Por Álvaro Dias
“Não precisamos de uma ONU mais eloquente. Precisamos de uma ONU mais capaz de fazer prevalecer o direito internacional. Se a humanidade pretende evitar que o século XXI seja marcado pela lei do mais forte, terá de reformar as instituições criadas justamente para impedir que isso aconteça”
Quando a ONU mais uma vez se reúne para o mundo ouvir discursos se torna oportuna a reflexão madura sobre nossa realidade.
A Organização das Nações Unidas nasceu das ruínas da Segunda Guerra Mundial com uma missão grandiosa: impedir que a humanidade voltasse a experimentar a tragédia de uma guerra mundial e criar mecanismos capazes de preservar a paz entre as nações.
O mundo de hoje, porém, coloca diante da ONU uma pergunta incômoda: ela ainda dispõe de autoridade e instrumentos suficientes para cumprir a missão para a qual foi criada?
Diante de guerras, invasões, ataques contra populações civis e crises humanitárias, multiplicam-se as reuniões, os discursos e as resoluções. Mas, muitas vezes, a distância entre a palavra e a ação parece aumentar justamente quando a humanidade mais necessita de uma autoridade internacional capaz de fazer prevalecer o direito.
Não se trata de afirmar que a ONU seja inútil. Seria injusto e historicamente incorreto. Suas operações de paz contribuíram para encerrar conflitos e sustentar processos de reconstrução em diversos países.
O problema está na paralisia política do Conselho de Segurança diante dos interesses conflitantes das grandes potências.
Cinco países — Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido — possuem assento permanente e poder de veto. Uma única decisão negativa de um deles pode impedir a aprovação de uma resolução, mesmo quando os demais integrantes do Conselho estejam de acordo.
Um exemplo recente é eloquente. Em junho de 2025, um projeto apresentado pelos dez membros eleitos do Conselho de Segurança para exigir um cessar-fogo permanente em Gaza recebeu 14 votos favoráveis. Foi barrado pelo veto dos Estados Unidos. Em setembro daquele ano, outro projeto sobre Gaza também não foi aprovado em razão do veto de um membro permanente.
A pergunta é inevitável: como construir uma ordem internacional baseada no direito quando o próprio sistema de segurança coletiva pode ser bloqueado pela vontade de uma única grande potência?
O veto foi concebido em 1945 como parte do equilíbrio de poder que tornou possível a criação da ONU. Mas o mundo mudou profundamente desde então. Novas potências surgiram, novos conflitos apareceram e grande parte da humanidade que hoje participa das decisões internacionais não tinha voz quando aquela arquitetura foi construída.
A própria ONU reconheceu a necessidade de mudança. No Pacto para o Futuro, aprovado em 2024, os países-membros assumiram o compromisso de reformar o Conselho de Segurança para torná-lo mais representativo, inclusivo, transparente, eficiente e democrático.
Mas reconhecimento não basta.
A humanidade não pode esperar que uma nova tragédia obrigue as nações a reformar aquilo que já sabem que precisa ser reformado.
A questão não é enfraquecer a ONU. É fortalecê-la.
Não precisamos de uma ONU mais eloquente. Precisamos de uma ONU mais capaz de fazer prevalecer o direito internacional.
Uma organização capaz de agir com maior eficácia quando a paz estiver ameaçada; de prevenir conflitos; de proteger populações civis e de transformar decisões coletivas em ações efetivas.
Há uma diferença fundamental entre ter uma instituição internacional e ter uma instituição internacional capaz de produzir resultados.
A ONU possui uma característica que nenhuma outra organização consegue substituir: reúne praticamente todas as nações do planeta em torno de uma mesma mesa. Essa legitimidade universal continua sendo extraordinariamente valiosa.
Por isso, a crise atual não deve levar ao abandono da ONU, mas à sua reforma.
O mundo precisa de mais multilateralismo, não de menos. Precisa de mais diálogo, não de menos. Precisa de instituições internacionais mais fortes, não de uma volta à lógica segundo a qual cada país resolve seus conflitos pela imposição da força.
Mas o multilateralismo também precisa recuperar credibilidade.
Não basta condenar uma guerra depois que ela começa. É necessário criar condições para preveni-la.
Não basta aprovar uma resolução. É necessário criar mecanismos para que ela produza consequências.
Não basta declarar preocupação com a morte de civis. É preciso criar condições para protegê-los.
E não basta defender a paz em discursos. É preciso construir instrumentos capazes de sustentá-la.
O que está em jogo é maior do que o futuro de uma organização.
Está em jogo a própria ideia de que o direito deve prevalecer sobre a força.
Se a ONU continuar incapaz de agir quando as grandes potências discordarem, estaremos diante de uma contradição histórica: uma instituição criada para impedir a lei do mais forte ficará limitada justamente pela força dos mais poderosos.
Não podemos aceitar que o século XXI seja governado pela lógica do século XIX.
O mundo precisa atualizar suas instituições à realidade do nosso tempo.
A reforma da ONU, especialmente do Conselho de Segurança, não pode continuar sendo apenas tema de conferências e discursos. Precisa tornar-se uma prioridade concreta da diplomacia internacional.
Porque, quando a diplomacia falha, a guerra avança.
E quando a guerra avança sem que as instituições internacionais consigam reagir, não é apenas a autoridade da ONU que se enfraquece.
É a esperança de que a humanidade tenha aprendido alguma coisa com as tragédias do passado.
Álvaro Dias ex governador/senador


