A nota oficial do gabinete de Ratinho Junior informa, com toda a solenidade republicana que o caso requer, que a decisão foi tomada “após profunda reflexão com a família”. Traduzindo para o idioma da política real: o pai mandou parar. O apresentador do SBT, Ratinho, sempre foi contra uma candidatura presidencial do filho nas eleições de 2026 e externou sua posição a pelo menos dois políticos próximos. Nas famílias de políticos bem-sucedidos, a “profunda reflexão dominical” costuma ter sotaque paterno.
A nota do gabinete é uma peça de marketing com a elegância de um currículo de PhD. Fala em compromisso com os paranaenses, ciclo de crescimento, 85% de aprovação, melhor educação do Brasil e por aí vai. O que ela não menciona: o temor do apresentador Ratinho era de que a candidatura expusesse os negócios da família de forma negativa. Oito anos de governo sem grande escândalo é uma proeza notável no Brasil — e proezas notáveis não se arrisca em palanques nacionais onde qualquer jornalista de Brasília fica farejando osso.
Nesta segunda-feira, os deputados estaduais da base almoçaram com o governador no Palácio Iguaçu para se despedir de Ratinho Junior. O clima era de euforia com a expectativa de lançamento da pré-candidatura presidencial na quarta-feira. Horas depois, o mesmo governador anunciou que não vai a lugar nenhum. Os deputados que foram almoçar uma despedida terminaram sem nem conseguir a sobremesa. Na política paranaense, neste 23 de março, o almoço foi literalmente o prato principal — e ninguém pediu a conta.
Quem conhece a arquitetura política do grupo sabe que a prioridade absoluta da Famiglia Ratinho — liderada com mão de ferro pelo patriarca — sempre foi uma só: fazer o sucessor, e que seja alguém de confiança absoluta. Entre os nomes em circulação — Alexandre Curi, Eduardo Pimentel, Rafael Greca — apenas um preenche o requisito da confiança irrestrita: Guto Silva, o secretário das Cidades. Por mais implausível que pareça ao olho desavisado, este parece ser o projeto central. Tudo o mais, como diria um fino analista político, é poesia — e poesia, na política, não elege governador.
O raciocínio é de uma clareza cartesiana: a única chance de comandar a própria sucessão é permanecer sentado no trono. Governador em exercício, com 85% de aprovação e o orçamento estadual na mão, vale dez vezes mais do que candidato presidencial viajando o Brasil numa campanha sem recursos e sem colchão eleitoral fora do Paraná. Mandato é poder real. Campanha presidencial sem perspectiva de vitória é vaidade cara. Aliados afirmam que Ratinho Junior priorizou a sucessão no Paraná após a aliança entre Moro e Flávio Bolsonaro consolidar o tabuleiro estadual sem consultá-lo.
O PL chegou a convidar Ratinho Junior para compor a chapa de Flávio Bolsonaro como vice-presidente. Com a recusa, o PL buscou Sérgio Moro como alternativa. Em outras palavras: a entrada de Moro no tabuleiro paranaense é, paradoxalmente, uma consequência direta da dignidade de Ratinho — que recusou ser vice de quem quer que seja. Desta recusa nasceu a aliança Moro-Flávio. A política tem dessas ironias: às vezes, o nobre gesto de quem diz não cria o maior problema na porta de casa.
Na pesquisa Quaest de março, Ratinho Junior aparecia com 7% das intenções de voto no primeiro turno — à frente de Caiado com 4% e Eduardo Leite com 3%. Em simulação de segundo turno contra Lula, registrava 33% contra 42% do presidente, a menor desvantagem entre todos os nomes testados. Era, tecnicamente, o candidato mais competitivo da alternativa ao PT e ao bolsonarismo. Gilberto Kassab devia estar roendo as unhas. Só que 7% no primeiro turno, por mais promissor que seja num campo fragmentado, não convence pai de apresentador de TV acostumado a medir audiência. O ibope da política é outra régua.
Com Ratinho fora, ganham força dentro do PSD os nomes de Eduardo Leite e Ronaldo Caiado como possíveis candidatos ao Palácio do Planalto. Mas a conta não fecha de forma tão elegante: Leite com 3% e Caiado com 4% nas pesquisas não são exatamente o sonho de consumo de Kassab. O presidente do PSD, que apostou as fichas na ideia de uma candidatura presidencial viável fora da polarização, acorda na terça-feira de mãos abanando e com dois governadores que somados não chegam a 10% das intenções de voto. Kassab, como de costume, vai encontrar uma saída. O homem tem mais vidas do que gato de rua.
A decisão de Ratinho transforma o Paraná no estado mais quente da eleição de 2026 fora do eixo federal. De um lado, o governador incumbente tenta emplacar seu sucessor — provavelmente alguém que ninguém ainda levou muito a sério. Do outro, Sérgio Moro, pré-candidato ao governo pelo PL com apoio de Flávio Bolsonaro, que ainda deve contar com o apoio do Novo, um dos partidos que integram a base do governo paranaense. Ou seja: o Novo, que ajudou a construir o governo Ratinho, pode estar na chapa que vai enfrentar o candidato de Ratinho. Na política paranaense, a base de ontem é a oposição de amanhã.
A nota oficial conclui informando que, após dezembro, Ratinho Junior “pretende voltar ao setor privado e presidir o Grupo de Comunicação criado pelo pai, o apresentador Ratinho.” Fim de uma carreira pública de dois mandatos bem-sucedidos, começo da presidência de uma empresa familiar de mídia. Outros já percorreram esse caminho em sentido inverso — da comunicação para a política. Ratinho Junior vai na direção contrária. Seja bem-vindo ao único setor no Brasil onde a aprovação do público se mede em pontos de audiência, não em pontos percentuais de pesquisa. O pai, pelo menos, conhece as regras do jogo.


