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Rattín, o capitão que desafiou a Rainha e mudou as regras do futebol

A morte de Antonio Rattín, aos 83 anos, reacende uma história que ultrapassa o futebol e ajuda a explicar por que Argentina e Inglaterra se tornaram rivais tão apaixonados dentro e fora de campo. Tudo começou 20 anos antes do inesquecível confronto de 1986, num duelo disputado em pleno território inglês, na Copa do Mundo de 1966.

O estopim em Wembley

Capitão da seleção argentina, Rattín foi expulso ainda no primeiro tempo do jogo contra a Inglaterra, válido pelas quartas de final daquela Copa. O motivo foi uma sequência de reclamações contra a arbitragem do alemão Rudolf Kreitlein, que perdeu a paciência com o jogador. Na época, os cartões amarelo e vermelho ainda não existiam, e as expulsões eram comunicadas apenas verbalmente — o que gerou confusão e discussão sobre o que, de fato, havia acontecido em campo.

Anos depois, em entrevista a um jornal argentino, Rattín relatou sua versão dos fatos: dizia que o árbitro favorecia o time da casa em lances de pouca clareza e que pedia, sem sucesso, a presença de um intérprete para entender a expulsão, já que não falava alemão nem inglês.

Inconformado, o argentino demorou a deixar o gramado. No caminho até o vestiário, teria se sentado no camarote reservado à Rainha Elizabeth II — que não estava presente naquele momento — e, ao cruzar uma bandeirinha de escanteio com o símbolo britânico, provocou a torcida inglesa, que revidou atirando objetos em sua direção.

O episódio que mudou as regras do jogo

O caso teve consequências práticas para o futebol mundial. Preocupada com a falta de clareza nas expulsões, a Fifa decidiu adotar, já na Copa seguinte, disputada no México em 1970, o sistema de cartões amarelo e vermelho que conhecemos até hoje. A medida buscava evitar que uma situação como a envolvendo Rattín se repetisse, dando mais transparência às decisões arbitrais.

Guerra, revanche e a Mão de Deus

Se o episódio de 1966 plantou a semente da rivalidade, foi a década de 1980 que a transformou em algo maior que o esporte. Em 1982, Argentina e Reino Unido travaram a Guerra das Malvinas, conflito de três meses pelo controle do arquipélago no Atlântico Sul, que deixou centenas de mortos dos dois lados e permanece como ferida aberta na relação entre os dois países.

Quatro anos depois, o destino colocou as seleções frente a frente justamente nas quartas de final da Copa de 1986, no México. Foi ali que Diego Maradona escreveu duas das cenas mais lembradas da história dos Mundiais: o gol de mão, batizado de “Mão de Deus”, seguido minutos depois por uma jogada individual que passou por praticamente toda a defesa inglesa até estufar a rede. A Argentina venceu por 2 a 1, seguiu até a final e viria a ser campeã mundial naquele ano.

Novos capítulos em 1998 e 2002

O duelo voltaria a marcar Copas do Mundo em outras duas ocasiões. Em 1998, na França, as seleções empataram em 2 a 2 nas oitavas de final, num jogo que teve a expulsão do inglês David Beckham após um desentendimento com Diego Simeone; nos pênaltis, a Argentina levou a melhor. Em 2002, no Japão, foi a vez da Inglaterra vencer na fase de grupos, com gol de pênalti do próprio Beckham, resultado que contribuiu para a eliminação precoce dos argentinos naquele Mundial.

Mais de meio século depois daquela tarde em Wembley, a partida que consagrou Rattín como símbolo de resistência para os argentinos — e como vilão para os ingleses — segue sendo lembrada como um dos episódios mais marcantes da história das Copas do Mundo, tanto pela rivalidade que ajudou a criar quanto pela mudança que provocou nas regras do futebol.

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