Uma semana após surpreender o cenário político nacional ao desistir da pré-candidatura à Presidência da República, o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), mantém em aberto o principal desafio que o fez recuar: a escolha de seu sucessor no Palácio Iguaçu. A decisão, anunciada no último dia 23 de março após uma “profunda reflexão com a família”, foi interpretada por aliados como uma estratégia para preservar seu capital político no estado e tentar barrar o avanço do senador Sergio Moro (PL), que lidera as pesquisas de intenção de voto para o governo paranaense .
Em agendas oficiais realizadas nesta semana no interior do estado, Ratinho Junior afirmou que o foco agora é “passar o bastão”, mas evitou confirmar um nome. “A ideia é fazer as entregas nos próximos meses e construir [a candidatura de] alguém que possa dar continuidade a este trabalho”, disse o governador durante visita a Pato Branco na quinta-feira (26), citando como possíveis nomes o secretário das Cidades, Guto Silva, e o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi (PSD) .
A indefinição, no entanto, expõe as dificuldades internas do grupo governista. Até o início do ano, três nomes eram cotados pelo PSD: além de Guto Silva e Curi, o ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca também figurava entre os favoritos. Inconformado com a demora na definição, Greca deixou a legenda na semana passada e se filiou ao MDB, onde já lançou sua pré-candidatura ao governo .
“A demora fez com que Greca deixasse o partido”, resume reportagem da Folha de S.Paulo, que aponta a preferência inicial de Ratinho por Guto Silva, embora o governador nunca tenha oficializado publicamente a escolha . Agora, Curi, que também é cortejado por outras siglas, desponta como alternativa viável diante da saída de Greca e do desempenho aquém do esperado de Silva nas pesquisas .
A ameaça Moro e o peso da polarização
A pressa em definir um sucessor não é por acaso. O principal adversário do grupo de Ratinho Junior nas eleições estaduais é Sergio Moro, que nesta terça-feira (24) oficializou sua filiação ao PL do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e consolidou sua candidatura ao governo .
Até então, o PL integrava a base aliada do governador no Paraná. O rompimento foi sentido na prática: o deputado federal Fernando Giacobo renunciou à presidência do PL no estado logo após a filiação de Moro, e ao menos 48 dos 53 prefeitos da legenda no Paraná manifestaram disposição de deixar o partido para permanecer ao lado de Ratinho .
Aliados do governador admitem que o temor de não conseguir eleger um sucessor diante do avanço de Moro — que foi o senador mais votado do estado em 2022 — pesou decisivamente na desistência da candidatura presidencial. “Ratinho Junior teria confidenciado que estava inconformado com o endosso do PL a Moro”, revelou a jornalista Clarissa Oliveira, da CNN Brasil, destacando que o governador tentou até o último momento negociar para evitar que o partido de Bolsonaro embarcasse no projeto do ex-juiz .
Em suas primeiras declarações após o recuo, o governador fez questão de demarcar posição contra a polarização nacional que, segundo ele, ameaça contaminar a disputa local. “Minha preocupação é que essas brigas e esses arranjos de Brasília possam vir para o Paraná atrapalhar o desenvolvimento do nosso estado. Minha função é fazer um escudo disso e proteger o paranaense”, afirmou na quinta-feira .
Prazo e articulação
Com a oficialização da desistência presidencial, o PSD paranaense tenta se reorganizar. O partido já sinalizou que pretende anunciar seus candidatos a governador, vice-governador e senador até o dia 2 de abril . Além de Guto Silva e Alexandre Curi, o nome do prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), chegou a ser aventado nos últimos dias, mas ele está no primeiro ano de mandato e sua desincompatibilização é vista como difícil .
Enquanto isso, o cenário se desenha como um teste para a força política de Ratinho Junior. Com uma aprovação que gira em torno de 80% no estado, ele parte na dianteira em popularidade, mas enfrenta um adversário com grande capilaridade na direita e o apoio declarado do bolsonarismo .
Analistas apontam que a decisão de Ratinho de permanecer no cargo e “queimar o martelo” para definir um nome é uma tentativa de evitar que, ao deixar o Palácio Iguaçu em dezembro, ele fique sem uma base de poder consolidada. “Caso deixasse o cargo para concorrer ao Planalto e fosse derrotado, Ratinho Junior correria o risco de perder espaço no próprio Estado, com o fortalecimento do campo adversário”, avalia o site Poder360 .
O governador, no entanto, tem mantido o mistério. Em tom enigmático, limitou-se a dizer que “o importante é construir uma chapa que possa defender os interesses do Paraná”, deixando no ar a expectativa sobre quem será o escolhido para herdar seu legado .


