O Paraná Portal republica entrevista feita pela jornalista Jiane Carvalho, do Além Capital, com o diretor da 4UM, Leonardo Deeke Boguszewski.
Gestora originada no Paraná Banco, controlado pela família Malucelli, a 4UM, sete anos após adquirir marca e personalidade jurídica própria (2019), chega à marca de quase R$ 9 bilhões sob gestão. A casa nasceu focada na renda variável e tem dois fundos de ações dos mais longevos da indústria – focados em grandes companhias pagadoras de dividendos e small caps. Acompanhando a demanda dos clientes, boa parte institucionais, foi diversificando sua atuação. Criou fundos de renda fixa, uma wealth management e uma área de infraestrutura, que já saiu vencedora de dois leilões de rodovias. O movimento mais recente, conta Leonardo Deeke Boguszewski, CEO da 4UM, foi a criação de uma área voltada à originação de crédito estruturado. “A gente criou, em janeiro deste ano, a 4UM Capital, para atuar com FIDCs. Percebemos, nesse mundo de wealth, que tinha muita demanda dos empresários, das famílias que a gente apoia na gestão de patrimônio, por captação de recursos. Já estamos com dois FIDCs rodando”, comenta o CEO. Na entrevista ao Além do Capital, Boguszewski contou sobre a origem da 4UM e o foco, que permanece core da casa, em renda variável. Acompanhe:
4UM, Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC, Capital Aberto
Dos diferentes produtos e serviços da 4UM Investimentos, qual é o core da casa? Isto mudou ao longo do tempo?
A 4UM é uma gestora, na sua origem, focada em renda variável. A gente tem um histórico de muitas décadas, antes da marca 4UM. A gestora se confunde com minha história pessoal. Eu comecei como estagiário na companhia, em 2007, uma gestora pequena vinculada ao Paraná Banco (Paraná Asset), controlado pela família Malucelli. Anos depois, foi nomeada J. Malucelli Investimentos. E só em 2019, adquirimos identidade própria como 4UM, desvinculada do restante do grupo. E desde o começo, ainda no Paraná Banco, o foco foi a renda variável. Era um momento (2007) que o mercado de ações prometia muito e mesmo com a crise de 2008 (subprime americana) seguimos com a estratégia. Temos, desde aquela época, um fundo focado em empresas maduras, pagadoras de bons dividendos, e outro focado em small caps. São fundos com quase 17 anos. Fomos diversificando ao longo do tempo, mas o foco é ser uma gestora de renda variável, no longo prazo e com análise fundamentalista de ativos.
4UM, Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC, Capital Aberto
Como foi o processo de, ao longo do tempo, criar outras verticais de negócios e
produtos na 4UM?
O que ocorreu em paralelo foi que a gente, à medida que foi performando e crescendo, foi tendo uma demanda dos clientes por outros produtos, principalmente os institucionais. Percebemos que, para este público, era importante ter exposição em renda fixa e queriam manter o relacionamento conosco. Começamos a montar fundos de renda fixa. Temos um com estratégia de inflação, outro de crédito privado, e assim fomos diversificando. A renda fixa, mesmo não sendo o core original e não sendo o principal driver de resultado, enquanto negócio, é uma variável importante para o nosso relacionamento com os clientes. Além dos fundos que citei, fazemos gestão de carteira administrada para clientes institucionais, seguradoras e fundos de pensão. Atendemos também as entidades fechadas de previdência (RPPS), que não podem ter carteira administrada, com outros serviços. É nossa segunda vertical, a de Soluções para Institucionais.
4UM, Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC, Capital Aberto
Entre investidor pessoa física e institucional, qual o mais relevante para a casa
hoje e quem tende a ganhar espaço?
O mais relevante em termos de recursos que administramos é o institucional. Dos quase R$ 9 bi sob gestão, temos, aproximadamente entre R$ 6 bi e R$ 7 bi com os institucionais. O restante vem da pessoa física. Como potencial de crescimento, é difícil priorizar um em detrimento do outro. Ambos têm sua relevância. Mas o que joga a favor do público institucional é o perfil de longo prazo. O investimento em ações deve ser parte indispensável de um portfólio. Sabemos, nesses últimos anos, que convivemos com taxas de juros reais que, às vezes, dão a falsa sensação de que a renda fixa sozinha basta. Há alguns anos, quando o CDI foi a 2%, ficou difícil para os institucionais, que não se sofisticaram o suficiente para tomar risco, performar naquele ambiente. Por outro lado, mesmo com Selic elevada (15% ao ano), tem muito institucional que continua exposto à renda variável. A 4UM mesmo assim consegue crescer, ao contrário da indústria de renda variável. Nosso net de captações é positivo.
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Qual a estratégia de distribuição dos produtos da 4UM para os diferentes públicos?
Não atendemos o varejo diretamente, apenas por meio dos distribuidores, como XP, BTG etc., mas não é tão relevante em termos de dinheiro. Além dos institucionais, temos uma terceira vertical para clientes de alta renda, que é nossa Wealth Management, atendida diretamente pelo nosso time. Antes, prestávamos quase que informalmente um serviço de wealth para a família Malucelli na gestão de patrimônio dos sócios. Em 2017, a gente entendeu que a qualidade do que estava sendo feito merecia ser oferecido a outras famílias. Felizmente, tem dado certo. Hoje, temos 25 famílias com patrimônio sob a nossa responsabilidade. E o total discricionário que está na nossa carteira é de um pouco mais de R$ 2 bilhões. Estamos bem felizes. É uma vertical em que nunca gastamos um centavo de mídia, mas tem conseguido no boca a boca ganhar clientes e cruzando fronteiras. Tem uma família de São Paulo e três de Santa Catarina, o restante é do Paraná.
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O crescimento da 4UM, até os atuais R$ 9 bi, foi linear ou teve algum fator que
acelerou o desempenho?
Não teve nenhum momento atípico em nossa história. Ele é um crescimento linear, de certa forma. Alguns anos crescemos menos, como 2023, e em outros mais, como de 24 para 25. Sem nenhum ano com um salto muito anômalo em comparação aos demais. O que é bom. Na indústria, a gente percebe, especialmente naqueles gestores que dependem de distribuidores para crescer, que ficam muito vulneráveis. Dinheiro vem rápido, mas vai embora rapidamente também. Temos uma boa performance. O fato de a gente não ter tido um ponto específico de crescimento, mas ter sido uma bola de neve que ano a ano tem crescido, é um ponto positivo. Nos dá a segurança de que o dinheiro que está aqui mira o longo. Temos hoje mais de 130 clientes institucionais, um dinheiro bem pulverizado.
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A 4UM tem investido em concessões de rodovias, em seu braço de private equity.
Por que a escolha do modal rodoviário para esta alocação?
É uma área relativamente nova na casa e não consta nem mesmo do site. Vamos incluir na nova versão que está saindo do forno. Eu sempre elenco quatro verticais, falamos de três, renda variável, soluções para institucionais e wealth. A quarta é a de infraestrutura, que criamos em 2024 e ganhamos nosso primeiro leilão, da BR-381, em Minas Gerais. Em fevereiro do ano passado, levamos também a BR 364, em Rondônia. Projetos de infra têm tudo a ver com a nossa cabeça de longo prazo. A escolha de rodovias foi porque, em 2024, vimos sendo elaborados projetos para um grande ciclo de investimentos de concessões rodoviárias. Eles vieram a mercado nos últimos dois anos e tem outros para serem concedidos. Nós captamos R$ 800 milhões com algumas famílias específicas que conhecem o setor e ganhamos esses dois projetos. Nosso parceiro estratégico de longo prazo é o Opportunity. Temos um terceiro projeto, em infraestrutura social, que são PPPs em educação, saúde, para construção de hospitais etc. Participamos de dois leilões, um foi São Paulo, e perdemos, e outro em Caxias (RS) e ganhamos. São dois fundos, um para rodovias e outro para as PPPs. No caso da infraestrutura social atuamos com Perfin e JOPE.
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No universo das assets, tem ocorrido alguma consolidação, com casas se fundindo ou
sendo vendidas. Crescimento inorgânico interessa?
Até aqui, crescemos sem aquisição. Somos fruto das sementes que plantamos organicamente e não temos em perspectiva qualquer oportunidade inorgânica. A gente acredita muito nas pessoas que aqui estão. Uma das razões de movimentos inorgânicos, muitas vezes, é a necessidade de absorver boas equipes, gestores. Ou mesmo o passivo de alguns grupos de classes que você ainda não está exposto. A 4UM faz o que entende que tem DNA para fazer e eu, particularmente, não enxergo, nesse momento, necessidade de buscar fora recursos que a gente, porventura, pudesse não ter aqui dentro.
4UM, Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC, Capital Aberto
E em termos de produto, a grade está completa ou vocês pensam em incluir novas
classes de ativos?
Criamos, em janeiro deste ano, a 4UM Capital, para atuar com FIDCs. Percebemos, nesse mundo de wealth, que tinha muita demanda dos empresários, das famílias que apoiamos na gestão de patrimônio, por captação de recursos, estruturação de dívida etc. Foi o que gerou interesse em criarmos a 4UM Capital, algo super recente, um business para focar na originação de funding para empresas. Já estamos com dois FIDCs rodando, com valores ainda pequenos. O papel da 4UM Capital é a estruturação das soluções. As oportunidades que estão vindo por meio dela são sempre focadas nas famílias empresárias. O risco é sempre a empresa atendida, o cliente deles. Temos muito receio de ter um produto aqui para tomar o risco de crédito multissacado, por exemplo. Estamos no início do processo e somos muito cautelosos para ter soluções com risco controlado.
4UM, Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC, Capital Aberto
A casa começou 2026 com quase R$ 9 bi sob gestão, quais os planos de crescimento
para este ano?
Eu não gosto de colocar um número no crescimento porque estamos muito longe de onde poderíamos estar. É mais fácil eu responder à pergunta dos próximos seis anos, que é estar entre as maiores gestoras de renda variável no Brasil. Só em RV, somando fundos abertos e fechados, estamos com algo entre R$ 1,5 bi e R$ 2 bi. A gente quer muito crescer essa classe. É a nossa ambição principal como negócio e é onde eu acredito que os nossos próximos seis anos nos levarão. Objetivo é conseguir cada vez mais performar nessa vertical. Somos bons em gestão de renda variável. Hoje, menos de 10% dos fundos que estão vivos têm quase 17 anos, como é o nosso caso. A imensa maioria nasceu depois. A mortalidade é muito alta. A maioria dos fundos que não performa simplesmente some das estatísticas, porque encerra a atividade. O fato de os nossos fundos estarem vivos é bem relevante. A fidelidade ao mandato, genuinamente de longo prazo, e um baixo turnover, são importantes. Nossa carteira do fundo de small caps, em 17 anos, investiu apenas em 35 empresas. A 4UM sempre foi uma gestora que preferiu ter exposição a menos nomes, um pouquinho mais concentrada, por acreditar que não existem infinitas boas ideias por aí. Tanto é que a gente tem conseguido captar dinheiro nesses últimos anos e a indústria está perdendo.
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Mesmo em um bom momento da bolsa, o investidor hesita em voltar para os fundos de
ações. Por que, na sua visão, isto ocorre?
O mercado financeiro, ou a gestão de investimentos, é muito mais psicologia do que matemática. A parte de cálculo, muita gente é capaz de fazer. Agora, você está diante de um terminal da Bloomberg num dia que o mercado está caindo 10% e manter a cabeça fria é difícil. Mais do que isto, ver caindo e ficar feliz. A gente aqui é sorriso, é literal, porque sabe que aqueles ativos são bons. Ali é uma oportunidade de você estar num shopping e ter uma promoção te permitindo comprar aquilo que você deseja pagando R$10 a menos. Não somos refém dos preços, mas sabemos usá-los a nosso favor. O Warren Buffett sempre enfatizou como, para ele, foi importante ter a Berkshire em Omaha e não em Nova York. Ele sempre citou a relevância de estar fora do buchicho. Estamos fora da Faria Lima, o que nos exige muita ponte aérea, mas fora isto, eu só vejo a parte boa. A gente consegue se blindar desses ruídos.
4UM, Da renda variável à infraestrutura, 4UM chega a R$ 9 bi sob gestão e cria área para FIDC, Capital Aberto
Você falou que está distante do que quer, em renda variável. Qual o plano ou a meta
de crescimento?
Eu vou tentar responder de uma forma minimamente correta e fiel. Hoje, o nosso principal público é o institucional. Ponto. O público institucional tem, no mínimo, quatro vezes menos disposição a bolsa do que ele poderia ter. Ou seja, a gente deveria ajudá-los a crescer pelo menos quatro vezes a exposição a ações. Se a gente define um crescimento próprio, tem duas formas de chegar lá. Uma, é a que descrevi, o nosso cliente aumentando a sua exposição. Ou seja, dá para atender exatamente as mesmas carteiras e ter quatro vezes mais dinheiro (na 4UM). Essa é uma forma. A outra, é captar mais clientes, um caminho que está um pouco mais no nosso domínio. Colocando em miúdos, evidentemente que trabalhamos muito, nos esforçamos para conseguir ajudar os clientes institucionais a enxergar o perfil de longo prazo do investimento em ações. Mas a gente reconhece que não está no controle. Por isto não gosto de dar números, expectativa.


