HomeGERALCidadesGuerra com Irã amplia preocupações no Reino Unido

Guerra com Irã amplia preocupações no Reino Unido

Por Lorena Nogaroli

A escalada da guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel passou a preocupar profundamente autoridades britânicas e a opinião pública no Reino Unido. Embora o país não esteja diretamente no centro do conflito, seus efeitos já são sentidos na economia, na segurança interna e na política externa. Pesquisas indicam que a maioria da população teme que a crise se transforme em um problema direto para o país — desde inflação mais alta até ameaças terroristas e cibernéticas.

A dimensão do temor público ficou evidente em uma pesquisa recente do instituto Ipsos, que mostra que 63% dos britânicos estão preocupados com os efeitos do conflito na segurança nacional, enquanto 62% temem impactos nas relações comunitárias dentro do próprio Reino Unido, como o aumento de tensões entre diferentes grupos religiosos e étnicos.

A pesquisa também indica que a guerra é vista como um fator potencial de instabilidade global e de pressão econômica interna, reforçando a percepção de que conflitos no Oriente Médio têm efeitos diretos na vida cotidiana do país.

Impacto econômico e risco de nova crise energética

Um dos efeitos mais imediatos da guerra é o impacto no custo de vida. O Office for Budget Responsibility (OBR) — órgão fiscal independente do governo britânico — alertou que a escalada do conflito pode dar um “golpe muito significativo” à economia do Reino Unido.

Segundo o órgão, se os preços globais de energia permanecerem elevados, as contas domésticas podem aumentar em mais de £500 por família e a inflação pode subir cerca de 1 ponto percentual.

O impacto começou a ser percebido no mercado de combustíveis. Dados da RAC Fuel Watch mostram que o preço médio da gasolina subiu de 132,83 pence por litro (cerca de R$ 9,32) em 28 de fevereiro para 135,20 pence (aproximadamente R$ 9,49) em 4 de março, enquanto o diesel passou de 142,38 pence (cerca de R$ 9,99) para 145,66 pence (aproximadamente R$ 10,22) no mesmo período.

O aumento ocorreu após a escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã elevar o preço do petróleo acima de US$ 81 por barril, nível que não era registrado desde o início de 2025.

O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, provocou filas em postos de gasolina em várias regiões do país. No norte de Londres, motoristas relataram ter esperado mais de uma hora para abastecer. Diante do receio de compras por pânico, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, pediu calma à população e afirmou que o governo está monitorando a situação.

Operações militares e riscos para tropas britânicas

A guerra também levou o Reino Unido a ampliar sua presença militar na região. A Marinha britânica participou de operações para proteger navios comerciais no Mar Vermelho contra ataques de drones e mísseis lançados por rebeldes Houthis, aliados do Irã no Iêmen.

Posteriormente, forças britânicas participaram de ataques aéreos contra alvos Houthis ao lado dos Estados Unidos, em resposta às ameaças à navegação internacional.

Especialistas afirmam que essa participação aumenta três riscos para Londres: maior exposição de militares britânicos na região, aumento dos custos de defesa e a percepção de que o Reino Unido está alinhado a um dos lados do conflito. Essa percepção pode afetar relações diplomáticas com países árabes e com o próprio Irã, complicando o papel tradicional do Reino Unido como mediador em algumas crises regionais.

Autoridades de defesa alertam que a instabilidade no Mar Vermelho pode incentivar outros atores geopolíticos a testar limites em regiões estratégicas, como o Mar do Sul da China ou a Crimeia, ampliando as preocupações estratégicas de Londres.

As divergências sobre o nível de envolvimento britânico no conflito também provocaram tensões diplomáticas com Washington. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, criticou publicamente a postura cautelosa do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, insinuando que o Reino Unido atual “não tem um Churchill” — referência ao líder britânico Winston Churchill, símbolo da resistência militar durante a Segunda Guerra Mundial. A declaração foi interpretada como uma crítica à decisão de Londres de evitar participação direta em ofensivas contra o Irã.

Aumento do risco terrorista e tensões internas

Dentro do Reino Unido, autoridades de segurança observam um ambiente mais tenso. A polícia antiterrorismo relatou um aumento “sem precedentes” no volume de informações de inteligência sobre possíveis atividades extremistas desde o início da guerra em Gaza.

Segundo autoridades citadas pelo UK Defence Journal, houve 25% mais dados de inteligência relacionados a potenciais ameaças, enquanto o nível oficial de alerta terrorista permanece em “substancial” — indicando que um ataque é considerado provável.

O novo ministro da Defesa afirmou recentemente que o nível de ameaça no país está “absolutamente sob revisão” após a escalada no Oriente Médio, o que pode levar a medidas adicionais de segurança em espaços públicos, fronteiras e grandes eventos.

Desde o início da guerra em Gaza, Londres e outras grandes cidades britânicas já passaram a ter policiamento reforçado em manifestações, vigílias religiosas e eventos culturais, incluindo unidades armadas adicionais, barreiras de segurança e revistas.

A Polícia Metropolitana de Londres também relatou um aumento significativo de incidentes antissemitas e islamofóbicos, o que levou ao reforço da proteção de sinagogas, mesquitas, escolas religiosas e centros comunitários, com escoltas policiais e controles de acesso mais rigorosos.

Ameaça cibernética

Outra preocupação crescente é a possibilidade de retaliação digital. Após a recente escalada militar, o National Cyber Security Centre (NCSC) recomendou que empresas e instituições britânicas revisem urgentemente suas posturas de cibersegurança.

A agência alerta que Estados hostis ou grupos criminosos podem atuar como proxies em ataques cibernéticos, mirando infraestrutura crítica, serviços públicos e instituições financeiras.

Especialistas lembram que crimes desse tipo já ocorreram no país. Um exemplo foi o ciberataque de 2024 que afetou sistemas do NHS, o serviço público de saúde britânico, causando o cancelamento de milhares de consultas, cirurgias oncológicas e outros procedimentos que dependiam de transfusão de sangue ou de resultados laboratoriais.

Em um cenário de conflito ampliado, ataques digitais poderiam afetar desde hospitais até redes de energia ou transportes.

Segurança de fronteiras e vigilância ampliada

O governo britânico também anunciou a duplicação do investimento em segurança de fronteiras, com a criação de um novo Comando de Segurança de Fronteiras. A medida busca combater rotas usadas por redes criminosas e prevenir a infiltração de indivíduos ligados a terrorismo ou a Estados hostis.

O serviço de inteligência MI5 afirma que a carga de trabalho envolvendo investigações sobre terrorismo e atividades de Estados como Rússia e Irã aumentou significativamente nos últimos anos, com dezenas de conspirações potencialmente letais desarticuladas desde 2022.

Como resultado, passageiros podem notar controles mais rigorosos em aeroportos, estações e fronteiras, incluindo verificações adicionais de documentos e bagagens.

Um país em alerta, mas sem pânico

Apesar das preocupações, autoridades britânicas enfatizam que não há evidência de ameaça militar direta ao território do Reino Unido. O foco do governo é evitar uma escalada regional, proteger os interesses britânicos e conter os impactos econômicos.

O debate público, no entanto, revela um sentimento crescente de incerteza. Uma pesquisa internacional recente citada pela agência Politico mostra que 43% dos britânicos acreditam que uma nova guerra mundial é provável até 2031.

Em meio a esse cenário, Londres tenta equilibrar cautela diplomática, reforço de segurança e gestão econômica — consciente de que, mesmo distante do campo de batalha, os efeitos de uma guerra no Oriente Médio podem chegar rapidamente ao cotidiano britânico.

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS