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Luz, Câmara, Ação: O Brasil entra em cena sob aplausos

Cinema brasileiro coleciona prêmios e vive era dourada

Por Pedro Santafé

As luzes se acendem, a câmera se aproxima e o Brasil entra em cena. Não como figurante exótico, mas como protagonista de uma narrativa que atravessa a memória, a política e a história recente do país. O cinema brasileiro vive um momento raro: ocupa o centro do palco internacional, conquista prêmios de prestígio e reafirma, com voz própria, uma identidade marcada pela diversidade cultural e étnica e pela resiliência democrática.

Não se trata, portanto, de uma maré de sorte nem de um acaso histórico. O cinema nacional vem colecionando alguns dos prêmios mais prestigiados do circuito mundial — Cannes, Berlinale, Globo de Ouro e Oscar —, mas o que está em jogo vai além do reconhecimento internacional. Trata-se da afirmação de uma narrativa própria do cinema brasileiro, madura e politicamente consciente, resultado de uma combinação singular de maturidade estética, densidade política e reconexão com a memória do país, fatores que recolocaram o Brasil no radar central da cultura contemporânea.

Na edição de 2026 do Globo de Ouro, realizada ontem (11), em Hollywood, Wagner Moura tornou-se, com todos os méritos, o primeiro brasileiro a vencer o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama. A estatueta veio por sua atuação em O Agente Secreto (2026), dirigido por Kleber Mendonça Filho, produção que conquistou ainda o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

Com esse feito, o Brasil venceu o Globo de Ouro por duas edições consecutivas. No ano anterior, Fernanda Torres havia sido consagrada Melhor Atriz em Filme de Drama por sua atuação magistral em Ainda Estou Aqui (2025), dirigido por Walter Salles. Dois intérpretes, dois filmes, duas narrativas profundamente enraizadas na história brasileira recente — e um reconhecimento internacional que já não pode ser tratado como coincidência.

A conquista de Wagner Moura soma-se aos prêmios amealhados por O Agente Secreto em Cannes e no Festival de Cinema de Berlim (Berlinale), praticamente garantindo sua indicação ao Oscar. A lista oficial de indicados será divulgada no próximo dia 22 de janeiro, e o ator já aparece como favorito em publicações especializadas norte-americanas.

Ao subir ao palco para receber o prêmio, Wagner Moura sintetizou o espírito do filme — e talvez de toda essa fase do cinema nacional — em poucas palavras: “‘O Agente Secreto’ é sobre memória, ou a falta dela, e trauma geracional. Acho que, se o trauma pode atravessar gerações, valores também podem. Isso vai para quem está firme nos seus valores em tempos difíceis.” Foi aplaudido pela seleta audiência.

O primeiro prêmio da noite para O Agente Secreto foi o de Melhor Filme em Língua Não Inglesa. A produção brasileira não venceu a categoria de Melhor Filme de Drama, conquistada por Hammelet, mas já havia assegurado algo mais duradouro: unanimidade crítica. Ao receber o troféu, o diretor Kleber Mendonça Filho elogiou o protagonista e fez um discurso que soou como manifesto: “Dedico este prêmio aos jovens cineastas. Este é um momento muito importante para fazer filmes aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Jovens cineastas americanos, façam filmes.”

Com isso, O Agente Secreto tornou-se o terceiro filme brasileiro a vencer na categoria. O primeiro foi Orfeu Negro (1960), embora oficialmente atribuído à França, responsável por sua produção. O segundo foi Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles, que no ano passado alcançou o Olimpo do cinema ao vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional com Ainda Estou Aqui. Um feito que Kleber Mendonça Filho pode repetir neste ano.

Essa fase dourada do cinema nacional não pode ser dissociada do contexto político recente. Poucas áreas de política pública sofreram retrocesso tão brutal durante o governo Bolsonaro (2019–2022) quanto a cultura. O desmonte do Ministério da Cultura foi acompanhado por um obscurantismo militante, simbolizado pela gestão do medíocre ex-ator Mário Frias à frente da Secretaria Especial de Cultura, marcada por uma agenda explícita de desarticulação das políticas públicas de fomento. O audiovisual foi um dos alvos preferenciais.

A derrota do bolsonarismo nas urnas e nos tribunais, fruto da resiliência da democracia brasileira, reabriu espaços de liberdade criativa. Esse novo clima se reflete diretamente nos filmes que hoje conquistam plateias globais e prêmios internacionais. Não por acaso, Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto têm como pano de fundo o período repressivo da ditadura militar, com prisões, torturas e desaparecimentos forçados. Trata-se de um cinema da memória — precisamente aquilo que o bolsonarismo tentou apagar.

O Brasil está na moda. Virou coqueluche nas redes sociais. Essa imagem positiva impulsiona o turismo e amplia a circulação de produtos culturais brasileiros, mas não tem o condão mágico de resolver problemas estruturais como desigualdade e violência. Ainda assim, é reconfortante testemunhar a afirmação do Brasil como uma nação culturalmente vibrante, mestiça e criativa.

Mais do que nunca, o mundo precisa do Brasil — e da sua vocação para o diálogo e para a cultura de paz nas relações internacionais. O cinema tornou-se uma janela privilegiada para que públicos de diferentes países entrem em contato com nossa identidade. Wagner Moura, com seu engajamento político e destemor em tomar posição, emerge como um dos nossos mais eficazes embaixadores culturais. Bravo.

Por fim, vale notar que o Brasil se junta a outros países emergentes que vêm redefinindo o mapa do cinema mundial, como Irã e Coreia do Sul. Uma nova linguagem cinematográfica se expressa em múltiplas línguas, e o português agora ecoa com força nas salas de cinema do mundo. Isso não é pouco. É história em movimento.

Pedro Santafé, jornalista e crítico cultural.

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