Em política, no Paraná, é possível ver vacas voando. O improvável costuma acontecer quando menos se espera e, muitas vezes, quando todos juram que não vai acontecer. Sergio Moro e Ratinho Junior podem se unir – um para o governo do Paraná e outro à Presidência da República?
É sob esse céu estranho, onde alianças se desfazem da noite para o dia e promessas mudam de rumo com a mesma facilidade, que vemos a política paranaense.
Embora tenha afirmado, inclusive no final de ano, que não há como fazer um acordo com Sergio Moro, devido aos antecedentes no Estado, o governador Ratinho Junior passa a pensar, a partir de agora, em um projeto maior e isso pode incluir o lavajatismo. Sinal de ruptura na base política do PSD paranaense.

A Moro, que esteve no Palácio Iguaçu, Ratinho disse que tem um grupo político e lembrou que o senador fez oposição ao PSD em Curitiba e em outras cidades importantes nas eleições municipais de 2024 por escolha e que agora não havia como o grupo político apoiar a tentativa dele de chegar ao Palácio Iguaçu.
Sem apontar o dedo, Ratinho Junior deixou claro uma mágoa específica. Em 2024, o União Brasil queria apoiar a candidatura de Eduardo Pimentel (PSD) para a Prefeitura de Curitiba (PR), mas foi o senador quem vetou a possibilidade. Eduardo Pimentel era o candidato do governador. Moro decidiu lançar Ney Leprevost ao comando da capital do Paraná e a esposa do senador, Rosangela Moro, como vice. A chapa ficou em quarto lugar na disputa.
Mas fica a pergunta: poderá haver um acordo, já que já vimos, por diversas vezes, vacas voando em céus paranaense?
A sucessão política no Paraná virou um teste de nervos — e de caráter político. O governador Ratinho Júnior chega à reta final de seu segundo mandato em posição confortável nas pesquisas, mas cercado por um dilema clássico de quem flerta com o poder nacional: ou assume o protagonismo, ou será engolido pela própria cautela. Até agora, escolheu o caminho mais fácil — o da espera calculada —, ainda que esse caminho comece a cheirar mais a medo de errar do que a estratégia refinada.
No Paraná, Ratinho governa como quem segura um copo cheio demais: qualquer inclinação brusca derrama. Evita apontar sucessor, alimenta esperanças múltiplas e mantém todos os aliados em banho-maria. Não por generosidade, mas por conveniência. A indecisão virou ferramenta de controle. O problema é que esse tipo de jogo raramente termina sem baixas. Quanto mais o governador posterga uma definição clara, mais estimula disputas subterrâneas, movimentos oportunistas e traições silenciosas — a especialidade da política quando falta comando.
No plano nacional, a direita brasileira vive um momento constrangedor. Sem Bolsonaro no páreo, sobrou barulho e faltou liderança. O eleitor conservador cansou do grito, do conflito permanente e da política feita para redes sociais. Quer alguém que governe. Quer resultados. Quer normalidade. Ratinho Júnior poderia ocupar esse espaço. Poderia — se tivesse decidido, de fato, jogar esse jogo.
Mas até aqui, o governador prefere o papel confortável do “talvez”. Talvez seja candidato. Talvez não. Talvez se o partido quiser. Talvez se o cenário ajudar. Esse excesso de condicionantes não é prudência; é hesitação. Política nacional não se constrói com frases evasivas nem com cálculo excessivo. Enquanto Ratinho mede riscos, outros nomes ocupam espaço, erram, acertam e, principalmente, aparecem.
Some-se a isso o fator PSD — um partido que não tem ideologia, tem direção de vento. A legenda não constrói projetos de país; constrói pontes com o poder. Hoje com um, amanhã com outro. Ratinho pode até ser o rosto palatável da direita moderada, mas também corre o risco de virar apenas uma ficha de negociação, usada para valorizar alianças e depois descartada sem cerimônia.
A verdade incômoda é que Ratinho Júnior ainda não decidiu se quer ser protagonista ou produto. Governador bem avaliado ele já é. Presidenciável, ainda não. Falta densidade nacional, falta discurso político mais claro e, sobretudo, falta disposição para assumir conflitos. Quem quer governar o Brasil precisa sair da sombra, abandonar o discurso morno da “boa gestão” e enfrentar o debate duro, polarizado e inevitável.
Se continuar apostando apenas no tempo, Ratinho pode chegar a 2026 como tantos outros: forte no próprio quintal, irrelevante no resto do país. A política não costuma perdoar quem confunde silêncio com liderança. O relógio está andando. E, para quem sonha com o Planalto, esperar demais também é uma forma de desistir.


