HomeDESTAQUEOs quinze segundos de Flávio Bolsonaro com Trump

Os quinze segundos de Flávio Bolsonaro com Trump

por Gaudêncio Penaforte

Ontem, durante uma jornada exaustiva, recebi mensagem por WhatsApp de um amigo, com fotos de Flávio Bolsonaro no Salão Oval, na Casa Branca, justapostas a imagens do recente encontro entre Lula e Trump, com uma única frase lacônica: “Vale um artigo seu.” Junto, porém, enviou uma espécie de tratado de semiótica, certamente gerado por IA, analisando a composição da tão desejada foto pela qual Flávio Bolsonaro viajou a Washington, em primeira classe.

Confesso que não me motivou nem um pouco dedicar tempo ao assunto, que só voltou a despertar minha atenção quando, deposto de uma aborrecida assembleia de condomínio que me coube secretariar, peguei o final do Jornal Nacional e lá pelas tantas, depois da previsão do tempo para esta quarta-feira, apareceu a imagem da pose oficial, com uma nota encoberta, registrando o encontro. Não deve ter durado mais do que quinze segundos. Me alinho aos editores do JN nessa cobertura — eu que critiquei duramente a linha editorial do que ainda é o principal telejornal da televisão brasileira sobre o encontro de Lula e Trump.

Sobre a foto staged no Salão Oval, o JN deu o tratamento jornalístico adequado: registrou a imagem como um amuleto de turistas na Disney. Me fez lembrar o famoso vaticínio de Andy Warhol: “no futuro, todos serão mundialmente famosos por quinze segundos.” Flávio Bolsonaro teve os seus ontem.

* * *

A foto, é preciso dizer, merece mais do que quinze segundos de análise — ainda que não muito mais.

Trump sorri com a placidez de um bisão albino em seu território natural, ladeado por dois servos em traje de gala. A pose é de senhor feudal recebendo vassalos de ultramar. Ele está sentado, ao centro, atrás da mesa presidencial — aquela peça de mogno que já viu de tudo. Flávio está de pé, atrás, gravata amarela bem ajustada, expressão compenetrada de quem cumpre missão. A mesa é o detalhe que não engana: ela separa, hierarquiza, subordina. Trump não se levantou. Não precisava. A foto já dizia o suficiente.

Compare com as imagens de Lula na Casa Branca: de pé, lado a lado, aperto de mãos, bandeiras simétricas ao fundo, contato visual, o protocolo diplomático em sua gramática mais precisa. Dois chefes de Estado que se reconhecem como pares. A diferença não é de afeto — é de status. E o status, na política, é tudo. Flávio foi a Washington como filho de ex-aliado. Lula foi como presidente do Brasil e estadista mundialmente respeitado. A imagem só confirmou o que o protocolo já sabia.

* * *

Se o clique com Trump foi tudo o que Flávio conseguiu, as declarações à imprensa depois da pose não ajudaram em nada a capitalizar a passagem pela Casa Branca.

Afirmou ter pedido a Trump que declarasse o PCC e o CV organizações terroristas. Pareceu contido ao não ter incluído as milícias — talvez em deferência a Fabrício Queiroz, o miliciano de estimação de Flávio Bolsonaro, cuja sombra paira sobre qualquer debate sobre segurança pública que envolva o clã. E desfiou declarações desconexas, sem fio condutor, sem ambição programática, sem o mínimo esboço de um projeto de poder que justificasse a viagem. O momento mais embaraçoso veio quando declarou ter sido recebido por “Lula e dois assessores”. Depois de algum tempo, avisado, se corrigiu. O lapso, no entanto, ficou.

Quem esperava um anúncio bombástico se frustrou. Nada sobre o Departamento Nacional das Milícias, a ser vinculado ao futuro Ministério da Segurança Pública e chefiado por Queiroz. Nenhuma elaboração sobre o plano de reformar a política de fomento cultural, revogando a Lei Rouanet para substituí-la pela Lei Vorcaro — com isenção total de impostos e possibilidade de remessas ao exterior sem qualquer tributação, naturalmente.

O resultado mais esperado, aliás, também não veio. Flávio havia proposto a Trump uma sessão de estreia de Dark Hours no cinema do próprio presidente, aquele pequeno paraíso particular nos fundos da Casa Branca. Era para ser o coroamento simbólico da visita — dois aliados, uma tela, um gesto de intimidade política que nenhum comunicado oficial precisaria descrever. Saiu de lá sem o compromisso. A agenda de Trump havia sido interrompida para uma foto. Não sobrou tempo para o filme.

* * *

No fundo, a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca não foi uma iniciativa de política externa. Foi uma prestação de contas. E o destinatário real não estava em Washington — estava numa cela confortável da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A sombra de Vorcaro aparece nessa foto projetada a quilômetros de distância. Quem financia poder não some quando vai para a cadeia — especialmente quando os interlocutores continuam trabalhando e os planos continuam sendo gestados.

Flávio precisava da foto com Trump. Precisava como sinal, como mensagem endereçada simultaneamente à base bolsonarista, ao mercado político e ao próprio patrono encarcerado: a conexão ainda funciona, o investimento ainda rende, os braços ainda são longos o suficiente para tocar Washington.

Talvez. Mas desta vez, os braços mal alcançaram a mesa de mogno.

Gaudêncio Penaforte escreve sobre política brasileira e poder.

MAIS LIDAS

ÚLTIMAS