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A Visita que não podia existir

O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro confirmou nesta terça-feira (19) que visitou o banqueiro Daniel Vorcaro após a primeira prisão do dono do Banco Master, no fim de 2025 — quando Vorcaro já usava tornozeleira eletrônica. A informação havia sido apurada e publicada pelo portal Metrópoles. Flávio não desmentiu. Confirmou. E explicou: foi pessoalmente dizer que a parceria no filme Dark Horse estava encerrada, porque não é homem de mandar recado. Que comovente fraternidade. O Evangelho de Mateus, capítulo 25, versículo 43, registra: “Estive preso e não me visitastes.”

No caso de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, a leitura é a inversa: esteve preso — e foi visitado. Pela pessoa errada, na hora errada, pelo motivo mais inconveniente que um pré-candidato à Presidência poderia apresentar ao país.

R$ 134 Milhões e o Irmão do Coração

Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro, Flávio Bolsonaro escreveu ao banqueiro pelo WhatsApp: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” No dia seguinte, o “irmão” foi preso enquanto tentava fugir do país, acusado de operar um esquema de fraude que gerou um rombo de dezenas de bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e transformou em pós cerca de R$ 15 bilhões de fundos de pensão. O valor negociado para financiar o filme Dark Horse — a cinebiografia hagiográfica de Jair Bolsonaro com orçamento hollywoodiano — era de US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões pelo câmbio da época. Ao menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025. “Patrocínio privado para um filme privado”, definiu Flávio. Nas Escrituras, chama-se de outra coisa quando o dinheiro de quem roubou aposentados financia a glorificação do pai, que cumpre pena condenado por tentativa de golpe de Estado.

A Justificativa mais Cara do Cinema Nacional

A explicação de Flávio para a visita ao banqueiro preso merece registro literário: foi até a residência de Vorcaro — em São Paulo, onde o monitorado eletrônico estava confinado — para “botar um ponto final” na história e informar pessoalmente que estava encerrando a parceria. “Se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo”, argumentou. A frase é uma obra de arte involuntária. Flávio não lamenta ter feito negócio com um banqueiro que gerou rombo bilionário no sistema financeiro e fraudou aposentados. Lamenta não ter sido avisado antes para buscar outro financiador. O problema, na visão do pré-candidato, não foi o sócio. Foi a falta de aviso prévio. Dark Horse pode não estrear. Mas a ingenuidade fingida de um Senador da República já ganhou o Oscar.

Moro e a Expressão de Pânico

No vídeo sobre a coletiva de Flavio Bolsonaro que circulou nas redes, Sérgio Moro aparece no mesmo “frame” tentando ajudar o correligionário a explicar o inexplicável. A expressão de Moro — homem que conduziu dezenas de interrogatórios e reconhece a diferença entre uma explicação plausível e uma inverossímil — diz mais do que qualquer palavra. O ex-juiz que embarcou no bonde do PL para concorrer ao governo do Paraná sabe que está atrelado a uma candidatura presidencial em derretimento acelerado. A popularidade de Flávio Bolsonaro caiu depois da divulgação do áudio que revelou sua intimidade com o banqueiro. Cada nova revelação do Intercept Brasil, cada confirmação arrancada a conta-gotas em coletivas, corrói um pouco mais o palanque que Moro precisaria para se manter competitivo no Paraná. O homem que construiu a carreira sobre o ônus da prova está agora solidário a quem não consegue sustentar nem a própria versão dos fatos.

Eduardo nos EUA e o Dinheiro que Viajou

O escândalo do Dark Horse tem uma ramificação que a imprensa acompanha com crescente atenção: a Polícia Federal apura se parte do dinheiro atribuído ao financiamento do filme foi usada para custear a permanência do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde vive desde fevereiro de 2025. O filho “03” foi para os EUA após o pai ser condenado pelo golpe de 8 de janeiro, e de lá opera como lobista informal do clã junto ao governo Trump. Se confirmada a destinação, o Dark Horse deixa de ser um filme caro sobre um ex-presidente e se converte em instrumento de sustento e articulação política de uma família que transformou o dinheiro público — e agora, ao que tudo indica, o dinheiro de fraudadores — em recurso de sobrevivência política. A Polícia Federal que explique. O eleitor, que julgue.

O Inferno Astral e o Calendário Eleitoral

Flávio Bolsonaro vive seu inferno astral em câmera lenta e em technicolor. Em poucos dias vieram a público áudios cobrando R$ 134 milhões de um banqueiro preso, a confirmação da visita domiciliar no interstício entre as duas prisões, a investigação da PF sobre o destino do dinheiro e, como efeitos especiais, as pesquisas mostrando derretimento nas intenções de voto. O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do Dark Horse para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial. A data foi escolhida com obviedade simbólica. O problema é que, no ritmo das revelações, o filme pode chegar aos cinemas ao mesmo tempo em que seu principal financiador responde a inquérito policial — e seu principal beneficiário tenta explicar à Justiça e ao eleitorado porque visitou Vorcaro e porque precisava tanto, tanto assim, daquele dinheiro. O inferno astral não tem data de encerramento. Mas o calendário eleitoral, sim.

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