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Mais pedras na coitada da Geni

Entenda a metodologia das pesquisas quando há diferenças gritantes de resultados

Emerson Cervi – Duas pesquisas eleitorais divulgadas praticamente ao mesmo tempo, realizadas em períodos semelhantes e sobre o mesmo eleitorado paranaense produziram retratos suficientemente diferentes para alimentar a velha desconfiança que acompanha as pesquisas em períodos eleitorais.

Em uma, Sandro Alex aparece em segundo lugar na disputa pelo Governo do Paraná. Na outra, está em terceiro. Em uma eventual simulação de segundo turno, uma pesquisa aponta Sandro vencendo Requião Filho; a outra indica justamente o contrário.

Para o Senado, a confusão aumenta. Em um levantamento, Deltan Dallagnol aparece isolado na liderança, com boa distância dos adversários. No outro, surge embolado com mais dois concorrentes na segunda posição — situação que, dependendo da margem de erro e da ordenação, permitiria uma leitura bem diferente da corrida.

Diante disso, a conclusão mais fácil — e também a mais perigosa — é decretar que alguém está mentindo.

E tome pedra na Geni.

Mas pesquisa eleitoral não funciona assim. Antes de condenar o mensageiro, é preciso olhar como a mensagem foi produzida.

Os levantamentos são dos institutos Alfa e Quaest. O primeiro é menos conhecido e tem menor tradição no mercado de pesquisas eleitorais. O segundo possui maior projeção nacional e experiência acumulada. Isso importa para avaliar histórico e credibilidade, mas, por si só, não determina se uma pesquisa está certa ou errada.

Há algo mais importante: metodologia.

Segundo as informações divulgadas e os documentos apresentados à Justiça Eleitoral, a pesquisa Alfa foi realizada por telefone, enquanto a Quaest utilizou entrevistas presenciais. E essa diferença está longe de ser apenas operacional.

No telefone, é muito mais fácil desligar, recusar ou simplesmente ignorar uma pesquisa. Quem aceita permanecer na linha respondendo perguntas sobre candidatos em pleno mês de agosto pode apresentar grau de interesse e engajamento político diferente daquele do conjunto do eleitorado.

E eleições não são decididas apenas pelos apaixonados, militantes ou eleitores que já escolheram seus candidatos. São decididas também — e muitas vezes principalmente — por aquele cidadão que ainda está pensando no preço do supermercado, no trânsito, no emprego e nas contas do mês. Para esse eleitor, eleição em agosto talvez ainda seja um assunto distante.

Há, portanto, uma hipótese metodológica razoável para parte das diferenças.

Mas existe outro detalhe particularmente interessante no Paraná.

Na pesquisa estimulada do instituto Alfa, aparece não apenas o nome do candidato ao governo, mas também o de seu candidato a vice. Na Quaest, segundo os questionários apresentados à Justiça Eleitoral, são informados o nome do candidato e seu partido.

Pode parecer detalhe.

Não é.

Quando o candidato é Sandro Alex e o vice é Rafael Greca, estamos falando de dois nomes com graus distintos de exposição pública. Greca foi prefeito de Curitiba e ministro. Seu nome possui peso eleitoral próprio, especialmente na capital e na Região Metropolitana.

Portanto, perguntar ao eleitor sobre Sandro Alex não é necessariamente a mesma coisa que perguntar sobre Sandro Alex e Rafael Greca.

Se outros candidatos têm vices muito menos conhecidos do eleitorado, a assimetria fica ainda mais evidente. Não significa automaticamente que exista irregularidade ou manipulação. Significa, simplesmente, que estamos diante de perguntas diferentes — e perguntas diferentes podem produzir respostas diferentes.

É aí que está uma possível explicação técnica para parte da distância entre os levantamentos.

No Senado, a questão merece análise separada. São duas escolhas por eleitor, existem diferentes formas de apresentação dos candidatos e a dinâmica da disputa é outra. O maior engajamento eventualmente capturado por entrevistas telefônicas também pode exercer influência, mas seria precipitado transformar essa hipótese em sentença antes da divulgação dos relatórios completos.

Até aqui, estamos falando de pesquisa.

Mas há uma questão política muito mais interessante escondida nesses números.

Se Sandro Alex realmente apresentar desempenho significativamente melhor quando Rafael Greca aparece ao seu lado na pergunta, sua campanha terá um problema que nenhuma margem de erro consegue resolver: quem está puxando quem?

Uma candidatura ao governo precisa construir liderança própria.

Vice pode agregar votos, ampliar alianças, complementar uma chapa e oferecer densidade política. Isso faz parte do jogo democrático. Outra coisa é o candidato depender do nome do vice para conseguir se apresentar eleitoralmente.

Se essa dependência existir — e novas pesquisas poderão confirmar ou desmentir essa hipótese — surge uma pergunta incômoda: com qual autoridade política Sandro Alex chegaria ao Palácio Iguaçu?

Governar exige mais do que vencer uma eleição. Exige liderança, legitimidade política e capacidade de comandar uma coalizão sabendo quem efetivamente ocupa a cadeira principal.

Um governador eleito sob a percepção pública de que chegou ao poder carregado pelo vice começaria o mandato convivendo com uma sombra dentro do próprio gabinete.

E sombras políticas crescem rapidamente quando surgem crises.

Por isso, se os próximos levantamentos continuarem mostrando grande diferença entre o desempenho de Sandro Alex sozinho e o da chapa apresentada com Rafael Greca, a campanha governista poderá enfrentar um paradoxo curioso.

Para Sandro Alex, talvez o maior problema não seja perder a eleição.

Pode ser ganhar e passar quatro anos tentando provar quem, afinal, foi eleito governador.

E quanto às pesquisas, antes de escolher qual delas merece as pedras, convém esperar os relatórios completos, comparar amostras, questionários, ponderações e métodos.

Porque pesquisa eleitoral já apanha de todos os lados: quando mostra o candidato na frente, é ciência; quando mostra atrás, vira fraude.

Coitada da Geni.

Como cantava Chico Buarque:

“Joga pedra na Geni.”

Na política, aparentemente, sempre haverá alguém disposto a encontrar uma Geni para chamar de sua.

Emerson Cervi é cientista político, especialista em pesquisa e professor

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