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A última vez em que sempre estive aqui

“A beleza salvará o mundo.”

— Dostóieviski, O Idiota

Pedro Santafé

Não me recordo exatamente qual foi o gatilho, nem em que idade abandonei a soberba e a arrogância da juventude. Já refiz esse caminho tantas vezes, mas jamais consegui identificar a encruzilhada que me obrigou a fazer a escolha mais decisiva.

Também não consegui decifrar outro mistério: quando, exatamente, me veio a consciência do tempo — da sua finitude e da sua aceleração. Lembro-me bem da autoconfiança que me fez avançar para além dos trinta, despreocupado, agarrado à ideia da eterna juventude. Não sei quando as linhas e os vincos começaram a se insinuar no espelho, nem a primeira vez em que me assustei com a minha própria imagem. Acho que foi por meio de fotos de relance, tiradas por outras pessoas.

Mais complexo foi o sentimento que brotou quando a consciência do tempo se tornou inapelável: a estranha sensação de deslocamento, de estar fora de lugar, na contramão do roteiro que eu havia vislumbrado para a minha vida. O incômodo de se sentir deixado de lado, cada vez mais ensimesmado e recluso. Logo eu, que sempre me vangloriei de ser um homem do mundo, que rejeitou as próprias raízes, que se insurgiu contra a vida campesina e suas privações. Eu me autocongratulava por ter quebrado barreiras e expandido horizontes, por ter morado em tantos lugares e desfrutado das boas coisas da vida. Mas a sensação de não pertencer a lugar algum foi cedendo espaço a um certo conformismo — o de quem fica por já não ter para onde ir.

Essa passividade resignada de se estabelecer num lugar não dissipou, todavia, a incômoda percepção diária do deslocamento e, o que amplia ainda mais o abismo, a recusa teimosa em aceitar a inexorabilidade do ciclo natural da vida. Não há conciliação possível com os arrependimentos e os remorsos das más escolhas. O tempo só se mostra eficiente em destruir fragmentos de memórias felizes, ao passo que realça as tristes e amargas.

Nunca tarda o silêncio do fim da festa, a desolação da taça vazia. E, quando se instala o compasso lento do vazio absoluto, o que resta é a espera do que não tem volta.

Nunca consegui me abandonar, mesmo quando, por vezes, desisti de mim. Construí muralhas para me proteger. E fiquei refém dos limites que eu mesmo estabeleci.

Quarta-feira de cinzas.

Os tambores e atabaques cedem lugar aos sinos.

Não há penitência capaz de redimir uma vida dissipada.

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