Por Eloi Zanetti
Fazia frio, era véspera de São João, ao final da tarde deixei a oficina do meu pai e fui para casa, ao todo umas 20 quadras andando a pé. Naquele tempo, por volta do final da década de 50, as casas em Curitiba eram quase todas de madeira, tinham quintais, jardins, hortas, sótãos e as pessoas se encontravam na rua, na calçada ou no gramado do campinho – terrenos baldios. À medida que caminhava, sentia o clima da preparação da festa religiosa a ser comemorada logo mais à noite. Parecia a espera de um jogo da Copa do Mundo, que eu aprenderia a apreciar anos depois e, por causa das derrotas sucessivas da nossa seleção, foram se apagando no tempo. Ao caminhar ia vendo a montagem das fogueiras, o preparo dos balões – alguns precipitados já iam soltando os seus. Rojões e bombas pipocavam de tempos em tempos e um cheiro gostoso de lenha queimada adocicava o ar. Das cozinhas vinham o barulho do preparo dos quentões, dos doces e das comidas: pé-de-moleque, paçoca, canjica e pinhão cozido faziam parte do cardápio principal. Por causa do frio, a fumaça dos fogões de lenha subia retinha nos telhados. Cada casa com seus afazeres. Era tudo tão bucólico, calmo e ritmado. O tempo parecia parado e eu, menino, andava sem pressa saboreando cada passo do caminho.
Com a mudança dos costumes as festas de São João foram sendo esquecidas. Já não se soltam bombas porque ferem os ouvidos dos cães, já não se soltam balões porque provocam incêndios, já não se fazem fogueiras porque é antiecológico. As guloseimas da festa engordam, contém açucares e são trabalhosas de fazer, melhor comprar prontas nos supermercados que até fazem “ilhas” com os produtos – mas o gosto nunca será o mesmo.
Minha caminhada termina aqui e fico a pensar: será esta lembrança uma ilusão, uma falsa memória? Até pode ser, mas ainda ecoam em minha mente os sons do apresto da festa, o cheiro das lenhas queimando e o azáfama das pessoas se preparando para o dia em que se comemora o aviso que Isabel mandou à Maria, ao acender uma fogueira, anunciando o nascimento de João Batista, primo de Jesus.


