medicamentos.
Em 2016, criaram o Biopark, em Toledo, hoje o melhor hub de inovação do Brasil, segundo a Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores). No ecossistema de 5 milhões de m², Carmen aplica sua visão transformadora: educação de qualidade, fomento a startups e projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, como o premiado Projeto de Queijos Finos. O programa oferece tecnologia e capacitação gratuita a queijarias artesanais para que atinjam padrões internacionais de qualidade e sanidade. “O projeto é para transformar a região, não é por dinheiro”, afirma Carmen, que desenvolveu a paixão por queijos durante sua residência na França.
O espaço de terra vermelha se multiplicou em 10 anos e deu lugar ao único ecossistema do Brasil em que ciência, educação, negócios e qualidade de vida coexistem no mesmo território físico — crianças, universitários, pesquisadores e empreendedores convivem diariamente. Como polo educacional de excelência, o parque abriga quatro instituições de ensino superior: Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Instituto Federal do Paraná (IFPR) e a Faculdade Donaduzzi, com a maioria dos cursos superiores com nota máxima no Ministério da Educação (MEC) e empregabilidade superior a 90% desde o primeiro ano.
Além disso, o Biopark conta ainda com o Colégio Donaduzzi, com proposta pedagógica inovadora alinhada à Educação 5.0., e com a Academia Donaduzzi, que oferece mais de 50 atividades extracurriculares, da gastronomia à robótica, às crianças e jovens da região.
Simplicidade e lições para o futuro
Apesar do império, sua rotina é pautada pela simplicidade. Cuida da saúde ao lado do marido e, com zelo de farmacêutica, organiza semanalmente a medicação de ambos. Longe dos laboratórios, a natureza é seu refúgio: gosta de pescar e estar com a família. Carmen personifica o equilíbrio fino entre a cientista rigorosa, a mulher curiosa e a amiga para todas as horas. Sua lição é direta: “Não tolerem o medíocre. Espelhem-se em quem é melhor e alimentem sempre a própria curiosidade.” Ela prova que o conhecimento só tem valor quando compartilhado.


