A jornalista brasileira Lorena Nogaroli, de 48 anos, ficou gravemente ferida após ser atacada por um cão da raça American Bully enquanto cuidava do animal temporariamente, no norte de Londres.
O ataque ocorreu no último sábado (28) e está sendo analisado pela polícia britânica.
Segundo Lorena, o cão — chamado Simba — havia sido deixado sob seus cuidados enquanto o tutor viajava. Nos dias anteriores, o comportamento do animal não indicava risco.
“Ele era dócil, amoroso e companheiro. Dormia na minha cama e me seguia pela casa”, disse a brasileira.
Embora demonstrasse reatividade ao ver outros animais na rua, o cão nunca havia apresentado agressividade contra pessoas.
“Aconteceu sem nenhum aviso”
Na noite do ataque, a jornalista afirma que ambos estavam tranquilos em casa, assistindo televisão.
“De repente — e sem nenhum gatilho — ele me atacou.”
Segundo o relato, o cão mordeu inicialmente seu rosto, causando uma lesão no queixo, e em seguida a derrubou no chão.
Ela afirma que tentou se defender com braços e pernas, mas sofreu múltiplas mordidas.
“Os olhos dele mostravam que não pretendia parar enquanto não tivesse terminado.” A brasileira descreve que o animal parecia irreconhecível durante o ataque.
Após cerca de cinco minutos, conseguiu escapar para o quintal e, em seguida, se trancar dentro da casa, deixando o cão do lado de fora.
Internações e cirurgias
Lorena, que mora em Londres há cinco anos, foi levada ao North Middlesex University Hospital, onde recebeu atendimento de emergência.
Ela passou por três cirurgias iniciais, incluindo a retirada de um dente do animal que ficou preso em sua tíbia.
Foram oito perfurações profundas, segundo o prontuário do hospital. Ela recebeu antibióticos, anticoagulantes, analgésicos opioides, suporte com oxigênio e vacinas preventivas.
Depois, foi transferida para o Barnet Hospital, para avaliação maxilofacial, e posteriormente ao Royal Free Hospital, onde passou por novas cirurgias nas mãos.
Segundo ela, ainda há perda de força e sensibilidade na mão direita e não há previsão de retorno ao trabalho.
Impacto emocional
Além das lesões físicas, Lorena relata consequências psicológicas. “Eu sonho com o ataque. Acordo chorando.”
A polícia ofereceu acesso a um programa de recuperação pós-traumática. Ela também cancelou uma viagem de férias com o filho, planejada para o fim de abril.
Cão foi abatido
A polícia informou que o animal seria abatido e que o caso será encaminhado à Justiça britânica. Na interrogação, a jornalista afirmou que não responsabiliza o tutor. “Ele sempre cuidou do Simba com carinho.”
Ela descreve sentimentos ambíguos. “Dói lembrar dele e saber que foi abatido.”
Sem explicação clara
Segundo ela, não havia sinais de risco iminente antes do ataque.
Policiais mencionaram a possibilidade de um problema neurológico, mas não há confirmação oficial. “Não dá para entender o que aconteceu”, afirma a brasileira.
Aumento de ataques no Reino Unido
O caso ocorre em um contexto de aumento recente de ataques graves no Reino Unido.
Dados do Office for National Statistics (ONS) mostram que 16 pessoas morreram em 2023 na Inglaterra e no País de Gales após ataques de cães — o maior número já registrado.
Até poucos anos atrás, a média anual era de cerca de dois a três casos.
Os registros hospitalares também cresceram. Dados do sistema público de saúde indicam cerca de 8.800 internações por mordidas de cães em 2021-2022, um aumento de aproximadamente 88% em relação a 2007.
Especialistas apontam que os ataques não só se tornaram mais frequentes, como também mais graves.
Situação no Brasil
O aumento não é exclusivo do Reino Unido. No Brasil, dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) indicam que 51 pessoas morreram em 2023 após ataques de cães — o maior número recente já registrado. Em 2022, foram 40 mortes.
Apesar das diferenças entre os sistemas de registro dos dois países, os números sugerem uma tendência semelhante de crescimento em casos graves.
Ao contrário do Reino Unido, o Brasil não possui uma legislação nacional que proíba raças específicas, adotando em geral regras locais e responsabilização do tutor em caso de ataque.
O que diz a lei britânica
No Reino Unido, ataques de cães são regidos pelo Dangerous Dogs Act 1991. A lei considera crime quando um cão está “fora de controle de forma perigosa”, ou seja, quando causa ferimentos ou risco de lesão a uma pessoa — inclusive dentro de casa.
Em casos de ferimentos graves, as punições podem incluir multa, prisão de até cinco anos e proibição de possuir animais. A polícia pode apreender o cão, e os tribunais frequentemente determinam o abate em casos severos.
Além disso, cães classificados como pit bull-type estão sujeitos a regras mais restritivas no país.
Alerta e debate
Casos como o de Nogaroli reacendem o debate sobre segurança, comportamento animal e responsabilidade dos tutores.
Especialistas afirmam que ataques graves geralmente envolvem múltiplos fatores e que nem sempre há sinais prévios claros.
A jornalista decidiu tornar sua história pública como alerta. “Eu não enxerguei o perigo. E isso é o que mais me assusta”, conclui.


