Temporariamente fora da política, o ex-governador e ex-senador Alvaro Dias, alerta, neste artigo, que “é a sociedade que deve ser servida pela política — e não a política que deve servir-se da sociedade”. Para Alvaro, “é preciso recuperar a ideia de que exercer uma função pública significa prestar um serviço temporário à sociedade — e não encontrar nela um caminho permanente para privilégios, enriquecimento ou poder”. Leia o artigo:
Samuel Sales Saraiva é um daqueles jornalistas que não se limitam a observar a realidade: procuram compreendê-la em profundidade e têm a coragem de expor aquilo que muitos preferem não enxergar.
Uma advertência sobre a engrenagem do poder
Brasileiro radicado há muitos anos nos Estados Unidos, Samuel acompanha, com a perspectiva de quem conhece diferentes realidades políticas e sociais, as transformações do mundo contemporâneo. Seu monumental ensaio, publicado em vários idiomas, é uma reflexão corajosa sobre a crise das democracias, a perda de confiança nas instituições e a crescente distância entre o cidadão e aqueles que deveriam representá-lo.
Mais do que uma crítica a governos ou partidos, seu trabalho é uma advertência sobre a própria engrenagem do poder.
A cada eleição, mudam os rostos, os slogans e as promessas. Fala-se novamente em justiça, desenvolvimento, igualdade, segurança, dignidade e mudança. Mas, terminada a disputa eleitoral, permanece muitas vezes a sensação de que a engrenagem é mais forte do que os governos e de que o cidadão continua distante das decisões que determinam seu próprio destino.
Além das urnas, democracia precisa de confiança
O problema já não é apenas saber quem governa. É compreender como funciona o sistema de poder que sobrevive aos governantes.
Uma democracia não se sustenta apenas em urnas. Precisa de confiança. E a confiança desaparece quando o cidadão percebe que seu voto é solicitado, mas sua voz pouco importa depois da eleição; quando a lei parece rigorosa para alguns e tolerante para outros; quando dinheiro, influência e relações pessoais abrem portas que o mérito e a competência não conseguem abrir.
A política corre, então, o risco de deixar de ser serviço público para transformar-se em profissão, negócio e instrumento de poder.
Campanhas caras, estruturas partidárias dependentes de recursos, interesses econômicos organizados e relações pouco transparentes podem criar um ambiente no qual a representação popular se distancia da sociedade que deveria representar.
Quando os melhores começam a desistir da política
Mas há, no diagnóstico de Samuel, um aspecto especialmente preocupante — e que merece ser destacado.
Quando o ambiente político se degrada, os melhores começam a desistir de participar.
Cientistas, professores, médicos, pesquisadores, empreendedores, intelectuais, profissionais liberais e cidadãos com experiência, reputação e conhecimento observam a arena política e, muitas vezes, concluem que não vale a pena entrar nela.
Não querem expor suas famílias à agressividade das disputas. Não aceitam submeter uma trajetória construída durante décadas ao oportunismo, à mentira, à calúnia e à exposição destrutiva. Não desejam trocar sua independência por alianças de conveniência ou sua reputação por compromissos que não podem aceitar.
Preferem permanecer fora.
É uma decisão compreensível no plano individual, mas devastadora para a sociedade.
Quando um mecanismo está contaminado
Porque se estabelece um mecanismo perverso: quanto pior se torna o ambiente político, mais ele afasta justamente aqueles que poderiam ajudar a melhorá-lo.
A mediocridade não precisa expulsar os melhores. Basta tornar a política suficientemente degradante para que eles próprios decidam não participar.
E o espaço deixado por eles permanece aberto para quem possui menos escrúpulos, menos compromisso com a verdade e maior disposição para aceitar as regras informais do jogo.
A política passa, então, a selecionar não necessariamente os melhores, mas aqueles mais adaptados ao seu ambiente de degradação.
Quando isso acontece, perde-se algo muito maior do que uma eleição. Perde-se inteligência, experiência, conhecimento e capacidade de formular soluções para os grandes problemas nacionais.
Uma sociedade que desestimula seus melhores cidadãos a participar da vida pública desperdiça um patrimônio que não aparece nos balanços financeiros: seu patrimônio moral e intelectual.
É preciso recuperar a ideia de que exercer uma função pública significa prestar um serviço temporário à sociedade — e não encontrar nela um caminho permanente para privilégios, enriquecimento ou poder.
A política não pode ser um balcão de negócios. O orçamento público não pode ser moeda de troca. Mandatos não podem transformar-se em patrimônio pessoal. Privilégios não podem ser confundidos com direitos. E a representação popular não pode ser reduzida a uma disputa pelo controle dos recursos do Estado.
Mas não basta condenar os políticos. É necessário transformar as condições que produzem esse ambiente.
Campanhas devem ser mais simples e baratas. O mérito deve pesar mais do que o dinheiro. A transparência deve ser absoluta. Os recursos públicos precisam de rigoroso controle. Privilégios devem ser eliminados. E a vida pública deve estar aberta a quem tenha competência, independência e disposição para servir.
O maior desafio talvez seja romper com a resignação.
A frase “a política sempre foi assim” é uma das mais perigosas que uma sociedade pode repetir. Ela transforma a deformação em destino e o privilégio em normalidade.
Não, a política não precisa ser assim.
Pode voltar a ser um exercício de cidadania. Pode voltar a atrair pessoas que não precisam dela para sobreviver, enriquecer ou proteger interesses particulares. Pode voltar a ser espaço de homens e mulheres que chegam ao poder levando consigo uma história de trabalho, conhecimento e reputação — e que dele saem sem transformar o mandato em patrimônio pessoal.
Talvez esta seja uma das grandes tarefas de nosso tempo: construir uma política da qual os melhores cidadãos não queiram fugir, mas da qual se sintam convocados a participar.
Porque uma democracia não pode sobreviver indefinidamente se os honestos, os preparados e os independentes preferirem ficar de fora.
O poder público não pertence aos governantes. Pertence à sociedade
Como nos lembra, com coragem e lucidez, Samuel Sales Saraiva, o poder público não pertence aos governantes. O Estado não pertence aos seus ocupantes. Tudo isso pertence à sociedade.
E a política, em sua essência mais nobre, não existe para servir a si mesma.
É a sociedade que deve ser servida pela política — e não a política que deve servir-se da sociedade.
Álvaro Dias
Quando os melhores desistem da política
Temporariamente fora da política, o ex-governador e ex-senador Alvaro Dias, alerta, neste artigo, que “é a sociedade que deve ser servida pela política — e não a política que deve servir-se da sociedade”. Para Alvaro, “é preciso recuperar a ideia de que exercer uma função pública significa prestar um serviço temporário à sociedade — e não encontrar nela um caminho permanente para privilégios, enriquecimento ou poder”. Leia o artigo:
Samuel Sales Saraiva é um daqueles jornalistas que não se limitam a observar a realidade: procuram compreendê-la em profundidade e têm a coragem de expor aquilo que muitos preferem não enxergar.
Uma advertência sobre a engrenagem do poder
Brasileiro radicado há muitos anos nos Estados Unidos, Samuel acompanha, com a perspectiva de quem conhece diferentes realidades políticas e sociais, as transformações do mundo contemporâneo. Seu monumental ensaio, publicado em vários idiomas, é uma reflexão corajosa sobre a crise das democracias, a perda de confiança nas instituições e a crescente distância entre o cidadão e aqueles que deveriam representá-lo.
Mais do que uma crítica a governos ou partidos, seu trabalho é uma advertência sobre a própria engrenagem do poder.
A cada eleição, mudam os rostos, os slogans e as promessas. Fala-se novamente em justiça, desenvolvimento, igualdade, segurança, dignidade e mudança. Mas, terminada a disputa eleitoral, permanece muitas vezes a sensação de que a engrenagem é mais forte do que os governos e de que o cidadão continua distante das decisões que determinam seu próprio destino.
Além das urnas, democracia precisa de confiança
O problema já não é apenas saber quem governa. É compreender como funciona o sistema de poder que sobrevive aos governantes.
Uma democracia não se sustenta apenas em urnas. Precisa de confiança. E a confiança desaparece quando o cidadão percebe que seu voto é solicitado, mas sua voz pouco importa depois da eleição; quando a lei parece rigorosa para alguns e tolerante para outros; quando dinheiro, influência e relações pessoais abrem portas que o mérito e a competência não conseguem abrir.
A política corre, então, o risco de deixar de ser serviço público para transformar-se em profissão, negócio e instrumento de poder.
Campanhas caras, estruturas partidárias dependentes de recursos, interesses econômicos organizados e relações pouco transparentes podem criar um ambiente no qual a representação popular se distancia da sociedade que deveria representar.
Quando os melhores começam a desistir da política
Mas há, no diagnóstico de Samuel, um aspecto especialmente preocupante — e que merece ser destacado.
Quando o ambiente político se degrada, os melhores começam a desistir de participar.
Cientistas, professores, médicos, pesquisadores, empreendedores, intelectuais, profissionais liberais e cidadãos com experiência, reputação e conhecimento observam a arena política e, muitas vezes, concluem que não vale a pena entrar nela.
Não querem expor suas famílias à agressividade das disputas. Não aceitam submeter uma trajetória construída durante décadas ao oportunismo, à mentira, à calúnia e à exposição destrutiva. Não desejam trocar sua independência por alianças de conveniência ou sua reputação por compromissos que não podem aceitar.
Preferem permanecer fora.
É uma decisão compreensível no plano individual, mas devastadora para a sociedade.
Quando um mecanismo está contaminado
Porque se estabelece um mecanismo perverso: quanto pior se torna o ambiente político, mais ele afasta justamente aqueles que poderiam ajudar a melhorá-lo.
A mediocridade não precisa expulsar os melhores. Basta tornar a política suficientemente degradante para que eles próprios decidam não participar.
E o espaço deixado por eles permanece aberto para quem possui menos escrúpulos, menos compromisso com a verdade e maior disposição para aceitar as regras informais do jogo.
A política passa, então, a selecionar não necessariamente os melhores, mas aqueles mais adaptados ao seu ambiente de degradação.
Quando isso acontece, perde-se algo muito maior do que uma eleição. Perde-se inteligência, experiência, conhecimento e capacidade de formular soluções para os grandes problemas nacionais.
Uma sociedade que desestimula seus melhores cidadãos a participar da vida pública desperdiça um patrimônio que não aparece nos balanços financeiros: seu patrimônio moral e intelectual.
É preciso recuperar a ideia de que exercer uma função pública significa prestar um serviço temporário à sociedade — e não encontrar nela um caminho permanente para privilégios, enriquecimento ou poder.
A política não pode ser um balcão de negócios. O orçamento público não pode ser moeda de troca. Mandatos não podem transformar-se em patrimônio pessoal. Privilégios não podem ser confundidos com direitos. E a representação popular não pode ser reduzida a uma disputa pelo controle dos recursos do Estado.
Mas não basta condenar os políticos. É necessário transformar as condições que produzem esse ambiente.
Campanhas devem ser mais simples e baratas. O mérito deve pesar mais do que o dinheiro. A transparência deve ser absoluta. Os recursos públicos precisam de rigoroso controle. Privilégios devem ser eliminados. E a vida pública deve estar aberta a quem tenha competência, independência e disposição para servir.
O maior desafio talvez seja romper com a resignação.
A frase “a política sempre foi assim” é uma das mais perigosas que uma sociedade pode repetir. Ela transforma a deformação em destino e o privilégio em normalidade.
Não, a política não precisa ser assim.
Pode voltar a ser um exercício de cidadania. Pode voltar a atrair pessoas que não precisam dela para sobreviver, enriquecer ou proteger interesses particulares. Pode voltar a ser espaço de homens e mulheres que chegam ao poder levando consigo uma história de trabalho, conhecimento e reputação — e que dele saem sem transformar o mandato em patrimônio pessoal.
Talvez esta seja uma das grandes tarefas de nosso tempo: construir uma política da qual os melhores cidadãos não queiram fugir, mas da qual se sintam convocados a participar.
Porque uma democracia não pode sobreviver indefinidamente se os honestos, os preparados e os independentes preferirem ficar de fora.
O poder público não pertence aos governantes. Pertence à sociedade
Como nos lembra, com coragem e lucidez, Samuel Sales Saraiva, o poder público não pertence aos governantes. O Estado não pertence aos seus ocupantes. Tudo isso pertence à sociedade.
E a política, em sua essência mais nobre, não existe para servir a si mesma.
É a sociedade que deve ser servida pela política — e não a política que deve servir-se da sociedade.
Álvaro Dias


