Gostamos de repetir que o Brasil não é para amadores.
Por Gaudêncio Penaforte especial ao PRNotícias
O Paraguai, pelo visto, resolveu disputar o título. Nenhum país despacha um presidente com a presteza paraguaia. Fernando Lugo descobriu isso em junho de 2012, num processo que mal passou de um dia. Santiago Peña acaba de redescobri-lo, em versão ainda mais cinematográfica. Peña cultivou com esmero o figurino de líder de nova geração: diploma americano, inglês fluente, verniz modernizador e passe livre nos salões conservadores do hemisfério norte.
A boa pinta e a afinidade declarada com Donald Trump completavam o pacote, vendido como amostra de uma nova direita latino americana, comportada na aparência e afiada no discurso. Caiu nas graças da Casa Branca. A política, porém, tem senso de humor: Peña foi derrubado na mesma semana, quase na mesma
hora, em que seu padrinho levava uma surra nas urnas americanas.
Ponham-se no lugar dos bolsonaristas. Em menos de duas semanas, três pancadas. Primeiro, a remontada de Lula no segundo turno de 25 de outubro, coroada por uma vitória acachapante. Depois, na terça-feira (3), as eleições de meio de mandato que tiraram dos republicanos o controle das duas casas do Congresso e converteram Trump no clássico pato manco. Com isso, evapora-se o guarda-chuva que os filhos de
Bolsonaro imaginavam ter, por tempo indeterminado, em Washington. Por fim, sem intervalo para respirar, a queda de Peña, o vizinho que servia de vitrine regional para essa aposta.
Roteirista nenhum de Hollywood ousaria tanto.
O Paraguai, aliás, tem o escritor à altura do enredo. Em Yo, el Supremo, publicado em 1974, Augusto Roa Bastos recria José Gaspar Rodríguez de Francia, o ditador perpétuo que governou o país de 1814 a 1840. É um romance monumental sobre a obsessão pelo poder absoluto e sobre o governante que, de tanto se julgar acima das instituições, acaba confundindo o Estado com a própria pessoa. Peña talvez tenha lido só o título. E acreditou nele. Mas a política, como a boa literatura, reserva ao último capítulo uma reviravolta, e esta não foi escrita no
Palácio de López.
Tudo começou com o colapso do Ueno Bank, banco jovem e de ascensão fulminante que chegou a reunir cerca de três milhões de clientes, praticamente metade da população adulta do país. Diante de problemas graves de solvência, o Banco Central interveio. Milhões de correntistas ficaram sem acesso ao próprio dinheiro, pagamentos foram suspensos e o sistema financeiro entrou em parafuso. Aposentados, servidores,
pequenos poupadores e empresas passaram a cobrar explicações. Em poucos dias, a crise bancária virou crise social e, logo depois, crise de governo.
O que tornou o caso explosivo foram os laços entre o banco e o poder. Peña fora acionista do grupo controlador do Ueno e só se desfez da participação em 2025, quando o conflito de interesses já era evidente demais para ser ignorado. O presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, passara pela direção de uma empresa do mesmo conglomerado antes de assumir a autoridade monetária; renunciou às pressas logo após a intervenção. Vieram à tona suspeitas de empréstimos a empresas ligadas aos controladores, de concentração de depósitos públicos e de exposição de fundos previdenciários.
A pergunta da oposição era simples e devastadora: afinal, quem fiscalizava quem? Quando fiscal e fiscalizado sentam à mesma mesa, a conta sempre chega ao depositante. Daí em diante, o rito constitucional paraguaio funcionou como um cronômetro. Na quinta-feira (5), a Câmara aprovou por unanimidade a abertura do juízo político. Peña ainda tentou sair pela porta dos fundos e apresentou a renúncia. Não colou.
Na sexta-feira (6), o Senado ignorou a carta, julgou a acusação e destituiu o presidente por 44 votos a zero. Pedro Alliana, até então vice, prestou juramento logo em seguida. Destituído, Peña perdeu a imunidade e, de quebra, a cadeira de senador vitalício que a Constituição reserva aos ex-presidentes, salvo aos que saem por juízo político. O Ministério Público ordenou sua detenção, e a Polícia Nacional foi buscá-lo em
casa. A prisão domiciliar durou poucas horas.
Na mesma noite, manifestantes romperam o cordão policial diante da residência, exigindo cadeia de verdade, e as pedras começaram a voar. Perto da meia-noite, Peña foi retirado às pressas e levado ao Regimiento Escolta Presidencial, a unidade do Exército encarregada de proteger o chefe de Estado.
Ironia paraguaia: a tropa que até a véspera lhe batia continência passou a guardá-lo como detido. Da renúncia frustrada à prisão, menos de 48 horas. O Paraguai não faz suspense institucional: pula direto para o desfecho.
Velocidade, claro, não é sinônimo de justiça. Um rito tão sumário deixa perguntas legítimas sobre o direito de defesa e a solidez das acusações, e a unanimidade do Senado não converte suspeita em prova. Juízo político é julgamento político, nada além disso.
Peña nega irregularidades, e caberá à Justiça apurar responsabilidades individuais. O fato político,
contudo, está consumado: um presidente eleito para governar até 2028 terminou a semana detido numa unidade do Exército, no meio de uma quebradeira que alcançou metade do país.
Alliana assumiu prometendo ressarcir os correntistas. Promessa fácil de fazer e difícil de cumprir. Terá de reconstruir a confiança no sistema financeiro, rastrear o destino do dinheiro público e impedir que aposentados e pequenos poupadores paguem pela maior fraude bancária da história paraguaia.
O Brasil não pode assistir a isso da arquibancada. Entre as aplicações sob suspeita estão recursos da Cajubi, a caixa de aposentadorias e pensões dos empregados paraguaios de Itaipu. Itaipu é um condomínio de dois países, e o que atinge a previdência de quem trabalha na margem direita não é assunto doméstico do vizinho. Brasília tem o direito, e o dever, de cobrar transparência sobre a extensão das perdas e sobre
quem decidiu pôr ali o dinheiro dos trabalhadores.
Enquanto a direita regional contabiliza baixas, Lula arruma as malas. Na próxima semana, faz a primeira viagem
internacional depois da reeleição. Em Antália, na Turquia, participa da cúpula de líderes da COP31 e entrega aos
anfitriões a presidência da conferência do clima que o Brasil exerce desde Belém. Dali segue para as Filipinas, com visita de Estado no dia 13 e, na sequência, a cúpula da Asean, em Manila, à qual é convidado pelo segundo ano seguido.
O roteiro diz muito. Um presidente recém-reconduzido pelas urnas leva ao debate climático e a um bloco de onze países e quase 700 milhões de habitantes a única credencial que padrinho estrangeiro nenhum pode emprestar: um mandato renovado em casa. Com Washington encolhida pela paralisia de um presidente manco, o Brasil chega às mesas multilaterais com voz própria e legitimidade de sobra. Vista de fora, a reeleição
de Lula pesa mais do que parecia na noite da apuração. É o principal ativo diplomático do país para os próximos quatro anos.
Quem quiser medir o tamanho do estrago no campo adversário pode ler a entrevista que Flávio Bolsonaro, o candidato derrotado, concedeu à Folha em Miami, para onde seguiu logo depois do segundo turno. Ali, o senador afirma que o pai errou ao voltar do autoexílio na Flórida, para onde partiu ao deixar a
Presidência, inconformado com uma derrota que nunca reconheceu. Tal pai, tal filho: Flávio tampouco reconhece a sua.
Na mesma entrevista, acena com uma candidatura em 2030, repete as velhas suspeitas sobre as urnas eletrônicas e admite, com franqueza desconcertante, que não tem provas nem perspectiva de tê-las. Fica fácil entender por que Tarcísio de Freitas terá dificuldade para unificar a direita. A família não parece disposta a entregar a chave do condomínio que construiu, por mais candidatos a síndico que se apresentem.
Do Paraguai, porém, fica uma lição que vai além da queda de um presidente ou da rapidez de um impeachment. Quando se apagam as fronteiras entre poder político, interesses privados e órgãos de fiscalização, o dinheiro do correntista some, a confiança pública desaba e o sistema político inteiro é chamado a pagar a fatura.
Roa Bastos levou anos para erguer seu Supremo. Santiago Peña precisou de menos de dois dias para descobrir que não era um.
A literatura fica. O poder passa.
Gaudêncio Penaforte ·


