Pesquisa da KPMG mostra que 93% das empresas brasileiras já possuem hotline, mas especialista alerta que a efetividade do mecanismo depende de cultura organizacional e investigações internas estruturadas
O canal de denúncias deixou de ser um diferencial para se tornar parte da estrutura de governança das empresas brasileiras. Dados da 5ª edição da Pesquisa Perfil do Hotline no Brasil, realizada pela KPMG, revelam que 93% das organizações do país já contam com um canal de denúncias e 92% possuem programas de compliance ou integridade. Além disso, 41% das empresas mantêm esse tipo de ferramenta em operação há mais de cinco anos, evidenciando a maturidade crescente do tema nas organizações.
Ao mesmo tempo, o estudo aponta que a simples implementação do mecanismo não garante sua efetividade. Embora 79% das empresas afirmem que seus colaboradores confiam no canal, ainda existem desafios relacionados ao engajamento, à qualidade das apurações e à utilização estratégica dessas informações para aprimorar processos e fortalecer a cultura organizacional.
Outro aspecto apontado pela pesquisa da KPMG é a crescente profissionalização dessas estruturas. Segundo o levantamento, 73% das empresas terceirizam o primeiro atendimento das denúncias, enquanto 36% registraram mais de 120 relatos no período analisado.
Para o advogado especialista, sócio e COO do Pironti+Moura, Eduardo Moura, os números demonstram que houve uma evolução importante na adoção dos canais, mas ainda existe espaço para que as empresas avancem na utilização dessas estruturas como instrumentos de gestão. “Muitas empresas possuem o canal, porém ainda não o utilizam de maneira estratégica. O canal não deve ser visto apenas como uma obrigação regulatória, mas como uma importante fonte de informações para a gestão de riscos, para o fortalecimento da cultura de integridade e para o aperfeiçoamento dos processos internos”, afirma.
De acordo com o executivo, um dos principais fatores que explicam a subutilização desses mecanismos é a ausência de um sistema de integridade estruturado. “Em muitos casos, as empresas implementam o canal de denúncias sem desenvolver os demais pilares do compliance. Sem uma base formal, sem políticas claras e, principalmente, sem uma cultura organizacional alinhada, é difícil gerar engajamento e confiança. O canal precisa estar inserido em um processo mais amplo de integridade para cumprir sua função de forma adequada”, explica.
A credibilidade do mecanismo também está diretamente relacionada à capacidade da organização de conduzir investigações internas técnicas e imparciais. De acordo com a Association of Certified Fraud Examiners (ACFE), 43% dos casos de fraude ocupacional identificados em todo o mundo são descobertos por meio de denúncias, percentual superior a qualquer outro método de detecção. Mais da metade dessas informações é fornecida pelos próprios colaboradores.
Para Moura, é justamente o processo investigativo que sustenta a confiança no sistema. “A investigação interna é o que constrói credibilidade para o canal. Trata-se de um processo técnico que busca produzir informações estruturadas e seguras para apoiar a tomada de decisão diante de eventos de risco. Quando a organização não possui uma metodologia clara para apuração, aumenta significativamente a chance de o canal perder relevância e cair em descrédito”, destaca.
Outro aspecto determinante é a cultura organizacional. A própria KPMG aponta que os canais de denúncia se tornaram peças centrais das estratégias de governança e gestão de riscos, mas ressalta que a divulgação contínua, a transparência e a clareza sobre as consequências das denúncias são fundamentais para consolidar um ambiente seguro e confiável.
“Quando existe confiança no ambiente e clareza sobre os valores da organização, as pessoas conseguem identificar com mais precisão situações que efetivamente representam riscos para a companhia. Isso faz com que o canal cumpra seu papel de fortalecer a integridade e apoiar o crescimento sustentável dos negócios”, conclui Moura.
Sobre o Pironti+Moura
A sociedade Pironti+Moura é pautada pelo desenvolvimento de soluções jurídicas alinhadas à cultura de negócio, integridade corporativa e eficiência institucional, reunindo profissionais com expertise multidisciplinar e forte presença nas discussões relacionadas à modernização da advocacia e à gestão de riscos.
Atua na assessoria e consultoria jurídica altamente especializada em áreas como Compliance, Proteção de Dados, Direito Digital, Governança, Gestão de Riscos e Investigações Corporativas; Direito Administrativo, Licitações e Contratos Públicos, Concessões e Parcerias, Processo Administrativo, Direito da Infraestrutura e Regulação; Direito Empresarial, Cível, Societário, Fusões e Aquisições (M&A), Mercado de Capitais, Contratual e Família; além de Contencioso Estratégico, Soluções de Conflitos e temas correlatos que demandam conhecimento técnico qualificado sobre a legislação nacional e comparada.
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