Com cartazes nos banheiros femininos, uma palavra-código e funcionários treinados, iniciativa mostra como criatividade e prevenção podem ajudar no enfrentamento ao assédio e à violência contra mulheres
Por Lorena Nogaroli
Londres, 7 de agosto de 2026 – Pode ser um primeiro encontro que deu errado. Um homem insistente que não aceita um “não”. Uma mulher que percebe que sua bebida pode ter sido adulterada. Ou simplesmente aquela sensação de que alguma coisa não está certa e é preciso sair dali sem despertar a atenção de quem está ao lado.
Em milhares de situações como essas, pedir ajuda abertamente nem sempre é fácil. No Reino Unido, uma iniciativa encontrou uma resposta surpreendentemente simples para o problema: perguntar por Angela.
O Ask for Angela é um sistema de proteção adotado por bares, pubs e outros estabelecimentos britânicos. A orientação aparece principalmente em cartazes colocados nos banheiros femininos: se alguém estiver se sentindo ameaçado, vulnerável ou desconfortável, basta procurar um funcionário e perguntar por “Angela”.
Angela não precisa existir. O nome é uma palavra-código para pedir ajuda discretamente.
Funcionários treinados entendem o significado e podem retirar a pessoa daquela situação, levá-la para um lugar seguro, ajudá-la a encontrar amigos ou um transporte, chamar a segurança do estabelecimento ou, quando necessário, acionar a polícia.
A iniciativa surgiu em Lincolnshire, na Inglaterra, e foi adotada pela Metropolitan Police de Londres em 2016. Na capital britânica, estabelecimentos participantes contam também com o treinamento WAVE — Welfare and Vulnerability Engagement, voltado a ensinar profissionais a reconhecer situações de vulnerabilidade e saber como intervir.
A campanha hoje pode ser utilizada por qualquer pessoa que se sinta insegura, independentemente de gênero. Mas sua origem está diretamente relacionada à prevenção da violência sexual e à segurança das mulheres.
Uma ideia barata diante de um problema gigantesco
A força do Ask for Angela está justamente na simplicidade.
Não exige um aplicativo sofisticado nem uma grande estrutura tecnológica. A comunicação pode começar com um cartaz colocado no lugar certo, uma palavra fácil de memorizar e uma equipe que saiba exatamente o que fazer quando ouvi-la.
O banheiro é estratégico porque pode oferecer à potencial vítima um raro momento de privacidade para ler a orientação sem a presença da pessoa que está causando o medo ou constrangimento.
Mas o baixo investimento não significa improvisação. O próprio programa enfatiza que o cartaz precisa fazer parte de um sistema: funcionários devem conhecer a senha e estar preparados para responder adequadamente.
É justamente essa combinação que transforma uma campanha de conscientização em um protocolo de segurança: comunicação, treinamento e ação.
Uma mulher ou menina é morta por alguém da própria família a cada 10 minutos
A simplicidade da iniciativa contrasta com a dimensão mundial do problema que tenta ajudar a prevenir.
Segundo estimativas divulgadas pela ONU Mulheres e pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), cerca de 83 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente no mundo em 2024. Aproximadamente 50 mil delas — 60% do total — foram assassinadas por parceiros íntimos ou outros integrantes da família.
São, em média, 137 mulheres e meninas mortas por dia por alguém próximo — aproximadamente uma a cada dez minutos.
A violência que antecede o feminicídio também permanece disseminada. A Organização Mundial da Saúde estima que quase uma em cada três mulheres no mundo — cerca de 840 milhões — já sofreu violência física ou sexual praticada por parceiro ou violência sexual cometida por outra pessoa ao longo da vida.
E o que acontece no Reino Unido?
Os números britânicos ajudam a dimensionar por que iniciativas preventivas ganharam espaço.
Na Inglaterra e no País de Gales, a pesquisa oficial de criminalidade estimou que cerca de 900 mil pessoas sofreram agressão sexual ou tentativa no período de 12 meses encerrado em março de 2025. Desse total, aproximadamente 739 mil eram mulheres.
Isso significa que 3% das mulheres com 16 anos ou mais foram vítimas de agressão sexual ou tentativa em apenas um ano.
Quando se observa a violência doméstica, o universo é ainda maior. Cerca de 3,8 milhões de pessoas sofreram algum tipo de abuso doméstico no mesmo período. Entre elas, aproximadamente 2,2 milhões eram mulheres.
Há ainda uma característica especialmente preocupante da violência letal contra mulheres. Dos 522 homicídios registrados na Inglaterra e no País de Gales no ano encerrado em março de 2025, 155 vítimas eram mulheres. Entre as mulheres adultas assassinadas, 40% foram mortas por parceiros ou ex-parceiros e 16% por outros familiares.
Dos 111 homicídios classificados como domésticos, 75 vítimas eram mulheres. Ou seja: mais de dois terços.
Ao mesmo tempo, é importante observar que o Reino Unido não vive uma escalada generalizada de homicídios. O total de homicídios registrado naquele período foi o menor desde 2015, e a taxa chegou ao nível mais baixo desde 1977. O que permanece extremamente elevado é a exposição das mulheres à violência doméstica e sexual e, sobretudo, a presença de parceiros, ex-parceiros e familiares nos crimes letais contra elas.
Do pub para uma política nacional
O Ask for Angela não funciona isoladamente. Nos últimos anos, o Reino Unido vem construindo uma estratégia mais ampla de enfrentamento à Violence Against Women and Girls (VAWG) — violência contra mulheres e meninas.
Em dezembro de 2025, o governo britânico lançou uma nova estratégia nacional com a ambição de reduzir pela metade a violência contra mulheres e meninas em uma década. O plano trabalha em três frentes principais: prevenção e enfrentamento das causas da violência; perseguição e responsabilização dos agressores; e ampliação do apoio às vítimas e sobreviventes.
A abordagem inclui ações envolvendo governo, polícia, Justiça, escolas, serviços públicos, empresas e organizações da sociedade civil. Há ainda iniciativas específicas contra stalking, abuso doméstico, violência sexual, violência facilitada pela tecnologia e o chamado spiking — quando drogas ou outras substâncias são colocadas clandestinamente na bebida de alguém.
A lógica é tratar a violência não apenas depois que o crime acontece, mas criar mecanismos para identificar situações de risco e interromper uma possível escalada.
É exatamente nesse ponto que uma pequena placa dentro do banheiro de um pub ganha outra dimensão.
Quando comunicação vira proteção
O Ask for Angela chama atenção porque desafia uma ideia comum: a de que enfrentar grandes problemas sociais exige necessariamente campanhas caras ou soluções tecnologicamente complexas.
Neste caso, a inovação está muito mais na compreensão do comportamento humano. Uma pessoa ameaçada pode não conseguir gritar. Pode não conseguir telefonar para a polícia. Pode estar sendo observada. Pode não ter certeza se aquilo que está acontecendo é suficientemente grave para pedir socorro.
Mas talvez consiga caminhar até o balcão e fazer uma pergunta aparentemente banal: “A Angela está trabalhando hoje?”
Para quem está ao lado, é apenas uma pergunta. Para quem foi treinado para ouvi-la, pode ser um pedido de socorro.
E, em determinadas circunstâncias, algumas palavras podem ser suficientes para interromper uma situação de violência antes que ela se transforme em algo muito mais grave.



