por Gaudêncio Penaforte
Ontem, durante uma jornada exaustiva, recebi mensagem por WhatsApp de um amigo, com fotos de Flávio Bolsonaro no Salão Oval, na Casa Branca, justapostas a imagens do recente encontro entre Lula e Trump, com uma única frase lacônica: “Vale um artigo seu.” Junto, porém, enviou uma espécie de tratado de semiótica, certamente gerado por IA, analisando a composição da tão desejada foto pela qual Flávio Bolsonaro viajou a Washington, em primeira classe.
Confesso que não me motivou nem um pouco dedicar tempo ao assunto, que só voltou a despertar minha atenção quando, deposto de uma aborrecida assembleia de condomínio que me coube secretariar, peguei o final do Jornal Nacional e lá pelas tantas, depois da previsão do tempo para esta quarta-feira, apareceu a imagem da pose oficial, com uma nota encoberta, registrando o encontro. Não deve ter durado mais do que quinze segundos. Me alinho aos editores do JN nessa cobertura — eu que critiquei duramente a linha editorial do que ainda é o principal telejornal da televisão brasileira sobre o encontro de Lula e Trump.
Sobre a foto staged no Salão Oval, o JN deu o tratamento jornalístico adequado: registrou a imagem como um amuleto de turistas na Disney. Me fez lembrar o famoso vaticínio de Andy Warhol: “no futuro, todos serão mundialmente famosos por quinze segundos.” Flávio Bolsonaro teve os seus ontem.
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A foto, é preciso dizer, merece mais do que quinze segundos de análise — ainda que não muito mais.
Trump sorri com a placidez de um bisão albino em seu território natural, ladeado por dois servos em traje de gala. A pose é de senhor feudal recebendo vassalos de ultramar. Ele está sentado, ao centro, atrás da mesa presidencial — aquela peça de mogno que já viu de tudo. Flávio está de pé, atrás, gravata amarela bem ajustada, expressão compenetrada de quem cumpre missão. A mesa é o detalhe que não engana: ela separa, hierarquiza, subordina. Trump não se levantou. Não precisava. A foto já dizia o suficiente.
Compare com as imagens de Lula na Casa Branca: de pé, lado a lado, aperto de mãos, bandeiras simétricas ao fundo, contato visual, o protocolo diplomático em sua gramática mais precisa. Dois chefes de Estado que se reconhecem como pares. A diferença não é de afeto — é de status. E o status, na política, é tudo. Flávio foi a Washington como filho de ex-aliado. Lula foi como presidente do Brasil e estadista mundialmente respeitado. A imagem só confirmou o que o protocolo já sabia.
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Se o clique com Trump foi tudo o que Flávio conseguiu, as declarações à imprensa depois da pose não ajudaram em nada a capitalizar a passagem pela Casa Branca.
Afirmou ter pedido a Trump que declarasse o PCC e o CV organizações terroristas. Pareceu contido ao não ter incluído as milícias — talvez em deferência a Fabrício Queiroz, o miliciano de estimação de Flávio Bolsonaro, cuja sombra paira sobre qualquer debate sobre segurança pública que envolva o clã. E desfiou declarações desconexas, sem fio condutor, sem ambição programática, sem o mínimo esboço de um projeto de poder que justificasse a viagem. O momento mais embaraçoso veio quando declarou ter sido recebido por “Lula e dois assessores”. Depois de algum tempo, avisado, se corrigiu. O lapso, no entanto, ficou.
Quem esperava um anúncio bombástico se frustrou. Nada sobre o Departamento Nacional das Milícias, a ser vinculado ao futuro Ministério da Segurança Pública e chefiado por Queiroz. Nenhuma elaboração sobre o plano de reformar a política de fomento cultural, revogando a Lei Rouanet para substituí-la pela Lei Vorcaro — com isenção total de impostos e possibilidade de remessas ao exterior sem qualquer tributação, naturalmente.
O resultado mais esperado, aliás, também não veio. Flávio havia proposto a Trump uma sessão de estreia de Dark Hours no cinema do próprio presidente, aquele pequeno paraíso particular nos fundos da Casa Branca. Era para ser o coroamento simbólico da visita — dois aliados, uma tela, um gesto de intimidade política que nenhum comunicado oficial precisaria descrever. Saiu de lá sem o compromisso. A agenda de Trump havia sido interrompida para uma foto. Não sobrou tempo para o filme.
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No fundo, a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca não foi uma iniciativa de política externa. Foi uma prestação de contas. E o destinatário real não estava em Washington — estava numa cela confortável da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A sombra de Vorcaro aparece nessa foto projetada a quilômetros de distância. Quem financia poder não some quando vai para a cadeia — especialmente quando os interlocutores continuam trabalhando e os planos continuam sendo gestados.
Flávio precisava da foto com Trump. Precisava como sinal, como mensagem endereçada simultaneamente à base bolsonarista, ao mercado político e ao próprio patrono encarcerado: a conexão ainda funciona, o investimento ainda rende, os braços ainda são longos o suficiente para tocar Washington.
Talvez. Mas desta vez, os braços mal alcançaram a mesa de mogno.
Gaudêncio Penaforte escreve sobre política brasileira e poder.


