O remédio Dostoiévski combate a cegueira do Século XXI. A gente vive na era da hiperconexão e do vazio absoluto. Olhamos para as telas à procura de respostas sobre como viver e nos enchemos de manuais de autoajuda, de coaches de finanças e de pílulas de positividade tóxica. Os gurus prometem a felicidade em dez passos simples, como se a existência fosse um algoritmo a ser decifrado. O resultado é uma sociedade muito ansiosa, fragmentada e que não consegue lidar com o sofrimento. O que falta hoje para as pessoas entenderem o que é viver não está no próximo trend do TikTok ou em outra moda passageira. Eu vejo isso nos diálogos do dia a dia. Segue a contribuição do usuário: No último lançamento do silício, falta o Dostoiévski. Para mim, ler o autor russo não é apenas um exercício de estudo; é um jeito de manter a mente viva. Eu vejo que Dostoiévski percebeu, como poucos na história da humanidade, que o ser humano não pensa de forma lógica. O ser humano é uma criatura cheia de contradições, capaz de fazer o maior sacrifício e também a maior crueldade, às vezes em apenas um segundo. Segue a contribuição do usuário: Quando Raskólnikov, em Crime e Castigo, tenta justificar o crime com uma lógica de utilidade, Raskólnikov não cai por causa da lei dos homens, mas por causa do tribunal duro da própria consciência. Para mim, isso deixa claro que a consciência pode ser mais pesada que qualquer sentença. Dostoiévski nos avisa, há mais de um século, que reduzir a vida só à razão ou ao materialismo é uma receita certa para a loucura. “O homem conta os seus problemas e não conta as suas alegrias. Se o homem contasse as alegrias como elas merecem, o homem veria que há felicidade suficiente para cada alegria na vida.” — Fiódor Dostoiévski Para mim, a dor parece um inimigo que a gente foge a todo custo. A gente cria os remédios sociais para não ter que encarar as nossas sombras. Mas nas páginas de Os Irmãos Karamázov e de Notas do Subterrâneo a gente vê que o sofrimento não é um erro do sistema, e sim a parte natural do caminho de crescimento. O Homem do Subterrâneo bate na nossa cara a verdade que a gente tenta esconder sob os filtros do Instagram: a gente é irracional, a gente se sabota e, às vezes, a gente deseja o caos só para provar que a gente é livre. Existe algo muito libertador, e esse libertador aparece quando a gente aceita a nossa natureza imperfeita. Sentimos falta de Dostoiévski para recuperar a empatia que se perdeu no tribunal da internet. Nos romances de Dostoiévski não tem vilões exagerados nem santos perfeitos. Tem os seres humanos que sangram, erram e buscam uma nova chance. Quando a gente mergulha nas obras de Dostoiévski, a gente tem que olhar para o outro — e para a gente mesma — com menos julgamento e mais compreensão. A gente aprende que a vida não se resume ao dinheiro ou ao status, mas à qualidade das escolhas morais que a gente faz. Para entender o que é viver, a gente precisa parar de fugir da realidade. A gente precisa de coragem como a de Dostoievski para olhar o fundo da alma humana e ainda achar um motivo para amar o próximo. Enquanto a gente ficar só na superfície, a gente vai continuar sentindo vazio. É hora de fechar as abas do navegador e abrir um clássico. A nossa sanidade vai agradecer.
Pedro Ernesto Macedo



