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O centenário do Dr. Francisco da Cunha Pereira Filho

“Minha escola de jornalismo foi aquela ruidosa redação da Praça Carlos Gomes”.

Não aprendi jornalismo nos bancos de uma faculdade. Tentei duas vezes. Nas duas, desisti. Minha universidade foi outra: uma redação de jornal.

Foi na velha Gazeta do Povo, cercado por um seleto grupo de homens e mulheres comprometidos com a missão de contar à sociedade os fatos de cada dia, que comecei minha caminhada. Uma travessia que, em novembro, completa 50 anos.

A velha redação e o som do jornalismo sendo feito

E quem abriu aquela porta para mim foi o empresário e jornalista Francisco Cunha Pereira Filho. Talvez ele não soubesse, naquele momento, que estava mudando a minha vida.

Minha escola foi aquela ruidosa redação da Praça Carlos Gomes, no centro de Curitiba. Ali, o silêncio simplesmente não existia. Havia o batuque nervoso das velhas máquinas Olivetti, o tilintar quase permanente dos teletipos despejando notícias das agências France Presse e UPI e dos grandes jornais brasileiros, além dos telefones que tocavam sem descanso.

Era uma sinfonia desordenada. Para nós, porém, era música. Era o som do jornalismo sendo feito.

A Linha editorial e o bem-estar dos funcionários

Francisco Cunha Pereira Filho — o Dr. Francisco, ou simplesmente Patrão, como o chamávamos — parecia carregar duas preocupações permanentes: a linha editorial do jornal e o bem-estar das pessoas que trabalhavam para fazê-lo chegar às ruas todas as manhãs.

Era um homem de trato fino, atento à sociedade e profundamente ligado ao Paraná. Mesmo sem conhecermos a intimidade de seus laços familiares, percebíamos que havia nele uma maneira muito própria de conduzir a empresa: a Gazeta não era apenas um negócio. Tinha algo de família, de compromisso e, sobretudo, de pertencimento.

Neste dia 10 de setembro de 2026, Dr. Francisco completaria 100 anos. Um século.

Boa parte dessa existência foi abraçada ao jornalismo e à defesa do Paraná — ou, como ele gostava, ao paranismo. Tinha trânsito entre os três Poderes, conversava com governadores, políticos, empresários e lideranças da sociedade, mas preservava algo fundamental para quem comandava um jornal: a convicção de que a imprensa deveria participar da discussão sobre os grandes caminhos do Estado.

Não raramente, ideias e projetos defendidos pela Gazeta do Povo e pela então Rede Paranaense de Televisão ultrapassavam as páginas do jornal e as telas da televisão para entrar na agenda pública do Paraná.

Mas talvez a grandeza de um homem não possa ser medida apenas pelas empresas que construiu, pelas causas que defendeu ou pela influência que exerceu.

Há outra medida. A memória que ele deixa nas pessoas.

Neste 10 de setembro, seus filhos, Guilherme e Ana Amélia, tiveram a delicadeza de organizar um almoço simbólico para lembrar o centenário do pai. Reunirão pessoas que dividiram com Dr. Francisco uma parte importante da vida — especialmente jornalistas e antigos funcionários que estiveram com ele nas redações, nas oficinas e na expedição do jornal.

Gente que viveu o tempo em que notícia tinha cheiro de tinta. Gente que esperava a rotativa começar a rodar.

Gente que aprendeu que um jornal não nasce apenas das mãos de quem escreve. Nasce do repórter, do fotógrafo, do diagramador, do gráfico, do motorista, do pessoal da expedição e de tantos outros trabalhadores que, madrugada adentro, colocavam o jornal na rua.

O legado do “patrão”: união que resistiu ao próprio tempo

O Patrão nos deixou conhecimento, ensinamentos e, principalmente, um sentimento de união que resistiu ao próprio tempo.

Tanto que alguns daqueles personagens da velha Gazeta continuam se encontrando até hoje. Formamos um pequeno grupo, carinhosamente batizado de “Gazetossauros”. De vez em quando, ocupamos uma mesa para um jantar ou almoço. Lá estão: o Nelson Souza Filho, o Luiz Tavares (Tatá), Erlei Edilson (Mosquitinho), Luiz Gonzaga, Roberto Massignan, Hernani Vieira, Gerson Cordeiro, Reinaldo Bessa, Ademir Paixão, Rogério Florenzano, que nos deixou, Jefferson, Joãozinho. Embora não façam parte deste grupo, meus agradecimentos ainda a dois grandes jornalistas: Dr. D’Aquino e Antonio Diniz.

Mudam os restaurantes. Mudam os cabelos — quando ainda existem. Mudaram as máquinas, desapareceram os teletipos, as rotativas silenciaram e o jornalismo atravessou uma revolução tecnológica inimaginável para aquela redação da Praça Carlos Gomes.

Mas a conversa acaba sempre voltando para o mesmo lugar: a Gazeta do Povo e o Dr. Francisco.

Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de eternidade.

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