Candidatos à Presidência precisam responder a perguntas incômodas. E uma delas todos gostariam de saber: abrir ao sigilo bancário de cada um, o de Lula e o de Flávio.
Enquanto brasileiros ocupavam as ruas para defender suas escolhas políticas, na televisão os candidatos à Presidência da República tinham outra obrigação: explicar o que pretendem fazer pelo país. No primeiro confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, porém, sobraram ataques e faltaram respostas. Para quem esperava propostas, o debate da Band ficou devendo.
Houve provocações, ironias, acusações e perguntas que voltavam ao ponto de partida sem encontrar uma explicação convincente. O eleitor interessado em saber como os candidatos pretendem enfrentar os problemas nacionais precisou procurar propostas em meio ao tiroteio verbal.

Como no Coliseu, da Roma antiga
Vencer uma discussão na televisão não significa conquistar a confiança de quem está do outro lado da tela. Nesse aspecto, é difícil apontar um vencedor. Os dois tiveram oportunidades de esclarecer suas posições, mas preferiram, em boa parte do confronto, explorar as vulnerabilidades do adversário.
Os mediadores do debate deveriam saber que haveria trocas de acusações e que seria uma guerra tensa. Para ouvir os candidatos falarem sobre propostas, seria necessário restringir o debate e não permitir ataques gratuitos, sob pena de interrupção da fala. Também deveria haver um momento de checagem. Sempre que um candidato dissesse “ele está mentindo”, a TV teria obrigação de checar e responder ao vivo. Isso seria desmoralizante para quem mente. Mas as regras parecem ter sido feitas para entreter as pessoas, como se estivéssemos no Coliseu, na Roma Antiga.
Quase que assistimos uma cena ainda mais dantesca no final do debate, quando a plateia resolveu se manifestar para defender seu candidato e os marketeiros quase saíram na porra. A mediação teve dificuldade em conter as tropas.
Flávio aponta o dedo, mas esconde a mão
Cobrar explicações é necessário. Candidatos à Presidência precisam responder a perguntas incômodas. O problema surge quando a cobrança vira um circuito de acusações, sem esclarecimento suficiente e sem permitir que o debate avance.
Flávio insistiu nas acusações envolvendo o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Lula reagiu com questionamentos sobre Daniel Vorcaro e o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. A troca colocou familiares e suspeitas no centro do palco, consumindo o espaço que também deveria servir à discussão dos rumos do país.
Lula repetiu perguntas para pressionar Flávio e expor suas evasivas. O senador recorreu à ironia e às provocações para tentar desestabilizar o presidente. As estratégias podiam render cortes para as redes sociais e aplausos das respectivas torcidas. Ao eleitor que ainda procura razões para decidir seu voto, ofereceram pouco.
Segurança pública exige mais do que palavras de ordem. Economia exige mais do que a celebração do passado ou promessas genéricas para o futuro. Saúde, educação e emprego precisam de compromissos acompanhados de caminhos possíveis para realizá-los.
É cedo para medir o efeito eleitoral do confronto. Mas o debate deixou uma frustração: diante da oportunidade de apresentar um projeto de país, os candidatos gastaram energia tentando desqualificar um ao outro.
Mais respostas e menos desconfiança
O Brasil precisa escolher quem vai governá-lo pelos próximos quatro anos. Merecia sair desse encontro com mais respostas e menos motivos para desconfiar.
Como disse um empresário paulista: onde estão as propostas de infraestrutura para nosso país. Onde estão as propostas para o avanço da tecnologia e produtividade no agronegócio?
Este filme nós já conhecemos. Só não sabemos como andam as contas bancárias dos dois candidatos, mesmo Lula desafiando Flávio para abrir a caixa-preta.


