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Samek e a arte de dar “Gracias a la Vida”

Paulino Motter

Contar o tempo é parte da nossa experiência existencial. Mas a verdadeira realização não se mede em anos. A bem da verdade, deveríamos abandonar mais cedo certas convenções e metas inalcançáveis — porque a plenitude nunca esteve, nem nunca estará, ao nosso alcance. Essa clareza, que só chega com a maturidade, traz um tremendo alívio — como tirar um peso das costas que se carregou inutilmente pela vida.

Hoje, 16 de maio, Jorge Samek celebra 71 anos.

Conheço sua trajetória há mais de metade do trecho. É tempo suficiente para testemunhar o que a vida faz com um homem — e o que um homem faz com a vida. E o que posso dizer, com a convicção de quem acompanhou esse percurso de perto, é que Samek sempre soube, intuitivamente, onde estava o essencial.

A vida pública foi longa e exemplar. Chefe de gabinete da Secretaria Estadual da Agricultura, secretário municipal de Agricultura e Abastecimento de Curitiba no governo Reqião (1985–1988), vereador de Curitiba por quatro mandatos, deputado federal e diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional (2003–2017).

Esta trajetória de mais de três décadas foi marcada pelo compromisso com o interesse público, pela visão estratégica e por um calor humano que não se aprende em cargo nenhum. Quem conviveu sabe: não é fácil sair de posições assim sem deixar saudade genúina. Samek deixou.

Mas a carreira política bem sucedida não poupou Samek de enfrentar duros golpes e perdas irreparáveis.

Em 2019, partiu Maria Olívia — a companheira de toda a vida. Uma perda que o deixou sem chão, depois de quatro décadas de vida em comum. Três anos depois, em 2022, celebraria a chegada de mais uma neta — filha de Bruna e Carlão — que recebeu o nome da avó. Há nesses gestos uma teologia doméstica que dispensa comentários: a vida insiste, recomeça, e às vezes tem o rosto de quem partiu.

A alegria trazida pelo nascimento da pequena Maria Olívia foi precedida, em 2021, por duas duras provações. Marisa — um amor da juventude que o destino se encarregou de recolocar em seu caminho — enfrentou um acidente numa épica travessia de bicicleta pela costa cearense, entre Fortaleza e Jericoacoara. Logo em seguida, foi Samek quem enfrentou uma variante severa da COVID-19. Agarrou-se à vida com a resiliência de quem ainda tinha — e tem — uma missão a cumprir.

Quando teve alta hospitalar, foi completar a convalesceça na fazenda da família em São Miguel do Iguaçu, com a presença e o aconchego da mãe. Nada mais revigorante. E daquelas duas batalhas simultâneas, o amor desabrochou em plena floração. Caminhos que se haviam separado voltaram a se cruzar — e desta vez para ficar.

Em janeiro deste ano, partiu Cristina Lacki Samek, a mãe. A última grande perda. Aquela que fecha um ciclo que só as mães podem fechar.

De perdas e reencontros também se tece a vida.

Mas quem conhece Samek sabe que ele tem um bordão — não um slogan vazio, mas uma atitude diante da vida. A palavra é gratidão. Ele a pratica com a convicção de quem aprendeu, cedo demais e às vezes da pior forma, que nada é garantido. É quase um hino pessoal — como o “Gracias a la Vida”, de Violeta Parra, que conquistou as Américas na voz inconfundível de Mercedes Sosa. Uma canção que não nega a dor, mas a atravessa de olhos abertos, celebrando cada sentido, cada encontro, cada caminho percorrido. Samek entenderia.

Ambos filhos de agricultores, aprendemos com nossos pais que quem planta colhe. É verdade. Mas falta um verso nessa sabedoria de origem: é preciso regar as sementes com gratidão pela chuva que as faz germinar. Porque a chuva não se agenda. Ela vem — ou não vem — e nenhum planejamento muda isso.

Ao redor de Samek hoje há uma família linda, com uma prevalência notável de mulheres — filhas, netas. E há sua doce Marisa. Juntos, desfrutam os momentos felizes com a gratidão pela nova chance que a vida lhes proporcionou.

Contentar-se com o bastante e desfrutar cada momento com quem se ama: aí reside o segredo daquilo que se chama felicidade. Samek sabe disso — e celebra hoje 71 anos com o otimismo e o entusiasmo que sempre foram a sua marca.

Parabéns, Samek. Por tudo que construiu, por tudo que enfrentou, e pelo modo como você continua — de pé, grato, e em boa companhia.

Paulino Motter, jornalista e servidor público federal.

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