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O homem que aprendeu a atravessar o rio

Por Fabio Aguayo

Mark Twain, um dos grandes escritores norte americanos, conhecia como poucos as contradições humanas. Talvez porque tenha passado boa parte da vida observando homens que se julgavam melhores do que realmente eram. Twain tinha uma vantagem sobre a maioria dos moralistas: preferia contar uma boa história a fazer um sermão. Sabia que a realidade, quando bem narrada, costuma dispensar adjetivos.

Lembrei-me dele na noite em que Sergio Moro foi eleito governador do Paraná.

Há uma ironia nessa história que certamente agradaria ao escritor americano. O homem que passou boa parte da vida julgando os atos dos outros precisou, em determinado momento, submeter sua própria trajetória ao julgamento popular. E foi justamente o voto que lhe abriu um novo capítulo.

Conheço Moro desde os primeiros tempos de sua vida pública. Vi de perto a transformação de um juiz reservado, acostumado à linguagem precisa dos processos, em um dos personagens mais conhecidos da história recente do Brasil, admirado por milhões de brasileiros e combatido com extraordinária intensidade por aqueles que viram seus interesses e suas certezas ameaçados.

Nada disso estava nos seus planos originais.

Na magistratura, Moro participou de um capítulo extraordinário da história brasileira. A Operação Lava Jato revelou um gigantesco esquema de corrupção envolvendo agentes públicos, dirigentes partidários, empreiteiras e empresas estatais. Pela primeira vez em muito tempo, brasileiros acostumados a ver o poder protegido por sua própria importância assistiram a figuras poderosas responderem perante a Justiça.

Naturalmente, isso despertou resistências. E não foram poucas. Setores políticos que durante anos conviveram confortavelmente com práticas que a Lava Jato trouxe à luz passaram a dedicar enorme energia ao combate à operação e aos seus protagonistas. Moro tornou-se alvo preferencial de uma oposição incansável, que frequentemente parecia mais empenhada em desacreditar quem investigava do que em explicar aquilo que havia sido descoberto.

Mas seria impossível compreender sua trajetória sem reconhecer a dimensão do combate à corrupção que marcou sua carreira e a confiança que conquistou entre milhões de brasileiros.

A política, porém, tem suas próprias leis. E poucas se parecem com aquelas ensinadas nas faculdades de Direito.

Quando deixou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça, Moro acreditava que poderia contribuir para transformar o país por outro caminho. A experiência terminou antes do previsto, e ele seguiu adiante com a convicção de que sua trajetória precisava permanecer fiel aos princípios que sempre defendera.

Preservar a própria biografia, naquele momento, significou aceitar um futuro incerto.

Depois vieram os ataques, as disputas partidárias, os projetos interrompidos e as portas que se fecharam quando pareciam prestes a se abrir. Houve momentos em que observadores experientes decretaram o fim de sua carreira política. Alguns fizeram isso mais de uma vez, com a segurança de quem jamais considera a possibilidade de estar enganado.

É impossível não lembrar novamente de Mark Twain. Quando um jornal publicou equivocadamente a notícia de sua morte, o escritor reagiu com uma observação que atravessaria os séculos: os rumores sobre sua morte haviam sido bastante exagerados.

Com Moro, os anúncios de morte política também envelheceram mal.

Em 2022, contrariou previsões e conquistou uma cadeira no Senado. Quatro anos depois, venceu a eleição para o governo do Paraná no primeiro turno, enfrentando adversários de diferentes campos políticos, inclusive a força de estruturas partidárias e governamentais que se mobilizaram contra sua candidatura.

A vitória teve um significado especial. O menino nascido em Maringá, que construiu sua carreira em Curitiba e se tornou conhecido em todo o Brasil, recebeu dos paranaenses a responsabilidade de governar o estado onde começou sua história.

Não foi uma trajetória linear. Talvez as trajetórias verdadeiramente humanas nunca sejam.

A política lhe ensinou algumas lições que os tribunais dificilmente poderiam oferecer. Uma delas é que a razão, por mais sólida que seja, nem sempre dispensa a companhia da paciência. Outra é que os homens, mesmo quando caminham na mesma direção, raramente concordam sobre o melhor caminho.

Tenho observado com particular interesse essa nova fase de Moro. Há nele uma disposição para o diálogo que surpreende quem se acostumou a enxergá-lo apenas pela severidade da toga. A experiência parece ter acrescentado novas cores a um temperamento que muitos julgavam conhecer por inteiro. É curioso como a vida se encarrega de revelar dimensões que os retratos públicos, quase sempre apressados, não conseguem alcançar.

As novas aproximações fazem parte dessa história. Algumas seriam consideradas improváveis poucos anos atrás. Outras parecem tão naturais que nos perguntamos por que demoraram tanto. A política tem dessas coisas: reúne à mesma mesa pessoas que, até a véspera, talvez preferissem discutir a disposição das cadeiras.

Mas há também aqueles personagens que atravessam a narrativa desde os primeiros capítulos. Conhecem os episódios que não chegaram aos jornais, as conversas que nunca se tornaram discursos e os dias em que o futuro parecia uma hipótese bastante remota. Não precisam ser apresentados a cada nova página. Fazem parte da história, e certas histórias perderiam muito de seu sentido sem eles.

É uma das coisas que mais me interessam nessa travessia. A capacidade de acolher o novo sem que o passado deixe de ter significado. De descobrir outras margens sem perder a intimidade com o rio.

Mark Twain conhecia bem os rios. Antes de se tornar escritor, foi piloto de barcos no Mississippi. Sabia que a navegação exigia uma combinação singular de firmeza e sensibilidade. Era preciso compreender a correnteza, perceber os movimentos quase invisíveis da água e reconhecer que um bom comandante não se distingue pela pretensão de dominar o rio, mas pela habilidade de atravessá-lo.

Acompanho Moro há tempo suficiente para reconhecer a extraordinária transformação de sua trajetória. Vi o juiz tornar-se uma figura nacional, o ministro enfrentar a incerteza, o candidato contrariar prognósticos e o senador conquistar, pelo voto, a responsabilidade de governar o estado onde nasceu.

O que mais me impressiona não é propriamente a sucessão desses acontecimentos. É perceber como uma existência pode mudar tanto de cenário sem perder aquilo que lhe dá unidade.

Twain certamente encontraria nessa história matéria para um romance. Talvez se divertisse com os personagens, com as reviravoltas e, principalmente, com a quantidade de gente que se julgou capaz de antecipar o último capítulo.

Eu tive a sorte de acompanhar boa parte dessa história de perto. E confesso que ainda me divirto com a surpresa daqueles que insistem em acreditar que já conhecem o desfecho.

Quanto ao rio, ele continua correndo. E Moro, que aprendeu a enfrentar suas correntezas, prepara-se agora para conduzir o barco.

Fabio Aguayo é empresário em Curitiba

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