No coração do agronegócio brasileiro, uma surpresa ecoou como trovão em céu azul. O empresário do agro Eraí Maggi, conhecido como “o rei da soja” e liderança incontornável de um setor que ajudou a moldar o PIB, a balança comercial e o mapa político do país, elogiou a política agrícola e ambiental do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Suas palavras foram ditas em pleno encontro do agro. Ao reconhecer avanços, diálogo e estabilidade institucional, o empresário deslocou o eixo da narrativa fácil que insiste em pintar o campo como um bloco monolítico, ideologicamente fechado.
O episódio revela um agro mais pragmático do que ideológico. Um setor que negocia com quem estiver no poder, desde que a porteira continue aberta para exportações, crédito e previsibilidade. E expõe, também, fissuras numa direita rural que já não fala com uma única voz.
Se o elogio foi estratégico, sincero ou calculadamente diplomático, o tempo dirá. Mas, no palco onde tratores costumam roncar mais alto que discursos progressistas, o aceno ao presidente teve peso simbólico — e promete gerar ruído para além das lavouras.
“Proteger o meio ambiente é proteger o Brasil”, afirmou Eraí logo no início.
O empresário recordou que, há cerca de 10 a 15 anos, apresentou ao então presidente uma lista com nove reivindicações do setor. Segundo ele, todas foram trabalhadas, resultando em normatizações que deram segurança jurídica ao crédito e ao financiamento bancário.
Destacou ainda o rigor técnico na liberação de defensivos agrícolas, rejeitando a entrada de produtos clandestinos e moléculas sem estudos adequados. “Aqui teve exigência, teve estudo. Produzimos dessa forma”, disse.
Eraí também lembrou que há mais de 20 anos não se registram invasões em terras produtivas, o que, segundo ele, garantiu segurança aos bancos e abriu espaço para financiamento internacional de longo prazo — com carência, juros reduzidos e crédito para silos, tratores, colheitadeiras e pulverizadores.
O resultado, afirmou, foi ganho de produtividade, renda, emprego e alimento mais barato. “O Brasil virou uma potência.”
Segundo o empresário, agora o gargalo é infraestrutura. Citou avanços logísticos, como a rota Cuiabá–Santarém, cuja licença ambiental foi concedida, e defendeu a necessidade de avançar com a Ferrogrão. “Diminui a questão ambiental, judia menos”, pontuou.
Também elogiou a agenda internacional do presidente. “O presidente Lula está correndo o mundo, abrindo mercado. Aquilo que nos incomodou nas exigências ambientais acabou sendo solução. Encheu o saco, mas foi bom.”
Lula, por sua vez, reagiu com ironia política. Disse que parte do agronegócio que o critica talvez não ouça Eraí, apesar de sua representatividade. Defendeu que vetos na legislação ambiental não foram feitos contra o agro, mas para proteger sua inserção internacional.
“Queremos uma produção cada vez maior, mas cada vez mais sustentável e limpa”, afirmou o presidente.


