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Líderes mundiais se dividem sobre operação dos EUA na Venezuela

Desde o dia três de janeiro estamos tentando decifrar e entender o histerismo do presidente norte-americano, Donald Trump, que puxou o pino da granada e invadiu a indefesa Venezuela. Foi predatório. Uma ruptura democrática na América Latina.  A invasão militar na Venezuela é rejeitada pela maior parte do mundo civilizado. ONU, União Europeia e países da América Latina sabem que guerra não resolve ditadura — apenas multiplica cadáveres, refugiados e instabilidade. A jornalista Lorena Nogaroli, sócia e braço da Central Press Assessoria de Comunicação em Londres, nos brinda com uma análise do ponto de vista das lideranças mundiais sobre essa possível guerra que só produziria derrotados. Os Estados Unidos pressionam com sanções, mas conhecem o custo de um conflito regional. Do outro lado, Rússia, China, Irã e Cuba sustentam Maduro, deixando claro que a Venezuela não é apenas um problema interno, mas peça de um jogo geopolítico perigoso. Para a América Latina, a conta seria impagável: fronteiras em colapso, explosão migratória, avanço do crime organizado e economias ainda mais fragilizadas. Não haveria vencedores — apenas países arrastados para um caos que não criaram. A invasão não libertaria a Venezuela; apenas espalharia sua tragédia pelo continente. (Pedro Ribeiro, editor).

Por Lorena Nogaroli

Londres, 6 jan 2026 – Líderes globais se dividiram após a operação militar dos EUA em 3 de janeiro, que capturou Nicolás Maduro e Cilia Flores em ataques cirúrgicos (Delta Force) contra alvos em Caracas. Trump anunciou a ação às 6h21 (hora local). Reações polarizam-se entre o apoio à remoção do regime e a condenação por violação da soberania.

O debate global sobre a captura de Nicolás Maduro apresenta dois enfoques principais: um jurídico-normativo, centrado na legalidade da ação sob o direito internacional, e outro político-segurança, focado nos problemas do regime de Maduro e nos objetivos declarados da operação.

Críticas à legalidade da operação

Esta abordagem, defendida por países como Brasil, México, Rússia, China e entidades como a ONU, centra-se nos princípios fundadores da Carta das Nações Unidas (1945):

  • Proibição do uso da força (Artigo 2.4):
    Líderes latino-americanos, europeus e asiáticos argumentaram que, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, a operação constitui uma intervenção ilegal em um Estado soberano.

“Trata-se de uma afronta gravíssima à soberania; os bombardeios e a captura de um chefe de Estado violam normas internacionais consagradas”, declarou o governo brasileiro em nota oficial.

  • Princípio de não intervenção (Artigo 2.7):
    Cuba, Uruguai e outros governos condenaram o ataque, sustentando que a captura de Maduro desrespeita a imunidade funcional prevista no direito internacional.
  • Precedente perigoso:
    O secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou que “ações unilaterais como essa minam o sistema multilateral e criam precedentes que ameaçam a estabilidade internacional”. Notas conjuntas de países como Chile, Colômbia e Espanha reforçaram essa posição.
  • Declaração de Montevidéu (2014):
    Brasil, Uruguai e Cuba mencionaram o compromisso regional com a América Latina como “zona de paz”, sem intervenção externa — um princípio firmado por CELAC e Unasul.

O que diz a defesa

Governos alinhados aos Estados Unidos, como Argentina, Paraguai, Equador e Ucrânia, enfatizaram a natureza do regime venezuelano como justificativa para a ação:

  • Autoritarismo e eleições contestadas:
    A oposição venezuelana, organizações da sociedade civil e observadores internacionais já haviam denunciado irregularidades nos pleitos de 2018 e 2024, embora não exista consenso jurídico formal que os anule.

     “Um ditador foi removido; é uma excelente notícia para o mundo livre”, declarou o presidente argentino Javier Milei.
  • Acusações criminais nos EUA:
    Desde 2020, o Departamento de Justiça norte-americano sustenta que Maduro liderava uma organização criminal conhecida como “Cartel de los Soles”. A operação foi descrita como “comparável à prisão de narcotraficantes de alto escalão” e teve nova denúncia judicial apresentada após sua detenção.
  • Crise humanitária e repressão:
    Dados da ONU apontam que a Venezuela sofreu cuma ontração econômica de cerca de 70% entre 2013 e 2020, hiperinflação superior a 130 mil por cento em 2018 e a migração de mais de 7 milhões de pessoas. O Tribunal Penal Internacional conduz investigação sobre supostos crimes contra a humanidade cometidos pelo governo de Maduro em 2017 .
  • Sinal geopolítico:
    O presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy declarou que “o Ocidente mostrou que sabe o que fazer com ditadores que violam tratados”, em alusão indireta à Rússia.

Posições intermediárias: crítica ao método, apoio ao resultado

Países europeus como França e Alemanha adotaram discursos mais cautelosos:

  • França (Emmanuel Macron):
    Afirmou que “o fim de uma ditadura é positivo, mas o método adotado pelos Estados Unidos é juridicamente questionável”.
  • Alemanha (Friedrich Merz):
     Destacou que “Maduro destruiu a democracia venezuelana, mas a legalidade da intervenção exigirá ampla análise”.
  • Peru:
     Reiterou seu compromisso com o direito internacional, embora reconheça a deterioração institucional no país caribenho.

Faltam informações

Líderes como o premier britânico Keir Starmer justificaram a posição neutra com base na “falta de dados verificados”. As lacunas envolvem:

  1. Número de mortos e feridos:
    Estimativas sobre vítimas civis e militares ainda são conflitantes, sem auditoria independente.

  2. Fundamento legal da operação:
    Os EUA ainda não esclareceram sob qual artigo do direito internacional basearam sua ação — se autodefesa, proteção humanitária ou Doutrina Monroe adaptada.

  3. Situação interna na Venezuela:
    A vice Delcy Rodríguez declarou-se presidente interina com apoio do Supremo Tribunal de Justiça, mas sua autoridade prática é incerta. A oposição, liderada por Edmundo González Urrutia, reivindica legitimidade para conduzir uma transição.

  4. Provas criminais contra Maduro:
    Embora haja indiciamentos formais nos EUA, especialistas em direito internacional apontam que não há prova pública e inequívoca da liderança de Maduro sobre organizações criminosas.

  5. Objetivos futuros dos EUA:
    Washington ainda não detalhou se pretende instalar um governo provisório, supervisionar novas eleições ou retirar-se em curto prazo. Isso suscita preocupações quanto a possíveis interesses estratégicos, como o acesso ao petróleo venezuelano.

O caso reacende o antigo dilema entre a soberania estatal e a responsabilidade internacional diante de violações massivas de direitos humanos. Enquanto os países do BRICS, da ALBA e parte da Europa condenam o precedente, aliados regionais dos EUA comemoram a queda de Maduro. O futuro da Venezuela dependerá da estabilização interna, do julgamento internacional e da capacidade da comunidade internacional de restabelecer o diálogo institucional multilateral.

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