Fazer um café, colocar roupa no varal, estudar, ler um livro ou assistir televisão antes de encarar a programação diária da escola, universidade ou do trabalho. Uma rotina que parece simples, mas que fez a diferença para aproximadamente mil jovens em situação de vulnerabilidade social, para quem essa realidade parecia distante. Todos eles foram atendidos pela Comunidade Sarnelli, fundada há mais de 30 anos, em Curitiba (PR), pelo padre irlandês Patrick Kevin McGillicuddy (1951-2024).
Hoje, a Comunidade Sarnelli funciona em uma casa localizada na Rua Alferes Poli, no bairro Parolin, que foi totalmente reformada com recursos provenientes de doações. Parceira dessa missão social desde sua chegada a Curitiba, em 2003, a construtora Plaenge contribui para a continuidade do projeto, atualmente conduzido pela Associação Amigos da Comunidade Sarnelli (AACS), criada após o falecimento do padre Patrick.
Porto seguro
Atualmente, seis jovens adultos, entre 18 e 27 anos, vivem na casa, conciliando estudo e trabalho. Entre eles está Douglas de Andrade, de 26 anos. Aos dois meses de vida, ele foi encaminhado a uma casa de acolhimento em Curitiba, onde permaneceu durante a infância e a adolescência. Nesse período, passou por dois processos de adoção que não se concretizaram. Ao completar 18 anos, diante do desafio de iniciar uma vida independente, Douglas buscou apoio para continuar estudando e construir um futuro com novas oportunidades.
Com o apoio da Comunidade Sarnelli, Douglas conquistou uma bolsa de estudos e formou-se em Odontologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC). Hoje, aos 26 anos, trabalha como dentista e continua vivendo na Comunidade, onde contribui com as tarefas da casa e conta com suporte de moradia, alimentação e saúde enquanto se prepara para os próximos passos de sua vida. “Como não tenho família, preciso de estabilidade financeira para conseguir viver sozinho. Meu sonho agora é passar em um concurso”, conta.
Ao olhar para a própria história, Douglas destaca a importância do encontro com o padre Patrick Kevin McGillicuddy e das oportunidades que recebeu. “Pelo meu histórico de vida, eu não encaro minha trajetória como conquista, mas sim como obrigação. Continuar aqui e ajudar outros jovens é uma forma de agradecer às oportunidades que tive”, afirma.
Ele deixou as ruas e se tornou empresário
Histórias de transformação fazem parte da trajetória da Comunidade Sarnelli. Uma delas é a de Bruno Gabriel da Silva, de 39 anos, natural de São José dos Pinhais (RMC). Quando tinha 10 anos, seus pais se separaram e ele e dois irmãos passaram a viver com o pai. Como o pai trabalhava até tarde, tinha dificuldades para acompanhar de perto a rotina dos filhos. “Quem nos acolhia era a rua”, relembra.
Aos 13 anos, Bruno já havia sido expulso de duas escolas, repetido a mesma série por quatro anos e começado a usar drogas. Para conseguir dinheiro, buscava diferentes formas de trabalho. “Eu dava um jeito de conseguir dinheiro, vendia espetinho, balas e morango no sinaleiro, até que o dinheiro começou a ser pouco.” Nesse período, passou a enfrentar situações de grande vulnerabilidade e viu amigos perderem a vida em decorrência da violência e das drogas.
Aos 16 anos, com poucas perspectivas para o futuro, Bruno encontrou um novo caminho. Seus pais e familiares conheceram o trabalho da Comunidade Sarnelli e procuraram o padre Patrick McGillicuddy em busca de apoio. Acolhido em uma das casas da Comunidade, em Campina Grande do Sul (RMC), Bruno iniciou um processo de recuperação e retomada dos estudos.
Um episódio daquele período permanece em sua memória. “Quando entrei para morar na casa, o padre já me deu um livro para ler. Era do Sidney Sheldon. Eu nunca tinha lido um livro na vida”, relata.
Bruno voltou a estudar e, mais tarde, foi aprovado no vestibular para o curso de Sistemas de Informação, conquistando uma bolsa integral de estudos na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC), com o apoio da Comunidade Sarnelli.
Viveu por mais de cinco anos na casa, até conquistar seu próprio emprego e alcançar maior independência. Hoje, casado e pai de dois filhos, um menino de 11 anos e uma menina de 9, Bruno relembra sua passagem pela Comunidade e reconhece a importância dos momentos mais difíceis. “Tinha muita disciplina e o padre Patrick era muito rigoroso, mas não vejo como poderia ser diferente”, conta.
Orientação para a vida
Após o falecimento do padre Patrick, o trabalho de acolhimento e acompanhamento dos jovens teve continuidade com o apoio da Associação de Amigos da Comunidade Sarnelli e de educadores sociais que vivem na casa e acompanham de perto o cotidiano dos moradores.
Um deles é Sérgio Silva, amigo e discípulo do missionário irlandês desde 1992, que participou ao seu lado da fundação do projeto. Outro é Ricardo dos Santos Cruz, 53 anos, educador social responsável por apoiar os jovens que vivem atualmente na casa da Comunidade Sarnelli, no bairro Parolin.
A ligação de Ricardo com a comunidade, porém, começou muito antes. Morador do próprio bairro, ele conheceu padre Patrick em 1996, quando atravessava um dos períodos mais difíceis de sua vida.
“Nessa época, eu estava em uma situação crítica. Bebia muito, usava drogas, tinha saído da escola e não dava nenhuma satisfação para minha família. Muitas vezes dormi nas ruas do bairro. Em casa, dormia no porão, junto com os cachorros”, relembra.
No ano seguinte, após enfrentar dias difíceis nas ruas, Ricardo pediu ajuda ao padre e foi encaminhado para tratamento em uma clínica em Ponta Grossa, onde permaneceu por quase um ano. Sua recuperação ainda teria outros desafios e novas passagens por clínicas de reabilitação. Em todo esse caminho, porém, padre Patrick continuou ao seu lado.
Anos depois, Ricardo passou a ocupar um novo lugar nessa história: hoje, é ele quem ajuda a acolher, orientar e acompanhar os jovens da Comunidade Sarnelli.
Transformando a própria história
Ricardo também não desistiu de si mesmo. Ao longo dos anos, iniciou a faculdade de Serviço Social, casou-se, teve uma filha e chegou a morar fora da comunidade, sem nunca deixar de manter o vínculo e apoiar o projeto.
Atualmente, após a separação, voltou a viver na casa e atua como um dos educadores sociais, acompanhando os jovens nas atividades e na rotina da comunidade. Sua própria trajetória tornou-se uma referência para quem busca construir novos caminhos.
“A comunidade foi fundamental para me ensinar a ser uma pessoa boa e responsável. Tudo o que sei de bom aprendi aqui”, conta.
Ao olhar para o passado, Ricardo lembra que muitos dos amigos com quem conviveu perderam a vida em decorrência das drogas ou da violência nas ruas. Ter seguido um caminho diferente deu um novo significado à sua própria história. Hoje, ele transforma a experiência que viveu em acolhimento, orientação e apoio a outros jovens em situação de vulnerabilidade social.
Amigos da Comunidade Sarnelli
Para dar continuidade a esse legado e fortalecer a rede de apoio ao projeto, a Plaenge liderou, em 2025, a criação da Associação de Amigos da Comunidade Sarnelli (AACS).
A entidade nasceu com o propósito de contribuir para a sustentabilidade da iniciativa e ampliar as oportunidades oferecidas aos jovens. Entre seus objetivos estão mobilizar recursos, estabelecer novas parcerias e fortalecer a estrutura necessária para que o trabalho desenvolvido pela Comunidade Sarnelli continue transformando histórias.
A iniciativa também integra a estratégia de ESG (Environmental, Social and Governance — Ambiental, Social e Governança) da Plaenge, ao transformar o compromisso histórico da empresa com a comunidade em uma atuação estruturada e de longo prazo. No pilar social, a associação reforça o compromisso com iniciativas capazes de gerar impacto positivo e contribuir para o desenvolvimento das comunidades onde a empresa está presente.
Além de contar com importantes apoiadores do Brasil e do exterior, que contribuem com o projeto da Comunidade Sarnelli desde 1994, a associação mantém uma rede de parceiros institucionais, entre eles Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Grupo Positivo, SESI, SENAI, Andersen Ballão Advocacia e Sinduscon.
A proposta é ampliar essa rede e reunir empresas, instituições e pessoas em torno de um mesmo propósito: dar continuidade ao legado e trabalho iniciado pelo padre Patrick e proporcionar oportunidades para que mais jovens possam transformar suas histórias por meio da educação.
Entre os próximos objetivos da AACS está a busca por novos parceiros que contribuam para a retomada das atividades na sede de Campina Grande do Sul (RMC). Com capacidade para atender mais de 50 jovens, o local oferece uma estrutura ampla, com espaços de lazer, convivência e estudo, possibilitando a expansão das ações desenvolvidas pela instituição
Empresas e pessoas interessadas em conhecer o projeto ou contribuir com a iniciativa podem entrar em contato através do e-mail: [email protected]


