HomeDESTAQUEO Legislativo não pode mergulhar no mar da mediocridade política

O Legislativo não pode mergulhar no mar da mediocridade política

Alvaro Dias

Há algo profundamente preocupante na política brasileira: mudou a linguagem parlamentar — e, com ela, parece ter mudado também a própria compreensão do que significa representar o cidadão.
O debate sobre os grandes temas nacionais perdeu espaço. Em seu lugar, ganhou protagonismo uma espécie de prestação de contas paroquial: “levei recursos para este município”, “consegui uma obra para aquela cidade”, “destinei uma emenda para determinada comunidade”.
É evidente que levar recursos aos municípios é importante. O parlamentar deve lutar por investimentos para as regiões que representa. O problema surge quando essa passa a ser sua principal — ou única — demonstração de atuação.
O parlamentar não foi eleito para ser um caixeiro-viajante de verbas públicas.
Foi eleito para legislar, fiscalizar, representar a sociedade e participar da construção dos destinos do país.

O Legislativo deveria ser a grande arena nacional do debate democrático. Ali deveriam ser enfrentados, com coragem e profundidade, os problemas que comprometem o futuro da Nação: a qualidade da educação, a segurança pública, a saúde, a responsabilidade fiscal, a reforma do Estado, a eficiência da máquina pública, a desigualdade, a infraestrutura, a competitividade do país e a qualidade das instituições.
Mas esses temas exigem estudo, conhecimento, coragem e, muitas vezes, disposição para contrariar interesses poderosos.
É mais fácil anunciar uma obra do que defender uma reforma.

É mais fácil divulgar uma emenda do que fiscalizar rigorosamente bilhões de reais gastos pelo governo.
É mais fácil posar ao lado de uma máquina inaugurando uma estrada do que questionar por que aquela estrada demorou tantos anos para sair do papel.

Assim, pouco a pouco, a política de Estado foi sendo substituída pela política do anúncio.
E o mandato parlamentar, pela lógica da entrega.
O resultado é um Legislativo que corre o risco de mergulhar no mar da mediocridade política.
Não se trata de desqualificar os parlamentares individualmente. Há, certamente, muitos que trabalham com seriedade e honram seus mandatos. A crítica é ao modelo que vem se consolidando e que reduz a grandeza da representação popular à capacidade de distribuir benefícios localizados.

Um senador ou deputado deveria perguntar permanentemente: que país estamos construindo?
Deveria fiscalizar o governo com independência, inclusive quando se trata do governo que ajudou a eleger.
Deveria denunciar desperdícios, combater privilégios, propor reformas e defender o interesse público mesmo quando isso não rende fotografia, vídeo ou curtida nas redes sociais.
A fiscalização é uma das maiores responsabilidades do Parlamento. Não existe democracia saudável quando o Legislativo abandona sua função fiscalizadora e passa a atuar como extensão política do Executivo.
E há uma contradição ainda mais grave: enquanto muitos parlamentares disputam a autoria de benefícios e recursos, o próprio sistema político preserva privilégios que a sociedade já não aceita com naturalidade.
O cidadão comum enfrenta dificuldades, paga impostos elevados, trabalha cada vez mais e cobra eficiência. Ao mesmo tempo, observa um Estado caro, estruturas políticas excessivas e privilégios que parecem resistir a qualquer tentativa de mudança.

A verdadeira representação não consiste em levar algo para cada município. Consiste também em levar a voz do cidadão para dentro do Parlamento.

Representar é ter coragem de dizer não.

É enfrentar o abuso.
É questionar o poder.
É fiscalizar o governo.
É defender reformas que talvez produzam resultados somente anos depois.
É pensar nas próximas gerações, e não apenas na próxima eleição.
A democracia não pode ser reduzida a uma contabilidade de emendas parlamentares.
O Parlamento não é um balcão de negócios públicos.

É a instituição onde a Nação deve discutir seu futuro.
Quando o Legislativo deixa de formular grandes projetos, abandona o debate dos grandes problemas e se satisfaz com a distribuição de recursos, perde-se algo maior do que a qualidade do Parlamento: perde-se a própria política como instrumento de transformação da sociedade.

Precisamos resgatar a dignidade da função parlamentar.
Precisamos de menos caixeiros-viajantes de verbas e mais legisladores.
Menos marketing de mandato e mais ideias.
Menos submissão e mais independência.
Menos privilégios e mais responsabilidade.
Menos preocupação com a próxima eleição e mais compromisso com o futuro do Brasil.

Porque representar não é simplesmente levar recursos.
Representar é levar a voz do povo ao poder — e levar responsabilidade do poder à sociedade.
Esse é o Parlamento que a democracia exige

O Legislativo não pode mergulhar no mar da mediocridade política
Álvaro Dias

Há algo profundamente preocupante na política brasileira: mudou a linguagem parlamentar — e, com ela, parece ter mudado também a própria compreensão do que significa representar o cidadão.
O debate sobre os grandes temas nacionais perdeu espaço. Em seu lugar, ganhou protagonismo uma espécie de prestação de contas paroquial: “levei recursos para este município”, “consegui uma obra para aquela cidade”, “destinei uma emenda para determinada comunidade”.
É evidente que levar recursos aos municípios é importante. O parlamentar deve lutar por investimentos para as regiões que representa. O problema surge quando essa passa a ser sua principal — ou única — demonstração de atuação.
O parlamentar não foi eleito para ser um caixeiro-viajante de verbas públicas.
Foi eleito para legislar, fiscalizar, representar a sociedade e participar da construção dos destinos do país.

O Legislativo deveria ser a grande arena nacional do debate democrático. Ali deveriam ser enfrentados, com coragem e profundidade, os problemas que comprometem o futuro da Nação: a qualidade da educação, a segurança pública, a saúde, a responsabilidade fiscal, a reforma do Estado, a eficiência da máquina pública, a desigualdade, a infraestrutura, a competitividade do país e a qualidade das instituições.
Mas esses temas exigem estudo, conhecimento, coragem e, muitas vezes, disposição para contrariar interesses poderosos.
É mais fácil anunciar uma obra do que defender uma reforma.

É mais fácil divulgar uma emenda do que fiscalizar rigorosamente bilhões de reais gastos pelo governo.
É mais fácil posar ao lado de uma máquina inaugurando uma estrada do que questionar por que aquela estrada demorou tantos anos para sair do papel.

Assim, pouco a pouco, a política de Estado foi sendo substituída pela política do anúncio.
E o mandato parlamentar, pela lógica da entrega.
O resultado é um Legislativo que corre o risco de mergulhar no mar da mediocridade política.
Não se trata de desqualificar os parlamentares individualmente. Há, certamente, muitos que trabalham com seriedade e honram seus mandatos. A crítica é ao modelo que vem se consolidando e que reduz a grandeza da representação popular à capacidade de distribuir benefícios localizados.

Um senador ou deputado deveria perguntar permanentemente: que país estamos construindo?
Deveria fiscalizar o governo com independência, inclusive quando se trata do governo que ajudou a eleger.
Deveria denunciar desperdícios, combater privilégios, propor reformas e defender o interesse público mesmo quando isso não rende fotografia, vídeo ou curtida nas redes sociais.
A fiscalização é uma das maiores responsabilidades do Parlamento. Não existe democracia saudável quando o Legislativo abandona sua função fiscalizadora e passa a atuar como extensão política do Executivo.
E há uma contradição ainda mais grave: enquanto muitos parlamentares disputam a autoria de benefícios e recursos, o próprio sistema político preserva privilégios que a sociedade já não aceita com naturalidade.
O cidadão comum enfrenta dificuldades, paga impostos elevados, trabalha cada vez mais e cobra eficiência. Ao mesmo tempo, observa um Estado caro, estruturas políticas excessivas e privilégios que parecem resistir a qualquer tentativa de mudança.

A verdadeira representação não consiste em levar algo para cada município. Consiste também em levar a voz do cidadão para dentro do Parlamento.

Representar é ter coragem de dizer não.

É enfrentar o abuso.
É questionar o poder.
É fiscalizar o governo.
É defender reformas que talvez produzam resultados somente anos depois.
É pensar nas próximas gerações, e não apenas na próxima eleição.
A democracia não pode ser reduzida a uma contabilidade de emendas parlamentares.
O Parlamento não é um balcão de negócios públicos.

É a instituição onde a Nação deve discutir seu futuro.
Quando o Legislativo deixa de formular grandes projetos, abandona o debate dos grandes problemas e se satisfaz com a distribuição de recursos, perde-se algo maior do que a qualidade do Parlamento: perde-se a própria política como instrumento de transformação da sociedade.

Precisamos resgatar a dignidade da função parlamentar.
Precisamos de menos caixeiros-viajantes de verbas e mais legisladores.
Menos marketing de mandato e mais ideias.
Menos submissão e mais independência.
Menos privilégios e mais responsabilidade.
Menos preocupação com a próxima eleição e mais compromisso com o futuro do Brasil.

Porque representar não é simplesmente levar recursos.
Representar é levar a voz do povo ao poder — e levar responsabilidade do poder à sociedade.
Esse é o Parlamento que a democracia exige

Alvaro Dias, ex-governador e ex-senador

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