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Anti-feminismo made in South Korea:a trincheira da literatura se levanta

By Pedro Santafé

Há uma frase que costuma circular nos corredores das faculdades de literatura — atribuída a ninguém em particular, portanto pertencente a todos — que diz que a grande ficção não representa o mundo: ela o antecipa. Raramente essa proposição se confirma com a precisão clínica que se observa na Coreia do Sul contemporânea, onde um boom literário protagonizado por escritoras transforma páginas em campo de batalha e converte romances em manifestos de sobrevivência.

A BBC documentou recentemente o fenômeno em matéria de fôlego: a literatura feminina sul-coreana emergiu na última década como uma das expressões culturais mais contundentes do planeta — não apesar do anti-feminismo rampante naquela sociedade, mas precisamente por causa dele. A Coreia do Sul preserva uma cultura profundamente patriarcal — e ostenta o maior gap salarial de gênero entre todos os países da OCDE —, ao mesmo tempo em que seus maiores sucessos literários internacionais são protagonizados por personagens femininas e assinadas por suas autoras. A contradição é apenas aparente. Ela é a própria lógica da resistência.

O gatilho: um nome comum chamado Kim Jiyoung

Tudo começou — ou melhor, explodiu — em 2016, quando Cho Nam-joo publicou Kim Jiyoung, nascida em 1982. O romance de estreia da autora retrata o sexismo cotidiano na Coreia do Sul e tornou-se o livro literário sul-coreano mais vendido no exterior nos cinco anos seguintes à sua publicação. O título é deliberadamente genérico: Kim Jiyoung é um nome banal na Coreia, uma escolha que transforma a protagonista em arquétipo de toda uma geração de mulheres. O livro fez sucesso imediato entre as leitoras enquanto provocou rejeição visceral entre leitores homens, que lideraram um contramovimento anti-feminista em resposta à sua popularidade.

A ironia foi que a reação masculina amplificou o fenômeno que tentava sufocar. Quando celebridades femininas foram canceladas por simplesmente recomendar o romance — incluindo integrantes de grupos de K-pop —, a polêmica revelou, involuntariamente, a dimensão do que estava em jogo. O tradutor do livro para o inglês, Jamie Chang, afirmou que foi “o grande evento literário na Coreia que abriu as comportas e lançou as bases para o desenvolvimento da literatura feminista no país.”

Esse livro seminal contribuiu para alimentar o movimento 4B — quatro princípios de recusa: bihon (não ao casamento heterossexual), bichulsan (não à maternidade), biyeonae (não aos relacionamentos amorosos) e bisekseu (não às relações sexuais heterossexuais). Um manifesto de desengajamento radical que só se compreende quando se leva a sério o que essas mulheres estão recusando — e o que a sociedade lhes havia imposto como destino compulsório.

O Nobel como estopim

Foi nesse contexto que o Nobel de Literatura de 2024 conferido a Han Kang adquiriu uma dimensão muito maior do que o reconhecimento de uma obra. Han Kang tornou-se a primeira sul-coreana e a primeira mulher asiática a vencer o Nobel de Literatura em seus 123 anos de história — conquista que surge num momento em que romancistas e poetas femininas da Coreia do Sul floresceram especialmente em tradução, inundando as mãos de leitores internacionais com suas obras.

Conheço essa obra de dentro para fora. Li os quatro romances publicados no Brasil pela Todavia — A Vegetariana, Atos Humanos, Sem Despedidas e O Livro Branco — e escrevi críticas sobre cada um deles. O que posso afirmar, sem qualquer vacilação, é que Han Kang não é uma escritora sobre o feminismo: ela é uma escritora da condição humana cuja matéria-prima privilegiada é o corpo feminino como zona de conflito político, histórico e existencial. Em A Vegetariana, a recusa da protagonista em comer carne funciona como ato de desobediência a um sistema que presumia o direito de ditar até mesmo os apetites de uma mulher. Em Atos Humanos, os corpos massacrados de Gwangju — estudantes, trabalhadores, mulheres — são a prova material de que o patriarcado e o Estado autoritário partilham a mesma gramática de dominação. Em Sem Despedidas, a ilha de Jeju, palco de um massacre de civis encoberto por décadas, é também o território onde as memórias das mulheres foram enterradas sem nome e sem direito a luto.

Com mulheres ainda enfrentando discriminação na política, no mundo empresarial e na mídia da Coreia do Sul, a literatura tornou-se um dos poucos espaços onde se pode escapar do gênero — onde é possível escrever em todas as idades e em todas as vozes. A romancista Krys Lee, residente em Seul, foi precisa ao diagnosticar o fenômeno: “Na literatura, mesmo quando dominada por homens, as vozes mais fortes sempre vieram dos mais oprimidos.”

A ilusão do progresso tecnológico

Convivi com estudantes coreanos na Universidade de Wisconsin-Madison, onde realizei meu doutorado no início deste século. O feitio patriarcal daquela sociedade não me era estranho — percorria as hierarquias entre colegas, a forma como as mulheres se posicionavam nos espaços acadêmicos, os silêncios que se instalavam em certas conversas. Visitei a Coreia do Sul em 1997, quando o país ainda metabolizava o trauma da crise financeira asiática, e fiquei impressionado com o vertiginoso ritmo de modernização tecnológica — aquela energia de nação que se reinventa com urgência, que constrói sobre os escombros com determinação quase ofensiva.

Alimentei, por anos, uma ilusão reconfortante: a de que a modernização tecnológica provocaria, como efeito colateral inevitável, o desmantelamento do patriarcalismo. O contrato tácito da modernidade liberal presumia que o desenvolvimento econômico levaria à emancipação das mulheres — que o acesso à educação, ao mercado de trabalho e à tecnologia reescreveria as relações de gênero. A Coreia do Sul desmente essa equação com brutalidade empírica.

Em 2024, o país ocupava a 94ª posição entre 146 nações no Índice de Gap de Gênero do Fórum Econômico Mundial — que avalia disparidades em educação, saúde, emprego e poder político. Um país que envia satélites ao espaço e produz os semicondutores que movem o mundo digital ainda não conseguiu garantir às suas mulheres paridade política e salarial. A tecnologia, descobrimos, não é antídoto para o patriarcado: pode até ser seu amplificador mais eficiente.

O anti-feminismo como produto de exportação

O que pesquisadores chamam de “feminist reboot” sul-coreano começou em meados da década de 2010, impulsionado principalmente por mulheres mais jovens em resposta a uma série de incidentes de alto perfil. O feminicídio na Estação Gangnam em 2016 — um homem que assassinou uma mulher desconhecida “porque as mulheres sempre o ignoravam” — foi o estopim. O movimento #MeToo sul-coreano de 2018 veio em seguida, com manifestações que chegaram a 33 horas contínuas nas ruas de Seul.

A resposta foi imediata e organizada. A ressurgência feminista provocou uma forte reação anti-feminista que se manifestou não apenas em discurso, mas também em ativismo institucional e de consumo — como a abolição de grêmios estudantis femininos em diversas universidades em 2018 e boicotes a empresas e videogames classificados como pró-feministas.

O presidente destituído Yoon Suk-yeol — o mesmo que tentou impor lei marcial em dezembro de 2024 — construiu parte de sua plataforma eleitoral sobre esse ressentimento. Prometeu extinguir o Ministério da Igualdade de Gênero e Família, acusando seus funcionários de tratar os homens como “potenciais criminosos sexuais.” Candidatos que instrumentalizam o anti-feminismo para mobilizar jovens do sexo masculino tornaram-se um padrão recorrente na política sul-coreana — e, claro, não apenas nela.

Há algo de muito preocupante fermentando na cultura contemporânea, potencializado pelas redes sociais e amplificado por algoritmos que recompensam o ressentimento com visibilidade. O anti-feminismo sul-coreano não é uma anomalia asiática: é uma variante local de um fenômeno global que encontra ecos nas correntes incel anglófonas, no bolsonarismo brasileiro, no trumpismo norte-americano, nas novas direitas europeias. A lógica é sempre a mesma: reencadrar os avanços feministas não como conquistas de equidade, mas como ameaças à identidade masculina — posicionando homens como vítimas de uma ideologia dominante.

A Internacional do Ressentimento

O que se observa na Coreia do Sul não é um fenômeno isolado na Ásia. É um capítulo local de uma guerra cultural que se trava em escala planetária — com quartéis-generais, financiamento estruturado e estratégias coordenadas de mobilização do ressentimento masculino. Compreendê-la exige olhar além do mapa asiático.

Nos últimos quinze anos, consolidou-se o que pesquisadores europeus passaram a chamar de “internacional reacionária” — uma rede transnacional de movimentos ultraconservadores que se alimenta das mesmas ansiedades, fala a mesma língua e usa os mesmos algoritmos para recrutar jovens homens em toda parte. O elo de ligação é uma expressão que funcionou como senha e como arma: “ideologia de gênero.” O conceito foi fabricado pelos ideólogos do Vaticano no final do século XX como antídoto retórico ao avanço dos direitos das mulheres e das minorias sexuais — e rapidamente migrou das encíclicas para os comícios, das sacristias para os feeds do TikTok.

A Espanha tornou-se o grande laboratório de exportação desta agenda: movimentos como o Opus Dei, o HazteOir e sua versão internacionalizada, a CitizenGO, preservam o legado católico do franquismo e o reempacotam para consumo global — exportando suas estratégias para a Europa, a América Latina e a África. O resultado é uma ofensiva ultraconservadora transnacional, muito bem estruturada e financiada, que tem como alvos centrais os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.

A CitizenGO foi fundada em Madri em 2013 como braço internacional do HazteOir, e hoje coordena ações digitais e lobby em mais de cinquenta países, posicionando-se como contrapartida reacionária a plataformas progressistas como Change.org e Avaaz. Somada ao HazteOir, a CitizenGO gastou 32,7 milhões de dólares em ativismo anti-gênero apenas na Europa entre 2009 e 2018. Pesquisa de Neil Datta, do Fórum Parlamentar Europeu para Direitos Sexuais e Reprodutivos, revelou que o fundador Ignacio Arsuaga — bisneto de um general franquista — abordou desde oligarcas russos e o Vaticano até um bilionário mexicano da família Slim para capitalizar a plataforma, prometendo aos doadores que “abortistas, o lobby homossexual e os relativistas encontrarão pela frente o muro de contenção da CitizenGO.”

Morei em Madri de julho de 2015 a dezembro de 2021 e testemunhei de perto a emergência desta rede. Os ônibus da caravana transfóbica do HazteOir percorriam as ruas centrais da cidade com cartazes de uma brutalidade que desconcertava até espectadores endurecidos pela política europeia. A capital espanhola, que havia votado esmagadoramente por partidos progressistas nas eleições municipais, via circular por suas avenidas uma propaganda que parecida saída de outro tempo — mas que era, de fato, ensaio geral de uma estratégia global.

Na América Latina, esta rede encontrou solo particularmente fértil. No Chile, o movimento “Não Mexa com Meus Filhos” e o infame “Ônibus da Liberdade” — que percorreu cidades espalhando mensagens transfóbicas e antifeministas — foram financiados pela organização espanhola HazteOir, que coordena a plataforma CitizenGO. Em El Salvador, essas redes colaboraram com organizações religiosas locais na defesa da proibição absoluta do aborto e na persecução judicial de mulheres. O Brasil de Bolsonaro foi um dos grandes receptores desta franquia do ódio — a “ideologia de gênero” entrou no discurso eleitoral como argumento decisivo, foi amplificada pelas igrejas evangélicas neopentecostais e chegou ao Congresso Nacional como pauta legislativa.

O modelo operacional é sempre o mesmo, independente da latitude: identificar e recrutar jovens homens que se sentem ameaçados pelas conquistas feministas, reemoldurar a equidade de gênero como perseguição à masculinidade, instalar o pânico moral em torno da educação dos filhos — o “Escola sem Partido” brasileiro é uma variante local desta gramática global — e canalizar o ressentimento acumulado para o voto de extrema direita. A lógica é sempre a mesma: reencadrar os avanços feministas não como conquistas de equidade, mas como ameaças à identidade masculina — posicionando homens como vítimas de uma ideologia dominante, respaldada por elites nos partidos políticos, na mídia e na sociedade civil.

O que as redes sociais fizeram foi turboalimentar este circuito. Algoritmos que recompensam o engajamento emocional negativo — a raiva, o medo, o ódio — revelaram-se a infraestrutura perfeita para a Internacional do Ressentimento. O incel norte-americano, os fóruns masculinos sul-coreanos, o bolsonarista brasileiro e o seguidor de Vox espanhol consomem versões localizadas do mesmo produto: a narrativa de que as mulheres e os feministas são os verdadeiros privilegiados, e que os homens são as vítimas silenciosas de uma conspiração cultural. Viktor Orbán, Jair Bolsonaro, Javier Milei e Yoon Suk-yeol são políticos de países e culturas radicalmente distintos que partilham, entre outras coisas, esta mesma cartilha.

É neste contexto que as notícias que chegam da Coreia do Sul adquirem seu peso específico. Um país que alcançou níveis de desenvolvimento humano comparáveis aos da Europa Ocidental, que domina setores de ponta da economia global, que exporta cultura com desenvoltura — da música ao cinema, da culinária à literatura —, convive com um retrocesso deliberadamente orquestrado nos direitos das mulheres. No Brasil, este fenômeno se torna ainda mais preocupante: mergulhados em uma guerra cultural agravada pela polarização política, vemos a “ideologia de gênero” galvanizar eleitorados, financiar candidatos e ditar pautas parlamentares. Tema que, não por acaso, promete ser central nas eleições de outubro.

A trincheira da página

A vitória de Han Kang no Nobel surge num momento em que a literatura sul-coreana escrita por mulheres floresceu de forma incomum — não apenas pela qualidade literária, mas como expressão de poder numa sociedade que ainda limita as mulheres em tantas outras esferas. Como observou a escritora Euny Hong: “Na literatura, mesmo quando dominada por homens, as vozes mais fortes sempre vieram dos mais oprimidos.”

Há uma longa tradição nessa genealogia de resistência. Da mesma forma que a literatura latino-americana do século XX — de Clarice Lispector a Elena Poniatowska — precisou carregar o peso de dizer o que as estruturas de poder proibiam de ser dito em voz alta, a literatura feminina sul-coreana contemporânea ocupa o espaço que a política, a mídia e o mercado de trabalho ainda recusam a essas mulheres.

Quando li O Livro Branco de Han Kang de uma assentada, num único fôlego, numa poltrona em Brasília, compreendi que estava diante de algo que transcende o cânone literário: uma literatura que existe porque precisa existir. Não como ornamento cultural, mas como ato de resistência — a única forma que algumas sociedades deixam disponível para que as mulheres digam, com toda a clareza, o que lhes foi feito e o que recusam aceitar.

O Nobel de Han Kang não é apenas uma consagração literária. É, como todo grande prêmio dado à hora certa, um gesto político. Um reconhecimento de que a trincheira da página resiste — e, às vezes, avança.

Pedro SantaféPoeta, ensaísta e cronista das travessias íntimas e política

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