O deputado Alexandre Curi, presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, deixa o PSD e se filia no Republicanos. A decisão veio após conversa com o governador Ratinho Junior que, até o momento, ainda não decidiu, oficialmente, o nome de seu sucessor no Palácio Iguaçu.
Foram meses de tentativas para que Ratinho Junior indicasse um nome de consenso para frear os avanços do senador e candidato ao Governo pelo PL, Sergio Moro. Ratinho preferiu empurrar com a barriga e o que encontrou, agora, como uma solução paliativa, foi filiar a jornalista Cristina Graeml no PSD, o que irritou muita gente da base partidária.
Não faz muito tempo — menos de dois anos — que Cristina Graeml, então candidata à Prefeitura de Curitiba, chamou Ratinho Júnior de “governador sonoplasta”, numa referência à sua trajetória profissional antes da política. O governador, escandalizado, rebateu nas redes chamando-a de “preconceituosa”. Trocas de farpas, cotoveladas, mútuo desprezo de campanha.
Na noite de terça-feira (31), os dois apareceram juntos num vídeo no Instagram, sorridentes, com Ratinho anunciando o convite e Graeml agradecendo. O governador afirmou que os dois “vinham conversando bastante sobre Paraná, sobre Brasil, sobre futuro, sobre aquilo que nos une”.
O que os une, afinal, é simples: ele precisa de nomes para preencher a chapa e ela precisa de um partido “AirBnB” depois de ter sido escanteada pelo PL para acomodar Sérgio Moro e sua trupe. Na política, o insulto de ontem é a aliança de hoje. O sonoplasta e a sonoplastada fazem as pazes. O microfone é do PSD.
O bonde do PSD e o último destino incerto
Ao anunciar a filiação, Ratinho destacou os valores que unem os dois: família, liberdade econômica, propriedade privada e liberdade de imprensa. Coisas bonitas, genéricas e perfeitamente compatíveis com qualquer governo de qualquer partido de centro-direita no Brasil.
O PSD, herdeiro nobre do antigo DEM, neto ilustre do PFL e bisneto remoto da Arena, nunca foi exatamente um partido de clareza ideológica e programática — é um partido de gestão de interesses, de ocupação de espaços, de acomodação de deserdados de outras siglas.
O bonde do PSD, como se sabe, promete levar o passageiro a qualquer destino. O problema é que, desta vez, nem o condutor sabe ao certo para onde vai — e a passageira recém-embarcada tampouco. Ainda não há definição sobre qual cargo Cristina deve disputar: senadora ou vice-governadora. Nos últimos dias da janela partidária, a xepa da feira tem seus encantos. Mas quem chega no final leva o que sobrou — e raramente é o melhor produto da banca.
Alexandre Curi, descartado por Ratinho Junior, mesmo depois de sete anos de parceria, viajando pelo interior e mostrando, mutuamente, os valores do Paraná, é um cidadão que construiu sua trajetória política com um ativo cada vez mais raro no cenário nacional: consistência.
Longe dos holofotes fáceis e das polêmicas de ocasião, Curi se firmou como um dos nomes mais sólidos da política paranaense, daqueles que preferem entregar resultados a colecionar manchetes.
Herdeiro de uma tradição respeitada — neto do emblemático Aníbal Khury — soube transformar legado em responsabilidade, não em atalho. Ao longo dos anos, consolidou uma atuação pautada pelo diálogo, pela previsibilidade e por uma leitura madura do funcionamento do Estado. Em tempos de radicalização e improviso, seu perfil técnico e equilibrado se destaca como um contraponto necessário.
A relação entre o governador Ratinho Junior e o deputado Alexandre Curi não é de afastamento — é de cálculo. E, na política, cálculo quase sempre fala mais alto que preferência.
Não apostar abertamente em Curi, ao menos por enquanto, passa menos por desconfiança e mais por estratégia. Ratinho governa um grupo amplo, heterogêneo, onde convivem interesses de partidos, lideranças regionais e projetos pessoais. Escolher cedo um “herdeiro” significaria, na prática, fechar portas e criar resistências dentro da própria base.
Curi, por sua vez, tem um perfil altamente valorizado nos bastidores — técnico, confiável, articulador — mas não necessariamente aquele que mobiliza massas ou impõe candidatura de forma natural. Em um cenário eleitoral cada vez mais influenciado por comunicação direta e exposição, isso pesa. Não é um defeito, mas é um fator de decisão.
Mas Curi provou, mais uma vez nesta semana, que tem potencial político. Chegou às suas mãos, uma extensa lista de assinatura com mais de 200 prefeitos que querem vê-lo dando continuidade ao bom governo de Ratinho Junior.
Curi leu nome por nome da lista e agradeceu. Evitou, no entanto, a dar publicidade ao fato para justamente não fomentar conflitos, porque não é de sua índole. Não é um político de redes sociais inflamadas por entender que, no confronto, a razão se perde e essa contaminação empobrece o debate.
Ainda sobre Ratinho Junior, há também um ponto clássico da política: quem escolhe demais, perde poder antes da hora. Ao não cravar um sucessor, o governador mantém todos sob sua órbita, evita divisões e preserva sua capacidade de arbitragem até o momento decisivo.
No fundo, Curi não está fora do jogo — está sendo preservado dentro dele. Mas, para virar aposta principal, talvez precise dar um passo além do bastidor e provar que consegue transformar sua reconhecida capacidade de articulação em capital eleitoral mais visível.
Nesta quarta-feira (01), procurei Alexandre Curi para uma entrevista. Pelo seu gabinete, circulavam Felipe Francischini, do Podemos, Luciano Ducci, do PSB, entre outros. Não consegui lograr êxito porque o deputado tinha sido convocado para uma reunião no chamado “chapéu pensador”, provavelmente com o governador Ratinho Junior. Às 13 horas Curi embarcaria para Brasília onde assinaria a ficha no Republicanos.


