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Um cenário desolador

Editorial Estadão

Em editorial publicado nesta segunda-feira (01), o jornal Estadão faz uma delicada e preocupante avaliação sobre o que pensa parte do eleitorado brasileiro em relação ao pleito deste ano. Por exemplo: “Escândalo do Master tirou poucos pontos de Flávio, segundo pesquisas, o que mostra que parte do eleitorado tolera corrupção e mentiras muito mais do que tolera o PT e Lula”.

O jornal avalia que se fossem outros os tempos, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência já teria ido inapelavelmente a pique, torpedeada pelo escândalo do Banco Master. Afinal, na época em que a corrupção era considerada pelo eleitorado o pecado capital da política, seria inaceitável que um candidato fosse flagrado pedindo dinheiro ao protagonista do maior assalto ao mercado financeiro da história brasileira. Hoje, no entanto, a julgar pelas primeiras pesquisas de intenção de voto que mediram o impacto do caso Master na candidatura de Flávio, a corrupção é fator secundário quando se trata de tirar Luiz Inácio Lula da Silva e o PT do poder – e, para muitos eleitores, apenas Flávio é capaz disso.

Obviamente, trata-se de um cenário desolador. Quando o eleitor considera admissível que seu candidato seja corrupto, desde que derrote um presidente e um partido pelos quais nutre repulsa visceral, revela-se a indigência do debate político brasileiro hoje. Não importam mais nem a biografia nem as propostas de Flávio; o que interessa é somente sua capacidade de esconjurar o lulopetismo nas urnas. Parece evidente que disso não sairá um país melhor.

Mas o eleitorado é também pragmático, a seu modo. Recorde-se que o próprio Lula foi reeleito em 2006 a despeito do imenso escândalo do mensalão. Isso significa que os eleitores deixaram em segundo plano as denúncias cabeludas contra o PT porque queriam dar um novo mandato a Lula, àquela altura bastante identificado com o Bolsa Família e com a valorização do salário mínimo. O mensalão, portanto, não impediu que Lula quase levasse a eleição no primeiro turno (teve perto de 49% dos votos) e que atropelasse o então tucano Geraldo Alckmin no segundo turno com acachapantes 61% dos votos.

Pode-se concluir, com isso, que só a corrupção não parece ser suficiente para que o eleitorado em geral decida se o candidato afetado pelo escândalo merece ou não seu voto. É evidente que há eleitores mais radicais que votarão em Flávio mesmo que ele seja flagrado empurrando uma senhora idosa num bueiro, porque odeiam Lula com todas as forças e porque consideram que Jair Bolsonaro, o pai do senador, os libertou das amarras civilizatórias e morais. Mas talvez a maioria dos eleitores que não gostam do PT e que hoje declaram voto em Flávio possa mudar de ideia, a depender dos rumos da campanha eleitoral, o que significa que o retrato do momento pintado pelas pesquisas, ainda que indiquem pouco prejuízo do Master na campanha do senador, não autoriza cravar que o filho de Jair Bolsonaro manteve intactas suas chances de derrotar Lula.

E aqui entramos num ponto curioso da corrida eleitoral. A preços de hoje, Lula aumentou sensivelmente suas possibilidades de reeleição, não só em razão das traquinagens de Flávio, mas também porque o presidente decidiu bater o recorde mundial de medidas demagógicas com vistas a seduzir os eleitores. Ao mesmo tempo, em razão da crescente rejeição ao nome de Flávio, que já era considerável antes do escândalo do Master, pode-se especular, como fez o candidato Romeu Zema, que votar no senador no primeiro turno equivaleria a dar a vitória a Lula no segundo. Seria mais um desserviço da família Bolsonaro ao País.

Do ponto de vista de Jair Bolsonaro, porém, tudo isso é irrelevante. Ao ex-presidente não interessa que um candidato de direita que não seja Flávio vença a eleição, pois, se isso acontecer, o bolsonarismo voltará ao terreno baldio da baixa política, de onde nunca deveria ter saído. Por esse motivo, Flávio deverá manter sua candidatura até o fim.

Tudo isso pode mudar se os concorrentes de Flávio no campo da direita mostrarem alguma força nos próximos meses. O problema é que as opções realmente competitivas são escassas, praticamente inexistentes. Assim como Lula se reelegeu com relativa folga em 2006 porque a oposição não conseguiu se viabilizar mesmo com o escândalo do mensalão, Flávio Bolsonaro segue favorito para desafiar o petista no segundo turno mesmo com o escândalo do Master porque seus concorrentes são igualmente fracos. Flávio sem o sobrenome Bolsonaro é apenas um político medíocre, suspeito de corrupção e de relações com milicianos; com o sobrenome, é uma força política incontornável. (Leia editorial do Estadão)

https://www.estadao.com.br/opiniao/um-cenario-desolador

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