HomeEsportesCopa do MundoO Brasil perdeu de novo. E ninguém quer fazer a pergunta certa

O Brasil perdeu de novo. E ninguém quer fazer a pergunta certa

Por Rafaella Munhoz da Rocha

Domingo, Metlife Stadium, Nova Jersey. Bruno Guimarães perde um pênalti no primeiro tempo. Haaland faz dois. Neymar descontou tarde demais, de pênalti, já nos acréscimos, sem tempo de mudar o resultado. Fim de jogo: Noruega 2, Brasil 1. Sexta Copa do Mundo seguida sem título. O jejum começou em 2002 — e já dura mais de duas décadas.

A imprensa internacional não teve pena. Espanha chamou de fracasso inexplicável. Falou em fundo do poço. Itália decretou o fim de uma era. E aqui dentro, como sempre, o ritual se repete: técnico errou, escalação errou, geração acabou, é hora de recomeçar. De novo. Como em 2014. Como em 2018. Como em 2022.

Eu assisti ao jogo pensando em outra coisa. Pensando que a gente sempre erra a pergunta.

A gente pergunta quem vai ser o próximo técnico. Nunca pergunta quem está gerindo o sistema que produz esse fracasso, Copa após Copa, século após século.

Cento e onze anos, nenhuma mulher

A CBF nasceu em 1914. Faz mais de cem anos que existe uma entidade máxima comandando o futebol brasileiro — e em toda essa história, nunca, nenhuma vez, uma mulher ocupou a presidência. O primeiro cargo executivo feminino veio só em 2022. A primeira vice-presidente mulher da história da confederação foi eleita em 2025, na chapa atual. Primeira. Depois de cento e onze anos.

Não é coincidência que o país do futebol — cinco vezes campeão do mundo, mitologia inteira construída em cima da ideia de que “aqui a gente sabe jogar” — seja também o país que levou décadas para deixar uma mulher sequer sentar à mesa onde as decisões são tomadas. Gestão ruim não é acidente. É cultura. E cultura se sustenta em quem ocupa o poder.

Os números que ninguém cita

Enquanto a Seleção acumula desclassificações, existe uma dirigente no futebol brasileiro com um histórico de resultado que qualquer conselho de administração assinaria embaixo: dois Campeonatos Brasileiros, três Campeonatos Paulistas, uma Recopa Sul-Americana, uma Supercopa do Brasil — tudo isso à frente do Palmeiras, clube que ela decidiu tratar como empresa, não como associação movida a boa vontade e voto de torcedor organizado.

Falo de Leila Pereira. E sei o que ela respondeu, mais de uma vez, quando perguntaram se ela toparia presidir a CBF: não, de jeito nenhum, ela gosta é de clube.

Acho isso, na verdade, o dado mais revelador de todos.

Porque o problema nunca foi falta de mulher capaz. É estrutura que não convida, que não constrói caminho, que trata liderança feminina como exceção simpática — “ela é uma exceção no mundo do futebol”, já disseram sobre ela mesma — em vez de possibilidade real. Quantas mulheres com o currículo de gestão da Leila Pereira já ouviram, na vida profissional, algum tipo de “isso não é pra você”? E quantas, depois de ouvir isso vezes suficientes, aprenderam a responder “de jeito nenhum” antes mesmo de perguntarem?

O que eu queria dizer com esse texto

Não é sobre uma pessoa específica assumir um cargo específico. É sobre o que a gente continua sendo incapaz de enxergar: que resultado é gestão, gestão é estrutura, e estrutura reflete quem historicamente teve — e quem nunca teve — permissão para decidir.

O Brasil vai continuar perdendo Copa enquanto insistir em trocar o técnico e blindar o sistema. Enquanto tratar competência de gestão como algo que se prova em quadra, e não em resultado sustentado ao longo de anos. Enquanto achar normal que, depois de mais de um século, a exceção ainda seja notícia.

Eu não escrevo isso como torcedora carregando bandeira de qualquer clube. Escrevo como mulher que também já ouviu “de jeito nenhum” sem nunca ter perguntado. Escrevo acreditando que representatividade não é discurso de data comemorativa — é dado de resultado, é linha de currículo, é título levantado.

Se o Brasil quiser mudança de verdade, vai precisar parar de procurar culpado na escalação e começar a procurar comando na gestão. E vai ter que aceitar que, às vezes, quem tem mais competência para liderar já disse “não” — porque ninguém nunca chegou perguntando a sério.

Rafaella Munhoz da Rocha
Foto/Arquivo pessoal Rafaella Munhos da Rocha

Rafaella Munhoz da Rocha é advogada

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