Por Rafaella Munhoz da Rocha
Eu cresci achando que princípios eram princípios.
Que uma pessoa ou tinha um padrão de conduta — e aplicava esse padrão independente de quem estivesse no banco dos réus — ou não tinha princípio nenhum. Tinha conveniência.
Levei um tempo para entender que a política brasileira funciona exatamente ao contrário. Que o princípio, aqui, é quase sempre a exceção. E a exceção — quando o personagem é aliado — é quase sempre o princípio.
A polarização não apenas dividiu o debate público.
Ela produziu uma ética seletiva.
Cada campo aprendeu a enxergar com nitidez quase didática o desvio do outro — e foi perdendo, na mesma proporção, a disposição de aplicar o mesmo rigor às próprias contradições. Esse talvez seja o traço mais corrosivo do nosso tempo político: os princípios continuam sendo invocados, mas cada vez mais como arma de acusação, e cada vez menos como exigência pessoal.
Isso aparece com clareza no noticiário recente. Os áudios de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro revelaram um constrangimento evidente para parte da direita, que vinha tratando as relações entre o banqueiro e o entorno de Alexandre de Moraes como prova suficiente de suspeição — mas agora tenta relativizar a busca de milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O problema aqui não é apenas jurídico. É moral. O mesmo fato muda de peso conforme muda o personagem.
No campo oposto, a seletividade não é menor. Setores que sempre exigiram coerência em representação feminina reagiram com muito menos vigor quando o constrangimento bateu na própria porta. O Supremo tem hoje apenas uma mulher em exercício — Cármen Lúcia. Depois de já ter indicado Cristiano Zanin e Flávio Dino, Lula seguiu sob pressão para nomear uma mulher e não o fez. Quando a defesa da diversidade some diante da oportunidade concreta de alterar esse quadro, o discurso deixa de soar como princípio. Passa a soar como conveniência.
O mais revelador, porém, é que essa lógica não fica restrita às lideranças. Ela contamina toda a cultura política ao redor delas.
O progressista que fala em inclusão e silencia diante das exclusões incômodas. O moralista que brada contra a corrupção e trata a própria sonegação como esperteza. O eleitor que exige ética pública e coleciona exceções privadas que considera perfeitamente justificáveis.
A seletividade não é só dos poderosos. É de todos nós.
E eu me incluo. Não é confortável perceber, num momento de irritação com o adversário, que você está aplicando exatamente o mesmo filtro que critica. Que a sua indignação tem endereço preferencial. Que o seu princípio, naquele momento, também virou conveniência.
A polarização radicaliza discursos, mas corrói coerência. Cada campo exige do outro aquilo que já não cobra de si mesmo. E quando isso se normaliza, a política deixa de ser disputa entre projetos e passa a funcionar como uma guerra de indulgências recíprocas: tudo é grave no adversário, quase nada é grave no aliado.
O resultado é uma vida pública cada vez mais ruidosa e cada vez menos confiável. Não porque tenham desaparecido as palavras certas — legalidade, inclusão, moralidade, transparência. Mas porque elas foram esvaziadas pelo uso estratégico. Continuam circulando, mas já não constrangem com a mesma força quem as pronuncia.
O problema do nosso tempo não é apenas a polarização.
É a incoerência que ela autoriza.
Sem algum compromisso mínimo com princípios que continuem valendo mesmo quando atingem o próprio lado, a política vira torcida moral. E torcida não quer coerência. Quer vitória.
O desafio mais sério, no meio de tanto ruído, talvez seja esse: reaprender a exigir de si o mesmo rigor que se exige do adversário.
Porque quando os princípios viram mera conveniência, o que se perde não é só o equilíbrio.
É a credibilidade da própria vida pública.
Rafaella Munhoz da Rocha é advogada


