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O drama dos moradores de ruas de Curitiba

Poucos dias antes da entrada de uma frente fria em Curitiba, o prefeito da cidade, Eduardo Pimentel, foi às ruas, acompanhados de equipes que atuam na área da assistência social para conversar com moradores de ruas que vem aumentando a cada dia na capital paranaense. Pimentel, ao explicar que não queria ver ninguém morando nas ruas, embaixo de marquises ou mesmo em barras, foi mal interpretado quando, sua intenção era de acolhimento, tratamento de saúde e inserção na sociedade com o oferecimento de emprego.

O vídeo, onde o prefeito conversa com moradores de ruas, passou de 1 milhão de visualizações, bateu mais de 40 mil curtidas e, principalmente, gerou um apoio expressivo da população nos comentários e compartilhamentos, segundo informações da Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura. “A avaliação visível é que a mensagem conectou e que o caminho está certo”, disse o secretário, jornalista Marc Souza. “Nossa maior preocupação é com a chegada do inverno, período e clima favorável à enfermidades”, pontuou.

O inverno chegou. Curitiba vê crescer nas calçadas uma realidade que deixou de ser invisível. A população em situação de rua já não é apenas um retrato da pobreza extrema. Tornou-se um dos maiores desafios sociais, urbanos e humanos da capital paranaense. Os dados levantados pela prefeitura desmontam parte da narrativa simplista que costuma dominar o debate. A maioria é formada por homens em idade produtiva. Muitos já tiveram carteira assinada. Não nasceram nas ruas. Foram empurrados para elas pelo desemprego, pela ruptura familiar, pela dependência química, pela ausência de políticas contínuas de saúde mental e pela incapacidade do Estado brasileiro de impedir que a exclusão vire destino.

Curitiba enfrenta agora uma contradição incômoda: enquanto preserva a imagem de capital organizada, vê crescer um cenário de degradação social no coração da cidade. O Centro virou vitrine de uma crise que não é apenas curitibana — é mundial.

Da Califórnia a Paris, passando por Londres e São Paulo, o aumento da população em situação de rua acompanha o encarecimento brutal da moradia, o enfraquecimento das relações sociais e a precarização da vida urbana.

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(Foto: Ricardo Marajó/FAS)

Com a chegada do frio, a Prefeitura amplia abordagens, abre vagas emergenciais e distribui cobertores. É necessário. Salva vidas. Mas também escancara uma verdade dura: o poder público atua muito mais para administrar a crise do que para resolvê-la, já que existem leis que impedem ações de retirada das pessoas, poi8s são os moradores que decidem se querem ou não permanecerem em tais situações.

A cada inverno, repete-se praticamente o mesmo roteiro. Operações emergenciais, acolhimentos temporários e campanhas solidárias. Estas ações são feitas durante o ano todo.

Existe ainda outro componente delicado: a população vive entre a compaixão e o medo. Muitos comerciantes e moradores do Centro reclamam da insegurança, do avanço do tráfico, da ocupação desordenada dos espaços públicos e da deterioração urbana. Ignorar isso também seria desonestidade. O desafio está justamente em encontrar equilíbrio entre assistência social, saúde pública e preservação da ordem urbana.

O drama das ruas não será resolvido apenas com repressão, mas também não desaparecerá apenas com boa vontade e cobertores. Exige política habitacional séria, combate às drogas, reinserção no mercado de trabalho e atendimento permanente de saúde mental.

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Foto: Paraná Portal

O inverno curitibano expõe mais do que baixas temperaturas. Expõe o quanto uma sociedade moderna ainda tem problemas em proteger quem ficou para trás.

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