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Agentes de IA mudam a forma de usar softwares e podem tornar as aplicações invisíveis para o usuário

Nova geração de agentes inteligentes passa a operar sistemas corporativos em nome dos profissionais e inaugura uma nova fase da transformação digital baseada em resultados, e não em interfaces

Os agentes de inteligência artificial começam a transformar a forma como profissionais utilizam softwares corporativos. Em vez de navegar por diferentes aplicações para executar uma tarefa, o usuário passa a informar o resultado desejado, enquanto agentes consultam sistemas, integram dados e executam processos nos bastidores. O software não desaparece, mas deixa de ser o principal ponto de interação entre pessoas e tecnologia.

Durante décadas, a transformação digital das empresas seguiu uma lógica relativamente estável: cada necessidade deu origem a uma aplicação específica. Surgiram sistemas para vendas, atendimento, finanças, recursos humanos, marketing, contratos e gestão de projetos. O resultado foi um ambiente fragmentado, no qual uma única atividade frequentemente exige navegar entre diferentes plataformas, consultar múltiplas bases de dados e repetir informações em vários sistemas.

A chegada dos agentes de IA propõe uma mudança nessa dinâmica. Em vez de aprender onde cada função está localizada, o usuário informa um objetivo — como identificar clientes com contratos próximos do vencimento, analisar seu histórico de atendimento, preparar uma proposta comercial e agendar uma reunião. O agente consulta os sistemas necessários, cruza informações e coordena todas as etapas do processo automaticamente.

Para Vinícius Reis, CTO da StaryaAI, a principal inovação não está na substituição dos softwares, mas na forma como eles passam a ser utilizados. “O agente não substitui o CRM, o ERP ou qualquer outro sistema corporativo. Ele passa a orquestrar essas aplicações para executar um objetivo definido pelo usuário. A complexidade deixa de estar na operação manual dos sistemas e migra para uma arquitetura baseada em integrações, permissões e governança, capaz de sustentar essa execução com segurança e escala”, afirma.

Esse modelo altera uma lógica que permaneceu praticamente inalterada desde a popularização dos softwares empresariais. No formato tradicional, o usuário escolhe o sistema, localiza a funcionalidade, transfere informações entre aplicações e executa cada etapa do processo. Com agentes inteligentes, o usuário informa o objetivo, enquanto a IA identifica quais ferramentas utilizar, consulta os dados necessários e coordena a execução do fluxo de trabalho.

A mudança ocorre em um momento em que o mercado acelera a adoção dessa tecnologia. Segundo projeção do Gartner, mais da metade das empresas poderá deixar de investir em soluções de IA exclusivamente assistivas até 2028 para priorizar plataformas orientadas à execução de resultados em fluxos de trabalho. A consultoria também estima que, no mesmo período, um terço das experiências dos usuários poderá migrar das interfaces tradicionais para interfaces agênticas.

A transformação também já aparece nas pesquisas sobre adoção de inteligência artificial. Levantamento global da McKinsey mostrou que 62% das organizações já experimentavam agentes de IA em 2025, embora a maior parte ainda permanecesse em fase piloto ou de expansão limitada. No mesmo período, a Microsoft identificou que 46% dos líderes afirmavam utilizar agentes para automatizar processos em áreas como atendimento ao cliente, marketing e desenvolvimento de produtos.

Apesar do avanço, especialistas apontam que a adoção bem-sucedida depende menos da qualidade dos modelos de linguagem e mais da capacidade das empresas de integrar seus sistemas e estabelecer mecanismos robustos de governança. Para Reis, essa é a principal diferença entre um assistente conversacional e um agente corporativo. “Um agente só consegue executar processos de ponta a ponta quando está conectado aos dados, respeita as permissões da organização e opera com observabilidade completa. Sem integração, ele se torna apenas mais uma interface. Com integração, governança e rastreabilidade, passa a atuar como uma camada operacional entre o usuário e os softwares corporativos”, explica.

A evolução dos agentes de IA também modifica o modelo econômico do mercado de tecnologia. Tradicionalmente, empresas contratam softwares pelo número de usuários ou pelo acesso às funcionalidades. Com agentes inteligentes, cresce a possibilidade de modelos baseados na execução de tarefas, em processos concluídos ou em resultados efetivamente entregues. Ao mesmo tempo, essa evolução amplia os desafios relacionados à segurança, auditoria e responsabilização. Quanto maior a autonomia concedida aos agentes, maior precisa ser a capacidade de registrar quais sistemas foram acessados, quais dados foram utilizados, quais decisões foram tomadas e em que momento houve intervenção humana.

Na avaliação de Vinícius Reis, essa nova realidade exige três pilares fundamentais: orquestração entre sistemas, governança sobre permissões e decisões e rastreabilidade completa das operações executadas por agentes inteligentes. “O software não está desaparecendo. O que muda é seu papel. As aplicações deixam de ser o lugar onde o trabalho acontece e passam a funcionar como infraestrutura para agentes inteligentes. O diferencial competitivo deixa de ser a quantidade de telas e funcionalidades e passa a ser a capacidade de integrar sistemas, executar processos com segurança e entregar resultados com governança e rastreabilidade”, conclui o CTO.

A evolução dos agentes de IA não elimina os softwares corporativos, mas altera profundamente a forma como profissionais interagem com eles. Em vez de operar diferentes aplicações para concluir uma tarefa, os usuários passam a delegar objetivos, enquanto agentes coordenam sistemas, dados e processos. “Nesse cenário, a interface perde protagonismo e a capacidade de integrar, executar e governar fluxos de trabalho torna-se o principal diferencial competitivo das organizações”, completa o especialista.

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