Sistema FAEP reforça pautas emergenciais que o campo precisa ver atendidas para continuar desenvolvendo a economia nos âmbitos estadual e nacional
Outubro é um mês decisivo para o futuro do setor agropecuário do Paraná e do Brasil. Isso porque os eleitores decidem quem vai governar o Estado e o país a partir de janeiro de 2027. Neste contexto, o campo tem urgência por soluções para problemas recorrentes no meio rural como juros altos, endividamento crescente, falta de seguro rural, prejuízos causados pelos eventos climáticos extremos e uma infraestrutura que não acompanha a produção.
Por isso, nos últimos meses, o Sistema FAEP documentou essas reivindicações e as entregou aos futuros governantes. O Plano Diretor do Agronegócio Paranaense 2027/30, com mais de 360 propostas construídas com a participação dos 163 sindicatos rurais, foi entregue a candidatos ao governo do Paraná. No âmbito nacional, a entidade desenvolveu o documento “Propostas ao Candidato a Presidente da República 2026”, com 15 prioridades técnicas e pautas jurídicas em sete áreas. O material chegou às mãos do candidato Ronaldo Caiado em visita à sede da entidade, em Curitiba, no dia 15 de julho.
“Quem assumir em janeiro vai encontrar um setor que produz, gera emprego e sustenta a economia dos municípios, Estados e do país. Porém, hoje o agro enfrenta dívida sem saída, risco sem proteção e infraestrutura precária. Esse cenário precisa mudar urgentemente, por meio de políticas públicas eficientes e de acordo com a realidade do campo”, afirma o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “Entregamos propostas construídas por quem vive essa realidade todos os dias. Agora é preciso que saiam do papel. A partir de janeiro vamos cobrar os novos governantes.”
Dentre as centenas de propostas, nos âmbitos estadual e federal, algumas são prioritárias, por conta da situação preocupante no meio rural. “Esses documentos são um retrato fiel do que o setor agropecuário paranaense e nacional precisa para os próximos anos”, afirma Meneguette.
Segurança rural: um reforço necessário
Apesar do trabalho da Patrulha Rural Comunitária 4.0, da Polícia Militar (PM), com resultados como a recuperação de gado roubado e de veículos furtados, o cadastro de propriedades e a queda nos índices de criminalidade no campo, são necessárias mais ações para reprimir a atuação de criminosos no campo.
O Sistema FAEP pede que vire lei a instituição da Patrulha Rural nos batalhõesda corporação, com maisefetivo e internet via satélite nas viaturas. A entidade também propõe que sejam integrados ao projeto Patrulha Rural Comunitária tanto o Batalhão de Polícia Rodoviária (na orientação e educação para o trânsito de máquinas agrícolas em rodovias) quanto o Corpo de Bombeiros, na prevenção e no combate a incêndios nas áreas rurais.
“O trabalho da Patrulha Rural é essencial para manter a segurança no meio rural do Paraná, e as estatísticas comprovam. Por isso, ela precisa deixar de ser um programa e virar lei, com mais efetivo e investimento, a começar pela conectividade”, comenta o presidente do Sistema FAEP. A entidade aponta ainda a necessidade de criação de delegacias regionais especializadas em crimes na zona rural e conselhos de segurança nos municípios que ainda não têm.
Energia: luz não chega e conta sobe
Os eventos climáticos extremos dos últimos meses deixaram centenas de milhares de unidades consumidoras sem energia no Paraná, segundo a própria Copel. Em diversos municípios, produtores ficaram no escuro e perderam a produção de leite por falta de refrigeração, enquanto outros tiveram que usar geradores para garantir a alimentação dos animais. A pecuarista Simone de Paula, de Rondon, passou quase cinco dias sem luz. Já o piscicultor Claus Lemmertz, de Marechal Cândido Rondon, precisou ligar dois geradores para oxigenar os tanques, um gasto adicional de R$ 7,8 mil por dia em diesel.
Mesmo assim, em junho, a tarifa da Copel subiu 20,51%, autorizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), acima da inflação de 2025, de 4,26%. No mesmo ano, a companhia lucrou R$ 2,66 bilhões. Por conta deste cenário caótico, o Sistema FAEP levou o problema a audiências públicas da Aneel e do Senado e, em julho, acionou o Ministério Público do Paraná e o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU).
“Essa situação de inoperância e descaso se arrasta há muito tempo. É inadmissível a falta de ações efetivas por parte da Copel”, afirma Meneguette. Em cadeias como piscicultura, avicultura, suinocultura e pecuária de leite, lembra o dirigente, poucas horas sem energia já significam morte de animais, perda de produção e prejuízos financeiros para o produtor.
Por isso, o Plano Diretor aponta a necessidade de um Plano Estadual de Modernização da Infraestrutura Elétrica Rural e mais recursos para o Programa Paraná Energia Rural Renovável (RenovaPR), que apoia a geração distribuída de energia a partir de fontes renováveis, inclusive com armazenamento. A entidade também pede um convênio entre Aneel e Agência Reguladora do Paraná (Agepar) para descentralizar a fiscalização, além de um planejamento energético regional.
Estradas rurais: o primeiro elo da logística
É pela estrada rural que sai quase tudo o que o Paraná produz. Porém, a situação precária hoje encarece o chamado “Custo Brasil”, fazendo com que o custo de produção aumente para o produtor e o alimento chegue mais caro à população. De acordo com estudo do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (ESALQ-LOG), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), em parceria com a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), as deficiências das estradas vicinais custam ao país R$ 6,4 bilhões por ano em despesas operacionais extras.
O Paraná tem uma malha de 170 mil quilômetros de estradas vicinais — a quarta maior do país —, dos quais 16,9 mil quilômetros são terciários (9,94% da extensão total). Pela relevância produtiva, 23 das 39 microrregiões do Estado estão entre as prioritárias para investimento nessas vias. Ainda, a região de Guarapuava, com cinco grupos de alta produção, lidera o ranking estadual e está entre as dez primeiras do país, segundo o economista e doutor em Economia Aplicada pela ESALQ/USP Everton Lima Costa, que integrou a equipe do estudo.
Atualmente, diversos gargalos oneram e dificultam o escoamento da produção: drenagem deficiente, falta de cascalhamento, estradas com capacidade limitada, pontes de madeira sem manutenção e prefeituras sem equipamentos suficientes. “O apoio aos municípios pode ser intensificado para que isso seja um problema menor na vida das comunidades rurais”, defende o pesquisador.
No total, o estudo estima que adequar a malha vicinal prioritária do Estado (terciárias e não classificadas) em situação precária custaria R$ 1,9 bilhão por ano. “As estradas vicinais são os meios principais de deslocamento da produção, mas, também, têm relevância social do ponto de vista do bem-estar das comunidades que moram no campo, da acessibilidade e da garantia de direitos como o acesso à educação e à saúde”, destaca Costa.
Diante desse cenário, o Sistema FAEP propõe ao próximo governo um Programa Estadual Permanente de Estradas Rurais, com recursos contínuos e critérios técnicos de priorização, além de um fundo de apoio aos municípios, a modernização das pontes rurais e planos municipais de logística rural.
Plano Safra: o agro precisa de previsibilidade
“O crédito é o combustível para sair a safra”, diz Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da FGV (FGV Agro). Mas, segundo o especialista, sem gestão de risco (seguro rural, proteção de preços, zoneamento agrícola), o produtor fica exposto a perdas que se transformam em dívida. Os números ajudam a dimensionar o problema: a safra 2025/26 encerrou, em junho, com R$ 344,9 bilhões efetivamentedesembolsados emcrédito rural no país, de acordo com o Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor) do Banco Central, desconsideradas as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) lastreadas em Cédulas de Produto Rural (CPRs). O volume ficou 10,1% abaixo ao da safra anterior.
Desse total, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) respondeu por R$ 68,7 bilhões, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pro namp) por R$ 62,2 bilhões, e os demais produtores, por R$ 214 bilhões. O ciclo terminou ainda sob juros elevados, com a Selic em 14,25% ao ano.
Dados do Banco Central relativos a julho mostram ainda que a inadimplência no crédito rural de pessoas físicas chegou a 15,53% nas operações a taxas de mercado, contra 3,67% nas operações a taxas reguladas.
Neste contexto, o Sistema FAEP pede ao próximo governo federal que trate o Plano Safra como política de Estado, com previsibilidade plurianual e recursos para equalização, mais acesso e integração entre crédito, seguro e gestão de risco.
Inclusive, como forma de contribuir, o Sistema FAEP, junto dos sindicatos rurais e outras entidades do setor agropecuário paranaense, todos os anos, elabora um documento com as propostas, que é enviado ao governo federal. A iniciativa reforça o protagonismo do Paraná na formulação do Plano Safra e evidencia a articulação do setor produtivo paranaense junto aos Poderes Executivo e Legislativo na construção das diretrizes da política agrícola.
Endividamento: renegociação não sai do papel
A Medida Provisória 1.376/2026 criou o programa de renegociação, com adesão até 12 de novembro. Porém, na prática, quase nada avançou. Levantamento do Sistema FAEP com sindicatos rurais de Guarapuava, São Mateus do Sul, Maringá e Guamiranga mostra poucos enquadramentos, novas garantias exigidas e bancos oferecendo juros de 19% quando a dívida original era de 14% a 16%. Em Guara puava, apenas um produtor da agência local se enquadrou; em São Mateus do Sul, cerca de 12% das propostas foram aceitas.
“Entre todos os clientes e produtores que chegaram até mim, apenas um conseguiu efetivamente se enquadrar nessa linha de composição. Foi uma exceção”, relata a ad vogada Tatiana Gaertner, especialista em Direito do Agronegócio.
Diante da insuficiência das linhas rurais com recursos controlados ou subsidiados, ela conta que muitos produtores recorreram a crédito livre ou comercial, com taxas mais altas e prazos incompatíveis com o ciclo produtivo. “Em vários casos, a dívida anterior foi incorporada a uma nova operação, mais cara, sem que houvesse recuperação da capacidade de pagamento. O resultado foi o crescimento progressivo do passivo.”
Para Tatiana, a MP até pode ajudar em situações específicas, mas não resolve a crise estrutural. “Os critérios de enquadramento são restritivos. Além disso, algumas instituições exigem alienação fiduciária de imóveis e outras garantias que muitos produtores não conseguem oferecer”, destaca.
Diante desse quadro, o Sistema FAEP defende que o próximo governo federal vá além de programas extraordinários e crie uma política permanente de reestruturação financeira, com critérios técnicos, transparência e previsibilidade. “O descaso com a situação dos produtores rurais ultrapassou os limites do aceitável. São necessárias medidas práticas e eficazes, de forma urgente”, cobra Meneguette.
Seguro rural: prevenir custa menos que socorrer
Para Loyola, o modelo de política agrícola “chegou ao seu esgotamento”. “O produtor rural está na UTI”, resume. Como sintomas, cita a inadimplência acima de 8%, os leilões de propriedades e as recuperações judiciais no meio rural. E aponta outro agravante: problemas climáticos que ocorriam a cada cinco ou sete anos hoje se repetem a cada três, atingindo vários Estados ao mesmo tempo.
Enquanto o risco cresce, a proteção encolhe. A área segurada no país caiu mais de 75% desde 2021 e, no Paraná, as apólices passaram de 82,19 mil para 9,24 mil no mesmo período. O orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) caiu de R$ 1 bilhão para cerca de R$ 473 milhões em 2026. Na proposta para 2027, do R$ 1,2 bilhão previsto, só R$ 318,5 milhões (27%) têm fonte livre garantida.
As contas do FGV Agro indicam que um valor equivalente ao custo anual estimado pelo governo de R$ 3,6 bilhões da equalização de juros da renegociação, se aplicado na subvenção ao seguro rural, poderia proteger 20,5 milhões de hectares e R$ 112 bilhões em capital segurado. “Não adianta dar crédito se não tem proteção”, resume Loyola.
O especialista defende, ao menos, 20% da área agrícola segurada em quatro anos e lembra que os Estados Unidos aplicam cerca de cem vezes mais que o Brasil. “O governo federal deveria olhar para a experiência internacional e entender o que os países mais maduros em termos de política agrícola fizeram”, comenta.
Uma possível resposta acaba de ser sancionada pelo presidente da República. O PL 2.951/2024, agora Lei 15.526/2026, prevê que a subvenção ao seguro rural terá execução obrigatória, restrita ao montante proposto no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA). A nova lei também estabelece condições de crédito mais favoráveis para produtores que contratem seguro, fixa prazos para regulação e pagamento dos sinistros e define bases para a implementação do fundo de cobertura de catástrofes. Enquanto aguarda a efetiva execução do que foi aprova do, o Sistema FAEP repete o alerta ao futuro governante: mais do que programas extraordinários de renegociação, o país precisa de uma política permanente de reestruturação financeira, com critérios técnicos, transparência e previsibilidade.


