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Banksy e a cegueira moral do nosso tempo


por Pedro Santafé


A figura esquiva e misteriosa de Banksy e sua arte desconcertante e
multifacetada me fascinam desde que ele se tornou alvo de ampla
cobertura midiática e personagem icônico da cena contemporânea.
Há nele algo de profeta urbano — esse homem que emerge das
sombras das madrugadas para depositar, nos interstícios da cidade,
pequenas bombas de lucidez.


Seu último trabalho tem a potência de um manifesto-denúncia sobre
a cegueira moral do nosso tempo, que ressuscita velhos fantasmas.
Na madrugada do dia 29 de abril de 2026, uma estátua foi instalada
em Waterloo Place, no coração de Londres. Ela mostra um homem de
terno, de compleição física rechonchuda, segurando uma grande
bandeira que, açoitada pelo vento, dobra-se sobre seu próprio rosto e
lhe veda os olhos — enquanto ele avança, passo firme e resoluto,
como se acompanhasse uma marcha militar, projetando-se para além
da borda do pedestal. O precipício está adiante, mas ele nada vê.

Meu encantamento pela arte transgressiva de Banksy me levou a
pregar uma peça, que pretendia ser inocente, no grupo de WhatsApp
do meu condomínio — e em um amigo de boa-fé. Foi quando, no ano
passado, as paredes brancas e encardidas da entrada da garagem do
meu edifício em Brasília, na SQS 313, foram submetidas a uma
limpeza pesada em preparação para receber uma nova demão de
tinta. O método utilizado produziu manchas orgânicas, sombras que
pareciam figuras espectrais, traços que lembravam pinturas
rupestres pré-históricas e silhuetas em movimento. O inesperado
grafite me seduziu a ponto de inventar a lenda urbana do
aparecimento de um artista anônimo, que caprichosamente nominei
de “Banksy do Cerrado”, que teria deixado pinturas rupestres
urbanas naquelas paredes manchadas.


Escrevi crônicas em série sobre o fenômeno, inventei personagens
fictícios com nomes críveis — como uma historiadora da arte da
Universidade de Brasília (UnB) e uma crítica de arte urbana que
clamava pelo tombamento imediato da garagem —, e até um parecer
fake do Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, que teria enviado seus técnicos ao local e atestado a
originalidade e o valor artístico da intervenção realizada na entrada
da garagem do Bloco A da SQS 313. As crônicas foram progredindo e
relatavam aglomeração de curiosos, moradores do edifício divididos
entre o encantamento e o temor de que o tombamento impedisse
para sempre a repintura das paredes. Especulava, ainda, que o
trabalho do Banksy do Cerrado se converteria em um novo ponto
turístico, concorrendo com o jardim de Burle Marx da SQS 308, a
superquadra modelo da Asa Sul — com moradores das quadras
vizinhas e visitantes vindos de todas as partes para contemplar as
inusitadas “pinturas rupestres contemporâneas”.


Meu amigo — pai de uma colega de escola da minha filha, de 13 anos
— não apenas deu crédito à narrativa: em pleno domingo, deslocouse da SQS 316, onde morava à época, até a SQS 313, superquadra
onde resido e onde ele próprio viveu até a juventude, para ver com os
próprios olhos a arte misteriosa na entrada da minha garagem.
Soube disso dias depois, pelo relato que minha filha ouviu da sua
colega, e me senti genuinamente mal. A brincadeira quase me custou
sua amizade.


Conto isso não como anedota, mas para justificar o quanto me
chamou a atenção a extensa cobertura dos últimos dias, na imprensa
brasileira e, sobretudo, na mídia internacional, sobre a mais recente
intervenção urbana de Banksy, desta feita na forma de uma estátua
imponente. É preciso notar que Londres esteve recentemente no foco
da mídia brasileira por outro evento, ocorrido em 25 de abril de 2024,
que reuniu importantes autoridades brasileiras: uma degustação
exclusiva do whisky Macallan, no exclusivíssimo George Club,
patrocinada por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. O
happy-hour londrino, que incluiu charutos, custou a bagatela de US$
640.831. O evento recreativo, ao qual acudiram ministros do STF,
ocorreu paralelamente à programação do fórum jurídico “Brasil de
Ideias”. Mas não nos deixemos distrair: o que importa aqui é a arte engajada
— não as frivolidades das nossas elites.


Diante da estátua instalada no Waterloo Place, é impossível não
pensar em Hannah Arendt. Em 1963, ao cobrir o julgamento de Adolf
Eichmann em Jerusalém, a filósofa cunhou uma das expressões mais
perturbadoras do século XX: a banalidade do mal. Eichmann não era
um monstro com garras. Era um burocrata. Um homem que usava
terno. Alguém que cumpria ordens, administrava logísticas, assinava
papéis — sem ver, ou sem querer ver, a consequência dos seus atos.
Banksy imortalizou essa figura — a do burocrata do horror, o
servidor obediente do poder — e a colocou em bronze entre os heróis
de pedestal do Império Britânico. A provocação é devastadora: que
diferença há, afinal, entre os monumentos que a história escolheu
celebrar e o homem cego que ela escolheu esquecer?


A coincidência é aterradora: o que Arendt descreveu como exceção
histórica ressurge hoje como o novo normal, sob a égide de Trump,
Putin, Netanyahu e uma constelação de autocratas. Os novos
movimentos neofascistas que proliferam pela Europa e pelas
Américas não chegam ao poder de coturno e uniformes militares.
Chegam de terno, alguns bem cortados, com bandeiras desfraldadas,
com discursos de “ordem” e “identidade nacional”, com as palavras
certas e os gestos ensaiados. E carregam consigo políticas de
extermínio que, embora adornadas com a linguagem tecnocrática de
nosso tempo, evocam sem pudor o fantasma dos genocídios que
marcaram o século XX.


Um dos emblemas mais nítidos dessa regressão civilizatória é a
perseguição sistemática aos imigrantes. Nos Estados Unidos, o ICE
— a força policial anti-imigração de Trump — tornou-se símbolo de
uma era: operações violentas, execuções em abordagens e repressão
a manifestações, separação de famílias, detenções arbitrárias de
pessoas que, na maioria das vezes, não têm outra bandeira senão a
da sobrevivência.


Na Argentina, Milei aplica a mesma política com o mesmo verniz
ideológico, transformando os mais vulneráveis em inimigos internos
a combater. Ao enumerar políticas anti-imigrantes de Trump como
modelo a seguir, o líder direitista argentino endurece o cerco aos
“hermanos” bolivianos e paraguaios que entraram irregularmente no
país — trabalhadores pobres que cruzaram fronteiras em busca do
que seus próprios países não lhes ofereceram. É a desumanização
metódica de quem foge da miséria e da violência — e isso, por si só, já
basta como denúncia.


A estátua de Banksy foi posicionada entre monumentos à glória
imperial britânica, perto do Memorial da Guerra da Crimeia.
Certamente, Banksy não escolheu esse endereço por acaso. Ele sabe
como ninguém que o passado imperial ainda assombra os britânicos
— e que a história da humanidade é, em grande medida, a história de
bandeiras nacionalistas que cegaram homens e povos inteiros.


A polarização política que acompanha a reemergência da extremadireita é, talvez, a mais perfeita encarnação contemporânea do que
Banksy esculpiu. Quando metade de uma nação não consegue
enxergar o que a outra metade vê com clareza, quando o debate
democrático se dissolve em trincheiras onde só a bandeira do próprio
campo tem valor patriótico e a do adversário representa uma ameaça
— estamos todos, em alguma medida, marchando com o rosto
coberto em direção ao abismo. A polarização não é apenas um
sintoma da crise democrática. É, ela própria, uma espécie de
catarata gigante que nos venda os olhos e impede de ver o outro
como semelhante e igual. Os imigrantes são os novos bárbaros no
discurso da extrema-direita.


Não por acaso, a estátua foi instalada no coração de Londres
exatamente enquanto o rei Carlos III realizava uma visita de Estado a
Washington, sendo recebido por Donald Trump em um jantar de gala
e discursando perante o Congresso americano em defesa da aliança
histórica entre os dois países e da OTAN. O artista leu o calendário
com precisão cirúrgica. Pomp and circumstance, como diria Elgar —
cuja marcha Banksy escolheu como trilha sonora do vídeo de
confirmação da autoria, publicado na sua conta no Instagram na
quinta-feira, 30 de abril. A mesma música tocada na coroação de
Eduardo VII. O mesmo gesto de glória cega.


Banksy não pode ser acusado de oportunista por usar a linguagem
universal da arte para confrontar e denunciar o horror e a nossa
indiferença diante da banalidade do mal dos tempos em que vivemos.
Em 2017, ele abriu em Belém, a poucos metros do muro de separação
israelense na Cisjordânia, o Walled Off Hotel — um hotel-manifestogaleria que ele mesmo descreveu como tendo “a pior vista de
qualquer hotel no mundo”. Cada quarto olha diretamente para o
muro de concreto e arame farpado. Ao reabri-lo, após o fechamento
forçado provocado pelos ataques de 7 de outubro de 2023, seu
gerente disse que o hotel se tornara “um testemunho vivo da
resiliência e da identidade de um povo que se recusa a desaparecer”.
É do mesmo artista engajado, portanto, que vem essa estátua de
Waterloo Place. Um artista que já se pôs diante do muro —
literalmente — e que sabe que as bandeiras que cegam os homens de
terno e gravata neste século são as mesmas que, em outros tempos,
conduziram povos inteiros ao precipício da falência moral. E que a
cegueira e a indiferença do nosso tempo diante de novos genocídios e
matanças indiscriminadas de civis — em Gaza, na Ucrânia, no Irã, no
Líbano, nos conflitos esquecidos do Sudão, da República
Democrática do Congo, do Sahel e de tantos outros pedaços do
mundo que a mídia global prefere ignorar — nos torna cúmplices do
extermínio em massa.


Não tomo partido de nenhuma narrativa sectária. Reverencio todas
as vítimas — as que tombaram ontem e as que tombam hoje. O que
denuncio é a justificação da barbárie em nome de qualquer causa: a
bandeira do ódio aos imigrantes e do ódio religioso que os donos do
poder promovem para mobilizar o apoio dos seus concidadãos e
conduzir a multidão, orgulhosa e cega, rumo ao abismo.
Quando o sol nasceu na última quarta-feira (29) sobre Waterloo Place
e os londrinos depararam com a estátua daquele homem de terno —
que, pela compleição física rechonchuda, alguns associaram à figura
de Trump — avançando para o abismo à frente dos seus pés, com a
bandeira cobrindo os olhos, algo quebrou a rotina e interpelou as
consciências pelo mundo afora. As pessoas de diferentes culturas e
nacionalidades reconheceram o potente manifesto-denúncia do
artista.


É o poder de uma grande obra de arte: fazer-nos ver e confrontar o
que preferiríamos ignorar enquanto seguimos com nossas rotinas e
compromissos. Banksy ergue um espelho onde os outros erguem
monumentos. E o que esse espelho revela é perturbador: somos nós,
o homem do terno, marchando com toda a convicção do mundo para
o precipício da história — enquanto chamamos de glória o que é
queda, e de pátria o que é cegueira.


Hannah Arendt nos alertou que o mal não precisa de monstros
degenerados para prosperar. Banksy nos mostra, agora em
bronze, que também não precisa de guerras declaradas: basta
uma bandeira, um terno bem cortado, e a disposição coletiva
de não enxergar o abismo à nossa frente.


⸻ Pedro Santafé é cronista e jornalista

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